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Manaus Hoje
CONHECIMENTO

Conheça mais sobre o Mestre de Capoeira Kaká Bonates e seus ensinamentos

Capoeirista e pesquisador ministra ensinamentos e tem profundo conhecimento sobre a afro-descendência 28/03/2016 às 17:53 - Atualizado em 28/03/2016 às 18:39
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Kaká Bonates tem 57 anos e milita desde os 14 anos na capoeira e cultura afro-descendente / Fotos: Clóvis Miranda
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Foi através da popular capoeira, expressão cultural brasileira que mistura arte marcial, música e cultura popular, e que foi desenvolvida no Brasil principalmente por descendentes de escravos africanos, que o desportista manauense Luiz Carlos de Matos Bonates, mais conhecido como Kaká Bonates, 57, passou a militar na causa afro-descendente.

O mestre ensina gratuitamente a capoeira na Vila Olímpica de Manaus, na Quadra 2 (Dom Pedro), de segunda a quinta-feira, das 18h às 19h30, numa parceria entre a Escola Matumbé e o Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado de Juventude, Esporte e Lazer (Sejel).       

As aulas alcançam crianças a partir dos 7 anos, jovens e terceira idade. Os interessados podem se inscrever na secretaria da Sejel, na própria Vila Olímpica, de segunda a sexta, em horário comercial, das 8h às 17h, apresentando comprovante de residência, RG e CPF. Menores de idade devem vir acompanhados dos pais ou seus responsáveis.

MESTRE

Mestre da Escola de Capoeira Matumbé, especialista e profundo conhecedor dos povos afro-brasileiros, Bonates, que é historiador, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e biólogo de formação com doutorado em Botânica, aponta que sua militância pela causa afro-brasileira é diária porquê todo dia ele está na capoeira e participando da afirmação da presença negra no Amazonas.

“Eu tenho uma biblioteca multimídia em casa com uma média de 20 mil títulos sobre a cultura afro. A capoeira, segundo Muni Sodré, que é um grande simiólogo brasileiro, é a síntese da cultura bantu (de onde veio o maior número de escravos para o País), no Brasil. É a cultura africana que está mais diluída no Brasil. Então, exatamente para dialogar com críticos da capoeira, para esclarecer as pessoas, para pesquisar, eu ao logo desse tempo fui formando essa biblioteca. Faço parte de grupos de estudo, ensino capoeira,  publiquei livros, CDs, documentos e há 6 anos eu entrei para o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA). E comecei a pesquisar sobre a capoeira buscando e fazendo um pente fino, com o pesquisador Rildo Heros, sobre essa questão das lutas em Manaus, desde 1890 até o ano 2000 nos jornais sobre cultura negra no Amazonas e fiz parte do livro , "O Fim do silêncio: presença negra na Amazônia", coordenado pela pós-doutora professora Patrícia Melo Sampaio onde publiquei o primeiro resultado dessas pesquisas. Embora por ser capítulo eu só tive 22 páginas , mas estou acabando de fazer um livro mais volumoso sobre essa pesquisa toda”, destaca ele.

Na obra citada anteriormente, ele aborda que existia a capoeira documentada desde 1905, e fala da influência local, de como ela chega aqui. “Falo das possíveis fontes, como veio pra cá. E depois escrevi ‘Iúna Mandingueira, a Ave Símbolo da Capoeira’, que está publicada em francês e que vai para o inglês e italiano. Foi uma obra que teve boa repercussão entre os capoeiristas. Mais local. E também contribuí produzindo e lançando CDs sobre o tema, como o que tem o único documento sonoro que existe sobre o batuque, que é uma luta, uma dança de guerra brasileira. E outro CD com cantigas do Mestre Tiburcino, que nasceu na escravidão, filho de escravos, de 1968. E outros documentos sonoros”, explica Bonates, no auto dos seus 45 anos de capoeira e que está no segmento desde 1982, reforçando que “a luta do negro é em prol de toda a sociedade brasileira”.

LIGAÇÃO HISTÓRICA

Tendo completado no ano passado 346 anos de fundação, a cidade de Manaus tem uma grande ligação histórica com a libertação dos escravos no País, analisa Luiz Carlos de Matos Bonates.

“Vejamos o centro histórico de Manaus, por exemplo. Temos (a avenida) Eduardo Ribeiro, que foi o primeiro governador negro do Brasil. E a rua 10 de julho, que é a data da libertação dos escravos no Amazonas, a antiga 13 de Maio, hoje Getúlio Vargas, bem como a rua 24 de maio, que representa o dia da libertação dos escravos em Manaus. Na linha de tiro, no século 19, onde hoje é a avenida Leonardo Malcher havia um bairro chamado Nova África. E a Praça da Saudade é chamada assim porquê era um cemitério. 
Agora, pergunte a maioria das pessoas se elas sabem disso. E além de tudo isso, o Amazonas foi o segundo Estado do País a proclamar a abolição da escravatura  - o primeiro foi o Ceará em março de 1884 e em 10 de julho no  Amazonas . Foram quatro anos antes da abolição e o povo não sabe disso”, relata o historiador.

"A cultura afro-brasileira e uma das formadoras da nossa cultura, mas o projeto civilizatório vencedor foi o eurocêntrico, da Europa. Mas, principalmente dentro da cultura popular, essa cultura negra, assim como a indígena, é muito forte", disse ele.

E A IDENTIDADE?

O conceito de negro é sociológico, destaca Bonates, aonde os afro-descendentes tanto de pele clara, quanto negra, estão situados praticamente na mesma faixa de qualidade de vida e herança da escravidão. “Tem que se tomar cuidado quando diz-se que não há negros no Amazonas, pois há 7º da população é negra, bem como 9% é de indígenas”, declara o mestre.

"Sou um filho legítimo da Zona Franca. Quando eu tinha 10 anos a cidade de Manaus tinha  250 mil habitantes. E veio a Zona Franca e tomamos um choque  cultural muito forte. Tomávamos café com suco de laranja inglês,e leite holandês e brinquedos eletrônicos. O que a classe média alta paulista tinha nos primeiros anos da Zona Franca – como a calça jeans Levi’s, camisa Hang Tang, sapato All Star  - aqui qualquer ‘pé rapado’ de Manaus tinha devido a isenção fiscal que foi o grande atrativo de fazer as pessoas migrarem pra cá, tanto do interior quando de fora. E em determinado momento, hoje eu faço a reflexão, que perdi a autoridade cultural. Não sabíamos se éramos caboclos, índios ou ingleses, que ‘coisas’ que éramos. E por questão de família, meu tio Alídio Ismaley dos Santos Bonates, que era capoeirista, e pela vontade do meu pai, Aldemar dos Santos Bonates, eu entrei na capoeira e foi ela quem foi me devolvendo a brasilidade. E comecei a perceber que existia um grande preconceito em cima disso. E eu dizia: “Isso me faz tão bem, então porquê as pessoas discriminam? E a partir daí, como eu sempre gostei de ler e estudar, e como já vinha de uma família que militou há muito tempo na política, eu tom ei isso como um dos objetivos da minha vida. E lá se vão 45 anos ininterruptos", relembra o pesquisador.

MANAUS RACISTA

O Estado do Amazonas, é racista, afirma Kaká Bonates, que argumenta. “No Amazonas, há um racismo muito dissimulado e que invisibiliza a presença negra no Estado. Se você prestar bem atenção, embora isso esteja mudando lentamente, uma pessoa  de pele preta retinta cor de azevixe, a pessoa se dirige a ela como moreno. Ele não diz preto. Já o termo negao é uma coisa mais nova. Mas, se essa mesma pessoa estiver com raiva de um preto, ele chamará o mesmo de “ah preto filho da...". Fica pejorativo e a mesma coisa se faz com os índios. E o que é ser branco no Amazonas ou no Brasil? Vá lá pro meio dos arianos, os ditos brancos. Às vezes as pessoas dizem: ‘Você é branco e gosta de coisas de negros’. E eu questiono: ‘será que sou branco mesmo?’. Eu tenho a pele mais clara, mas sou pardo”.

Ele destaca que a sociedade, exatamente por causa da colonização, devido ao eurocentrismo, foi dividida entre brancos e não-brancos: “O primeiro censo de auto-declaração deu quase 400 tipos de tons de pele, como marronzinho, marrom-bombom, mulatinho, queimadinho, feijãozinho, douradinho,  sempre tentando se aproximar perto do branco, mas nunca se afirmando ser preto, ser índio. Não existe racismo ao contrário. O racismo e uma política. O racialismo foi uma coisa implantada mesmo para dominar. O que você tem é quando o negro começa a dizer que é ‘negão’, a se assumir e criticar o sistema dizem que ele é racista. Mas é ao contrário: ele está reagindo ao racismo que foi imposto a ele”.

A cota para negros implantada nas faculdades brasileiras é um paliativo para o problema social do racismo, diz o pesquisador. “Qualquer humanista quer que as pessoas sejam conhecidas pelo seu caráter, cultura e postura social, e não pela cor da sua pele. Isso é um devir que qualquer sociedade busca, que quer ser humanista. Não quer separar os homens, nem discriminar o homem pela sua pele, status social. Isso a religião prega, os governos pregam. Agora, na prática, esse discurso de igualdade tem mais de 500 anos. Os negros que vieram trazidos pra cá,  por exemplo, para trabalhar aqui, vieram para ser batizados para ganhar o reino dos céus. Os índios vieram trazer a civilização. E olha a civilização que deram pra eles.

NESTOR NASCIMENTO

Kaká Bonates conheceu o saudoso professor e advogado Nestor Nascimento, que é considerado o maior líder da comunidade negra no Estado, fundador dos movimento pelos direitos humanos no Amazonas e do Alma Negra (MAN) e que faleceu em 2002.

“Conheci Nestor Nascimento através da capoeira. Ele tinha um curso de pré-vestibular no mesmo prédio onde eu treinava aos 14, 15 anos, e foi convidado pelo meu mestre para falar sobre o Quilombo dos Palmares e as questão dos negros. Nesse dia ele falou sobre a capoeira e eu fui complementar os dados dele. As suas palavras me marcaram muito e depois viramos amigos. Após, me chamou para compôr a diretoria do movimento Alma Negra como diretor de práticas. Militamos também na base do PCB. Ele era uma pessoa muito justa e lúcida, e que contribuiu bastante para a afirmação da cultura negra e da realidade do negro no Amazonas”, relembra Kaká Bonates.

A questão da causa negra é a causa do povo brasileiro, de quem  briga por uma causa mais justa e igualitária. É questão de compreender e incorporar uma luta popular. O que vai nos definir na identidade é a nossa opção de visão de mundo, esclarece ele.

Bonates se define como um cidadão do mundo e, devido à capoeira, tem visão bastante aprofundada dentro dessa visão da negritude . “Me sinto afro-brasileiro. Não sou branco, mas no meu certificado de reservista, e no do Nestor, por exemplo, está a cor da pele parda

“Prefiro ser visto como afro-ameríndio ou afro-descendente do que branco. Aliás, vai chegar o dia em que a sociedade não vai ter mais essas classificações ou rótulos. Na Grécia, se você falasse grego era chamado de grego. Agora, se você não falasse seria um bárbaro”, relembra ele.

E o que é ser branco no Brasil? Essa é a pergunta que o próprio mestre de capoeira faz. “Muitos se pensam branco e não são brancos. É mais fácil dizer que é branco do que moreno, preto ou índio. Na verdade não existe uma raça pura; a biologia criou e derrubou isso. Geneticamente somos todos miscigenados. A questão da palavra raça cai na questão histórica, antropológica e sociológica. Sobre a questão da cor da pele, em si, ela é negra”, esclarece ele.

POSTOS IMPORTANTES

O fato de que em Manaus há menos negros ocupando postos importantes na sociedade não é uma característica apenas da cidade e do Amazonas como um todo, mas de todo o País, lembra Bonates, que utiliza o exemplo do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) de 2012 a 2014. “Ele, que é de pele preta, ocupou um cargo na mais alta magistratura do País. Se fosse escutar ópera ninguém falaria mal dele. Agora, imagina se ele fosse pro candomblé, jogar capoeira, em escola de samba, ou seja, se ele fosse assumir a sua cultura afro-brasileira. É porquê a sociedade vê essa cultura como subcultura. Aí vem o preconceito e, posteriormente, a discriminação.

Bonates frisa que há vários grupos e entidades na luta pelos afro-descendentes, como o Afroamazonas, Unegro, Orgulho Negro e Associação de Crioulas do quilombo de São Benedito do Barranco da Praça 14 de Janeiro, mas brinca que “Manaus não tem movimentos negros, mas negros em movimentos”. “Isso fora as pessoas que miltam na divulgação, escolas e samba, maracatu, tambores de crioulas, candomblés, etc”, ressalta o biólogo, que lamenta a inexistência de uma política pública efetiva para os afro-descendentes no plano estadual e municipal. “Isso ainda está longe de acontecer porque tudo fica no papel, como nas secretarias de Justiça e Cidadania. Já houve avanços, mas esse processo leva gerações”, conclui o militante.

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