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Valorização dos espaços verdes nem sempre é prioridade política

No Coroado, na Zona Leste, e na Compensa, Zona Oeste, igarapés convivem com a abundância e com a falta de árvores 27/03/2013 às 15:10
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Trecho do igarapé do Franco, que vai do Santo Agostinho até a Vila da Prata, foi arborizado pela população após ação de retirada de moradores das margens
ana celia ossame Manaus

Na capital da maior floresta tropical do Planeta, a valorização dos espaços verdes nem sempre é prioridade política dos governantes. Exemplos neste sentido pode-se ver nas avenidas Beira-Mar e Beira-Rio, no bairro do Coroado, Zona Leste, e avenida Brasil, na Compensa, Zona Centro-Oeste, que após intervenção para retirada de moradias das margens dos igarapés, ganharam plantação de árvores que garantem um conforto térmico elogiado pelos moradores.

Não se pode dizer o mesmo das áreas de atuação do Programa Social e Ambiental de Manaus (Prosamim), onde quilômetros margens de igarapés foram reurbanizadas, mas permanecem sem qualquer vegetação, exceto capim. O contraste é tamanho que chama a atenção da população. Os espaços destinados ao lazer e caminhadas são bem aproveitados, mas só após o sol se pôr, revela a moradora Darlene Aparecida, 40, no Parque Jefferson Peres, no Centro, Zona Sul. Ela não sabe a razão para a ausência de árvores, se espaço não falta.

Na Compensa, os moradores das proximidades contam que a urbanização aconteceu no primeiro mandato de Arthur Neto na Prefeitura de Manaus (1988-1992), quando foram plantadas espécies frutíferas e com grandes copas para dar sombra. “Depois elas crescerem e ficou muito bom”, comenta o comerciante Emílio Oliveira, 56, reconhecendo que nos dias de calor, a arborização “refresca” a área.

Frutíferas
Há 30 anos morando no bairro do Coroado, moradores como Carminha Xavier da Costa, 66, explicam com generosidade a origem da existência de mangueiras, azeitoneiras, taparebazeiros, cupuaçuzeiros e outras frutas enraizadas em toda a orla do igarapé que leva o mesmo nome do bairro, do lado da avenida Beira Rio “Eu plantei muitas dessas árvores quando cheguei aqui”, conta ela. Carminha disse que a prefeitura da gestão anterior, iniciou a arborização, mas nas proximidades da casa onde mora, todas as mais de 20 árvores dali foram plantadas por ela.

Nascida no rio Juruá, onde trabalhava desde os oito anos de idade tirando leite de seringa, tecendo malhadeira e fazendo canoa, a dona de casa veio para Manaus quando se casou. Lembra que o pai aumentou um ano da idade dela para que o casório ocorresse. Foi mãe de 10 filhos, todos criados, com a ajuda dela, que trabalhou em órgãos como Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e Tribunal de Contas do Estado (TCE) para ajudar no sustento da família. Desse último trabalho, foi demitida por não saber ler. Hoje viúva, mesmo sem saber decifrar as letras, Carminha já escreveu seu nome na história da defesa da sustentabilidade. O nome dela não está registrado na arborização da margem do igarapé, mas os moradores mais antigos sabem que aquelas fruteiras, paraíso também para os passarinhos, têm o nome dela dos frutos à raiz.

Desencontro de políticas
Nas áreas de intervenção do Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus (Prosamim), a engenheira ambiental Fabíola Borges,35, cita a existência de um projeto de arborização iniciado pela Unidade de Gerenciamento do Prosamim (UGPI), inclusive com as espécies que podem se dar bem nesse solo que foi criado nas margens, deficiente em nutrientes para alimentar qualquer espécie. Segundo ela, a vegetação tem que ter resistente e não interferir na rede de drenagem, esgoto e elétrica que passa por essas áreas, por isso exigiu um projeto de paisagismo. Este, no entanto, ficou sem manutenção porque à época a administração municipal não aceitou ficar responsável por isso, deixando as espécies plantadas morrerem.

Nessa atual gestão, a parceria com a Semmas, no entanto, vai prosperar, informa Heitor Liberato. Segundo ele, o plano diretor autoriza a plantação de espécies que podem ser utilizadas em áreas de mata ciliar como essas, o que deverá acontecer nos próximos meses numa ação que contará com a parceria de outras secretarias.

Tanto no bairro do Coroado quanto na Compensa, inicialmente sob intervenção da prefeitura, houve retirada de moradores ocupando as margens e plantação de espécies frutíferas. De acordo com o diretor de Arborização da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas), Heitor Liberato, quando a população sentiu os efeitos benéficos da vegetação, ajudou a plantar mais espécies nas margens.


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