Quinta-feira, 06 de Maio de 2021
ENTREVISTA

Ufam lança publicações sobre indígenas, quilombolas e pessoas em situação de rua durante pandemia

Livro “Quarentenas Amazônicas" chega a seu terceiro volume disponibilizado gratuitamente na internet



ivania_C556666C-6491-489A-93B3-470F4886D042.JPG Foto: Divulgação
01/06/2020 às 19:21

Abordar a invisibilidade dos indígenas, dos quilombolas e das pessoas em situação de rua durante a pandemia do novo coronavírus na região amazônica. Esse é o tema que move os artigos reunidos no primeiro volume da publicação “Quarentenas Amazônicas”, lançado e disponibilizado gratuitamente na internet pelas editoras da Universidade Federal do Amazonas (Edua) e Alexa Cultural. O segundo e o terceiro volume já estão disponíveis na internet.

Os professores Renan Albuquerque e Gerson André Ferreira, do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Ambientes Amazônicos, da Ufam, são os responsáveis pela organização. Os três artigos do livro, compilados entre 13 de abril e 2 de maio, tratam, no geral, da situação em que se encontram os grupos sociais com assistência à saúde negligenciada pelo poder público durante a onda de infecções da Covid-19 no Amazonas. Os artigos são assinados pelos professores Renan Albuquerque, Ivânia Vieira, George Ítalo Ferreira e Noélio Martins.



Em um dos textos, intitulado “As lutas de Dometila e Telma em um encontro imaginário”, a jornalista Ivânia Vieira, articulista de A Crítica, aproxima, por meio de memórias, duas mulheres latino-americanas que em suas lutas parecem separadas no espaço e no tempo, mas que são bem próximas no que diz respeito ao viver e agir em prol da coletividade – um tema em voga em tempos de quarentena voluntária.

Para isso, ela, que também é professora da Ufam, tece um diálogo imaginário entre a coordenadora-geral da União de Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira (Umiab), Telma Taurepang, e a boliviana Domitila Barrios de Chungara, líder operária falecida em 2012, tendo como núcleo o relato de resiliência e das lutas das mulheres pan-amazônicas. Tomando como ponto de partida alguns temas levantados pelo artigo, A CRÍTICA conversou, por e-mail, com a professora Ivânia Vieira.

A Crítica - Professora, o que te motivou a traçar, em meio a esse isolamento social que vivemos, um diálogo imaginário entre a líder indígena Telma Taurepang e a líder operária boliviana Domitila Barrios?

Ivânia Vieira - Estava em conversas com Telma e outras mulheres indígenas da Amazônia. Procurei ouvi-las e compreender o que sentiam, quais suas dores, preocupações, propostas e percepções em meio à pandemia da Covid-19. Telma é real e é a personagem dessa conversa ampliada entre nós três [no artigo, a autora assume o papel de mediadora do diálogo imaginário], e também entre todas as outras mulheres com quem conversei no mês de abril.

As falas delas, a fala de Telma, me fizeram ir ao encontro de Domitila, mulher de história arrebatadora. Ela volta ao meu pensamento nas escutas dessas mulheres e, impulsionada por elas, eu volto ao livro “Se me deixam falar...”, da Moema Viezzer, e mergulho nas páginas e me vejo entre elas, numa emocionante conversa que está representada nesse texto para o volume I de “Quarentenas Amazônicas”.

AC – Você poderia nos falar um pouco mais sobre quem foi a boliviana Domitila Barrios de Chungara?

IV - Domitila é de uma atualidade marcante. O que singulariza a vida dessa trabalhadora de minas na Bolívia dos anos 1960/1970, numa das terríveis ditaduras da América-Latina, é a determinação de ser voz de muitas mulheres e tantos homens, companheiros das lutas, de trabalho, dos sonhos. Não baixou a cabeça. Não temeu o veto progressista da época. Falou e falou alto, como fez na Conferência de Mulheres, no México, em 1975. Percebeu profundamente o significado da vida compartilhada e parte disso descreve em suas observações do tempo de exílio na Suécia. É expressão de resiliência e de um olhar revolucionário: “necessitamos guardar a memória de tudo o que se experimentou na América Latina {...} tantos esforços que fizemos por nossa libertação”. Como precisamos fazer esse exercício hoje!

Entre Telma e Domitila há a origem indígena e pontos comuns que estão diretamente ligados ao respeito à Terra, à compreensão de que nós, humanos, somos parte e não os senhores da natureza. Neste século 21 é esta uma feição da luta dos povos indígenas e da luta das mulheres indígenas.

AC - Em dado momento, Telma conta o quanto a pandemia nos empurrou a uma reflexão ampla sobre as relações familiares afetadas pelas demandas cotidianas. "O vírus nos ataca e mostra que o ser humano precisa reaprender a ficar mais próximo, a olhar com todo o cuidado para a outra pessoa”, diz ela. Na tua visão, podemos emergir dessa pandemia mais solidários e empáticos uns com os outros?

IV - A armadura do egoísmo, de uma sociedade onde o Ter é mais importante que o Ser, permanece intacta. A cada dia a pandemia se alastra - pessoa são contaminadas, sofrem, morrem... São números de uma estatística que é apresentada por autoridades governamentais e seus apoiadores, com a cara lavada, como algo pequeno, sem valor maior que consiga estabelecer outro parâmetro e uma nova conduta de gestão pública.

Nossa solidariedade é afetada pelo espírito capitalista que reduz remorsos com publicidade dos atos de caridade, desde que sejam descontados no Imposto de Renda. O capitalismo faz parcerias em várias direções santas e pecadoras. Nessa sociedade mundial, muitos sairão tocados pela vivência com a pandemia quer pelo isolamento, quer pelas perdas sofridas ou pela angústia vivenciada. Que possam ser sal na terra e ponte na passagem para outro modo de vida dos humanos.

Que Telma Taurempag “contamine” mentes e corações a partir do olhar-oração que fez e faz em direção à montanha que a acompanha na aldeia e alimenta a alma dessa mãe-avó em continuar nas lutas no Brasil e no mundo pelo direito à vida digna das indígenas e dos povos indígenas.

AC - Em março, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) publicou um Plano de Contingência orientando as aldeias a se prevenirem contra a Covid-19. Algumas comunidades indígenas do Amazonas, espontaneamente, decretaram o bloqueio total nas aldeias enquanto que em Manaus encontramos certa resistência ao isolamento social. O que podemos aprender com os indígenas em meio a essa crise mundial da saúde?

IV - Precisamos perceber as consequências graves do desmantelamento das estruturas públicas pelo atual governo. Enquanto jornalistas, e se considerarmos nossa função social, este é um tema da lista de prioridades: ter a curiosidade, conhecer, compreender, aprender sobre o desmonte das instituições públicas e o efeito desse ato na vida de uma região, de um Estado, de uma cidade. Nós, na Amazônia, somos convocados para essa tarefa em função do lugar que a Amazônia foi colocada nos planos de desenvolvimento do governo do País.

Nos empurraram um déficit de caráter permanente em todas as áreas. Somos tratados como eterno problema para o Brasil e que deve ser removido (para onde?) a fim de que o País se desenvolva (para quem?).

Os povos indígenas nos possibilitam aprendizados. Resistem há mais de 500 anos a um programa de morte; produzem conhecimentos dos quais conhecemos pouco; lidam com sabedoria sobre o lugar que têm na Natureza. As culturas indígenas, boa parte delas, se expressam sem a ideia da fronteira do Ocidente e em territórios onde a lua, o sol, as estrelas, as águas são parentes sagrados que devem ser escutados. Quando se destrói essa relação, destruímos nossa referência de humanidade. É o que ocorre hoje.

AC - Em uma de suas falas, Telma Taurepang diz que, neste momento de alto surto viral, a natureza nos faz uma pergunta, “qual é a nossa proposta para a próxima geração?”. Que contribuição você deixaria na resposta a essa questão?

IV - Telma, Domitila, Deolinda, Damiana (de “Água de Barrela”, escrito por Eliana Alves Cruz) nos apresentam um legado. Nos oferecem suas vidas como um grande texto de enorme simplicidade onde a tônica é a vida vivida com dignidade. Perdemos a noção dos princípios que nos diferenciam como ser humano. Nossa proposta-herança para a próxima geração é uma interrogação. Conseguirei ler, compreender e agir a partir desses textos encarnados nas vidas dessas mulheres?

Domitila acreditava que “um povo unido” poderia mudar as coisas. Como está o povo? Telma pede respeito à Mãe-Terra. E Damiana, reencarnada, se mantém vigorosa no lavar a sujeira criminosa do racismo. São mulheres sábias, de luz forte que nos chamam para caminharmos juntas na construção de um mundo que não nos envergonhe.

Box

O primeiro volume do e-book “Quarentenas Amazônicas” pode ser baixado gratuitamente na internet, no link . O segundo volume  já está disponível no link e o terceiro volume também.

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Repórter do caderno Cidades do jornal A Crítica. Jornalista por formação acadêmica. Já foi revisor de texto de A Crítica por quatro anos e atuou como repórter em diversas assessorias de imprensa e publicações independentes. Também é licenciado em Letras (Língua e Literatura Portuguesa) pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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