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Turismo de Base Comunitária no Baixo Rio Negro tem apelo solidário e valoriza a cultura local

Roteiro de visitação inclui uma rica degustação da culinária regional, caminhadas em trilhas, apresentações indígenas, contato com o artesanato e projetos sustentáveis, além da convivência com comunitários 05/06/2015 às 13:12
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Turismo comunitário valoriza cultura local
artur cesar Manaus (AM)

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Dona Glória é casada há 15 anos com seo Luiz. Além de apaixonados um pelo outro, eles têm outra paixão em comum: as belezas naturais da comunidade São João do Tupé, distante um pouco mais de meia hora de Manaus de voadeira. Por ela, eles abandonaram a cidade e resolveram construir por conta própria uma pequena pousada, com um restaurante anexo, para receber os visitantes.

O empreendedorismo do casal Araújo é um dos exemplos incentivados pelo Projeto de Turismo de Base Comunitária no Baixo Rio Negro, que inclui dois roteiros: o Tucorin (na margem esquerda) e o RDS Rio Negro (na margem direita). A ideia é que os comunitários acolham os interessados em conhecer o seu modo de vida, suas tradições e suas práticas, as quais garantam a conservação ambiental e geração de renda local.


No último dia 1º de junho, um grupo de jornalistas foi levado para conhecer parte do Roteiro Tucorin, que inclui uma rica degustação da culinária regional, caminhadas em trilhas, apresentações indígenas, contato com o artesanato e projetos sustentáveis, além da convivência com comunitários.

Partimos primeiro para a comunidade de São Sebastião do Rio Cuieiras, a mais distante (1h30 de voadeira) do passeio. Lá, fomos recebidos com uma mesa farta de café da manhã e servidos com histórias de sucesso de mulheres que fazem parte do Clube de Mães Maria de Nazaré. Elas passaram a investir na composição de doces, geléias, biscoitos e balas a partir do beneficiamento artesanal de frutas da região amazônica.

A produção já ultrapassou a barreira do Amazonas e ganhou o mercado nacional, por meio de pequenas amostras em eventos realizados fora do Estado. A caminhada delas é longa até conseguir o tão desejado selo da Anvisa, mas até lá elas seguem buscando o aperfeiçoamento. “Antes a gente não aproveitava muita coisa, mas passamos a agregar valor a frutas como o cubiu”, conta dona Maria Inês, 44 anos. “Vamos tentar melhorar os nossos produtos para receber os turistas”.

O cubiu, aliás, ganhou outras receitas. Na segunda comunidade visitada, a de Nova Esperança, ele estava presente na mesa em forma de salada e creme. O cardápio do almoço incluiu ainda matrinxã assada e calderada de tambaqui. Tudo preparado no restaurante construído pela comunidade formada por indígenas da etnia Baré. Lá quem comanda é a cacique Rosimeire Garrido Melo, 36. Ela conta que desde muito tempo a comunidade era visitada por turistas, que geralmente estavam embarcados em navios que passavam pela região. “Não queríamos apresentar apenas o nosso artesanato, mas também a nossa culinária. Buscamos então parcerias para a estruturação do nosso restaurante”.

São 22 famílias e pouco mais de 100 pessoas que moram na comunidade de Nova Esperança. Entre as atrações oferecidas por eles estão partidas de futebol com as indígenas (elas chegam a formar três times) e a visitação à casa onde se prepara a farinhada, além do artesanato.


“Quando os turistas ganham as partidas de futebol ficam mais alegres, né? Podem até voltar”, brinca Rosimeire. “Eles também gostam muito de acompanhar o processo de produção da nossa farinha. No final, levam um pouco em um paneiro forrado com folha de cupuaçu como lembrança”.

PRAIA CONVIDATIVA

Com uma praia que convida para um banho de rio, a comunidade Três Unidos foi nossa próxima parada. Lá somos recebidos pela filha do cacique, Neurilene Cruz da Silva, 31. Ela nos apresenta o restaurante construído recentemente para receber os visitantes. Formada por indígenas da etnia Kambeba, a comunidade vem procurando se reestruturar para melhor receber os visitantes. Neurilene nos conta que o pai construiu um quarto com banheiro para acomodar os turistas que queiram pernoitar no local.

GUIAS EXPERIENTES

Na mesma comunidade, somos apresentados ao Seo Manoel Gomes Ferreira, 66, que tem um serviço diferenciado de trilha. Ele recebe muitos alunos de outros estados e até de outros países para apresentar os segredos da floresta. Somente no mês de maio foram 300. “Se você faz um trabalho bem feito você é divulgado. Não sei ler, nem escrever, mas não é por isso que não sei receber meus visitantes. Sinto um grande orgulho de poder repassar para os estudantes os meus conhecimentos”, conta Seo Manoel, que também tem um programa de hospedagem de estudantes na selva.


À noite, voltamos para a pousada de dona Glória e seo Luiz Araújo. Com sua simpatia contagiante, ela conta que ainda tem que melhorar muito sua estrutura para acomodar os visitantes, mas que tem total disposição para encarar o desafio.

“É uma coisa que faz bem não só para nós, mas também para toda a comunidade, os permissionários da praia, os catraieiros, enfim, todos ganham”, destaca.

Parcerias necessárias

Todo esse trabalho de capacitação dos comunitários para que eles recebam da melhor maneira possível os turistas dentro do Projeto de Base Comunitária, é feito por meio de parcerias entre órgãos governamentais como Secretaria Municipal (Semmas) e Estadual de Meio Ambiente (Semma) e instituições como o Nymuendaju, entidade sem fins econômicos que promove o desenvolvimento de projetos de intervenção social e de pesquisa em comunidades amazônicas.


O Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPE) também atua nesse processo. Ele atua em pesquisas, formação de profissionais, educação ambiental e programas de geração de renda e negócios sustentáveis que ampliem a responsabilidade socioambiental de comunidades, empresários e formadores de opinião. A coordenadora de projetos do IPE, Nailza Porto, explica que o importante é fazer a ponte entre os comunitários e o público interessado, por meio de agências de turismo sérias, que não os vejam como empregados, mas parceiros.

Segundo o titular da Secretaria de Estado do Meio Ambiente, Antônio Ademir Stroski, a secretaria legalmente não pode fazer investimentos diretos numa iniciativa privada com fins lucrativos, mas que a mesma trabalha para que esses comunitários saibam como trabalhar o turismo sustentável, tenham noções de empreendedorismo e acesso à políticas estaduais que o farão ter mais sucesso em seus negócios. “Nós não podemos atender os comunitários com a construção de uma pousada ou um restaurante, mas nós fazemos articulações para que ele consiga esses recursos”, explica Stroski.

Saiba mais: Ritual indígena

Na comunidade de São João do Tupé é possível assistir a parte de um ritual indígena. No dia da reportagem eles receberam a visita de turistas que estavam em um navio estrangeiro. O pajé Raimundo Kissib, 68, da etnia Dessana, explica que eles têm muito a oferecer aos turistas, como caminhadas guiadas e a chance de pernoitar na oca.

Serviço

Informações:  Ruth Souza - (92) 99275-1517 ruthturismologa@hotmail.com

Nailza Pereira – (92) 99136-0706nailzatur@hotmail.com

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