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A expressão infantil da violência: desenhos são pistas de estupros contra crianças

A reportagem teve acesso a desenhos de crianças vítimas de abusos sexuais. Saiba como pequenos gestos ou mudanças no comportamento podem ajudar a descobrir o que elas estão sentindo 15/07/2016 às 11:58 - Atualizado em 15/07/2016 às 12:16
Dani Brito Manaus (AM)

“Não acredito que os casos de abusos contra crianças aumentaram, o que aumentou foi o número de denúncias”, a revelação é da delegada titular da Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca), Juliana Tuma. Somente nos primeiros seis meses de 2016, a delegacia já registrou 281 casos de estupro de vulnerável.

A reportagem mostra agora a importância em prestar atenção e valorizar pequenos gestos ou mudanças no comportamento dos nossos pequenos. Uma das formas de perceber se algo está errado é atentar para uma coisa que toda criança gosta de fazer: desenhar!

De acordo com a psicóloga que atua na unidade especializada, Antonieta Cavalcante, o desenho é uma das formas que a criança encontra de expressar o que está sentindo. “Se existe alguma coisa que está perturbando, ela, de uma forma ou de outra, irá expor e o desenho é uma das ferramentas que utilizamos para chegar a essa conclusão. Se existe algo que nos chame a atenção, nós repassamos para o inquérito criminal”, disse a psicóloga, que trabalha há seis anos com crianças e adolescentes.

Contudo, a delegada ressalta que para que esta ferramenta seja usada, é necessário que seja estabelecido um relacionamento de confiança entre a vítima e os responsáveis pelo atendimento. “Quando essa criança chega aqui, ela é encaminhada para o atendimento psico social e lá, com o acompanhamento dos profissionais, ela é colocada em “n” situações onde possa expressar se sofreu algum tipo de violência, seja ela física, mental ou sexual”, destacou.

Na ponta do lápis

A criança reflete aquilo que vive. Normalmente, uma criança faz desenhos coloridos, cheio de alegria e com personagens como a família e amigos sempre juntos e felizes. Se sair deste contexto, algo de errado pode estar acontecendo. “Quando esta criança faz, por exemplo, desenhos com coisas em formato de pênis, mãos com garras, dentes afiados, rabiscos fortes e sem significado aparente, é bom ficar alerta e procurar um profissional. Outra característica é que eles são sempre preto e branco”, revelou Antonieta.

Fique alerta e procure ajuda

No caso de escolas, quando um professor identifica algo “estranho”, deve comunicar o pedagogo, que por sua vez aciona uma equipe de profissionais competentes sobre o assunto. Se for comprovado que existe algum comportamento diferente em relação à criança, o conselho tutelar deve ser informado imediatamente. “O primeiro passo é retirar esta criança do local onde ela está sofrendo a violência e informar aos órgãos de direito, ou seja, à delegacia”, ressaltou a psicóloga da Depca.

Agora se a identificação da mudança for feita em casa, este responsável deve sempre passar confiança para a criança e caso ela não conte nada espontaneamente, é necessário procurar ajuda com profissionais. A criança sempre sinaliza que algo está errado. Se você perceber que de uma hora para outra este pequeno ficou mais tímido, entristecido, isolado, agressivo, ou começou a chorar sem causa aparente, é hora de parar e procurar ajuda.

Brincadeiras envolvendo os órgãos genitais são indícios de abusos, bem como brincadeiras de bonecos de beijando, deitados um em cima do outro e até com movimentos simulando uma relação sexual.  Todavia, a psicóloga alerta que somente um profissional saberá interpretar esses sinais, ou seja, se você notou alguma dessas mudanças, procure um especialista no assunto para que ele possa avaliar melhor.

Escola deve ficar atenta

A professora de educação infantil Tâmara de Deus, que trabalha com crianças há cerca de 20 anos, afirmou a importância da escola na hora de identificar quando alguma coisa está fora do normal. “Certa vez um colega percebeu que o aluno dele estava fazendo desenhos com muito preto e sempre com cenas de violência. Depois descobrimos que o pai dele estava incentivando ele à violência”, disse a professora.

Os números em 2016

O número total de estupros de vulnerável registrados em 2016, no período de janeiro a junho, foi 281 casos. Entre os autores dos crimes, 163 não foram identificados pela polícia; 28 eram padrastos; 26 eram pais das vítimas; 12 eram vizinhos; 9 eram tios, 7 primos, 6 avôs das vítimas; companheiros das avós; 5 eram namorados das vítimas; em 2 casos as mães eram os autores e em 17 casos foram “outros”.

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