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Manaus Hoje
Crime policial

Família denuncia policiais da Rocam de executarem inocente em Manaus

André, 24, foi morto pela PM como se fosse assaltante. A família diz que ele era inocente e acusa os policiais de assassinato, omissão de socorro e alteração da cena do crime 05/06/2016 às 21:34 - Atualizado em 06/06/2016 às 10:38
Vinicius Leal Manaus (AM)

Um assassinato cometido por policiais da Ronda Ostensiva Cândido Mariano (Rocam) está sendo denunciado por familiares de André Luiz Silva da Costa, 24, morto na sexta-feira (3) após levar três tiros (tórax, braço e boca) disparados por PMs em um sítio no bairro Santa Etelvina, Zona Norte. Para a polícia André era um assaltante, mas a família contesta.

Por medo, nenhum entrevistado quis se identificar, mas todos falaram que André foi executado como um bandido que teria assaltado uma casa na Alameda A, na comunidade Jardim Fortaleza, no Santa Etelvina, mesmo endereço de André e onde ficava o sítio. Segundo a família, ele era inocente, trabalhava como coletor na construtora Marquise e não tinha antecedentes criminais e nem arma.

Naquela manhã, segundo familiares, André saiu de casa para tomar banho no igarapé do sítio porque ia trabalhar e a comunidade estava sem água há três dias. “A gente ouviu o primeiro disparo e a mulher dele se lembrou que ele estava lá. Viemos correndo. Chegando lá, não deixaram ninguém entrar. Só ouvi dizer que tinha alguém baleado”, contou uma amiga durante o velório, no sábado (4), no bairro Grande Vitória, onde André foi criado. Há dois anos, ele foi morar Santa Etelvina com a esposa e as filhas.

Entretanto, os policiais divulgaram para a imprensa outra história, de que André foi morto após trocar tiros com a viatura enquanto fugia com mais dois supostos comparsas - dois já presos - em um Fiat Siena. Porém, em um vídeo (veja abaixo) que a reportagem teve acesso é possível ver apenas André sendo colocado, já baleado, na viatura, sem “comparsas”.

Após os disparos, uma multidão se formou na porteira do sítio. Segundo eles, primeiro tinha só uma viatura da Rocam e depois chegou outra. A família informou que uma das viaturas tinha placa PHF-6741 e número 25-5851. “Não deixaram entrar e foram lá para o mato com ele. Jogaram spray de pimenta na gente e tiraram até o caseiro (do sítio)”, contou uma amiga.

Omissão de socorro

A família denuncia ainda omissão de socorro, já que os PMs em nenhum momento acionaram o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e demoraram para retirá-lo do mato e colocarem na viatura. Segundo os denunciantes, o caseiro do sítio foi chamado pelos policiais para que pegar um pano que serviu de maca.

“Eles vinham, andavam um pouquinho e soltavam o André no chão, arrastavam, feito um cachorro. Depois, com a cara de pau, deixaram o corpo e foram lavar a mão melada de sangue (no igarapé)”, disse um amigo, chorando. “Depois passaram mais de meia hora para atravessar (na viatura) uma ponte que é pequena”.

Tiro dentro da viatura

“A gente pediu para chamar ambulância. Ele falava ‘me ajuda que eu não quero morrer’. Disse isso na hora que jogaram o corpo dele na viatura”, contou uma vizinha de André. Segundo a família, até aí André não tinha levado o tiro que atingiu a boca, porque gritava por socorro.

Ninguém sabe em qual momento exato André levou cada um dos três tiros, mas falam com certeza de que o disparo na boca aconteceu na viatura. “Deram um tiro na boca dele, tanto que tirou um pedaço e ele está sem metade dos lábios”, disse a amiga. “Ele entrou vivo dentro da viatura. Mas deram um tiro na boca dele para ele não falar nada”.

Alteração da cena do crime

Para a família, a demora no socorro de André era tanto para fazê-lo morrer quanto para dar tempo que os policiais alterassem a cena do crime. Vários vizinhos e moradores da comunidade confirmaram a versão e disseram que os PMs recolheram as cápsulas das balas.

“Não teve troca de tiros. Eles disseram que era troca de tiro, mas eles mesmos estavam atirando. Eles pegaram a cápsula da arma. Qualquer um que estivesse ali (tomando banho no igarapé) poderia ter pegado um tiro”, contou outra residente do local.

Óbito no hospital

Os policiais levaram André para o Hospital e Pronto-Socorro Delphina Aziz, na av. Torquato Tapajós. A esposa de André embarcou em uma moto e seguiu a viatura, mas chegando lá foi impedida de novo de se aproximar do marido. “Chegou (ao hospital) agonizando e foram para a reanimação. Aí foi para a sala de cirurgia, mas não resistiu. Ficou umas duas horas lá”.

Investigação do caso

Desde o momento que a reportagem foi ao local do crime e conversou os funcionários do sítio, nenhuma perícia criminal foi feita no local. Com medo, o caseiro pediu para não ser identificado. “Não houve perícia. (Os policiais) juntaram as cápsulas, mas (depois) os moradores revoltados entraram para ver onde tinha sido. Tinha sangue do André lá e acharam duas (cápsulas)”, disse.

Desde o dia do crime, a família teria ido em duas delegacias para tentar registrar o crime: o 25º e o 9º Distrito Integrado de Polícia (DIP), mas não tiveram êxito. Na tarde de ontem, um dia após o velório, os familiares ainda se programavam para tentar “resolver a situação”.

A reportagem ligou para o comandante geral da PM pelo telefone (92) 9621-XXX5, mas ninguém atendeu. A assessoria de imprensa do órgão informou por meio de nota que um procedimento foi aberto na Diretoria de Justiça e Disciplina (DJD) para apurar os fatos, e que as armas dos policiais foram recolhidas para perícia.

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