Sábado, 17 de Agosto de 2019
ESPERA

Sem visitas: proibição continua em presídios onde ocorreram massacres

Internos de presídios onde houve massacre em 27 de maio só receberão visitas a partir do dia 26 deste mês



iwoeieoioie_0469FE5D-BB55-4C0E-9E49-1EDC37789D5D.JPG Foto: A Crítica / Márcio Silva
04/07/2019 às 07:37

Ainda é madrugada. Mães, esposas e outros familiares de presidiários já estão de pé para preparar caprichosamente o alimento que o visitado mais gosta. É o dia em que almoçarão juntos.  O frango assado com arroz, farofa, macarrão e maionese, ou o bife com feijão são os pratos preferidos. Além do almoço, um sacolão com pães, bolo e biscoitos é preparado para o lanche do interno durante a semana. Mas, a maioria não tem conseguido entregar os alimentos que leva para o ente querido e sequer tem notícias deles. Já fazem mais de 30 dias.

Para familiares é desesperador. Na semana passada, alguns deles se reuniram e protestaram em frente ao Fórum Henoch Reis reivindicando o direito de visitar o familiar preso, porém sem sucesso. “Deixem eu ver o meu filho. O que eu mais quero é ver o meu filho”, disse ontem uma mãe, que, temendo represálias, preferiu não se identificar.

Para mães, pais, avós e esposas, a rotina pela busca de informações inclui o gasto com transporte, longa espera, além da humilhação – que dizem passar – durante a revista, mas tudo isso não importa, faça chuva ou faça sol, lá estão elas todos os dias de visitas. “Desde que o meu filho foi preso, há seis meses, eu não deixo de visitá-lo. Trago comida para ele, material de higiene pessoal e até remédio, porque aí (no presídio) não tem”, diz a agricultora Ana Clara da Silva, 49.

Ana Clara é uma dessas mães. Toda semana ela vem do município de Novo Airão (a 195 quilômetros de Manaus) com uma sacola cheia de comida para o filho. De acordo com a mulher, o rebento gosta de comer bife, mas quando não tem ele come qualquer coisa.

O filho está preso no Instituto Penal Antônio Trindade (Ipat), no quilômetro 8 da BR-174, em Manaus, uma das unidades onde, no fim de maio, foram registradas 55 mortes de detentos, durante um massacre motivado por racha em facção.  Por conta desse episódio, as visitas foram suspensas. “Estou desesperada, porque desde o dia do massacre (27 de maio), há mais de um mês que eu não tenho notícia dele e eu sei que ele está doente”, disse a mulher.

De acordo com ela, o filho foi preso por ter furtado uma televisão. Ele entrou na cadeia com a cabeça quebrada e o corpo cheio de hematomas.  

Enquanto isso, Ana Clara disse vai continuar tentando falar com o filho. Ela já não leva mais alimento porque estraga.

Situação semelhante é vivida pelo aposentado Nairde Batista Fróes, 68, morador do bairro Santa Etelvina. Ele é pai de um interno no Centro de Detenção Provisória Masculino 1 (CDPM 1) e está ansioso por notícias. No último domingo, encontramos o aposentado sentado no banco da parada de ônibus que fica em frente à entrada do ramal de acesso aos presídios da BR-174.

O sentimento era de revolta e tristeza. Revolta por ter tido a sua entrada barrada e não ter conseguido entregar os três pãezinhos passados na margarina e assados na frigideira que ele levou para o filho. O idoso estava triste por não ter conseguido nenhuma informação sobre a situação que o filho se encontra. “Essa é a terceira vez que eu venho aqui. Acordo às cinco da manhã pra chegar cedo aqui e ficar mais tempo com ele”, disse o aposentado.

Conforme a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap), as famílias só vão poder ter acesso aos internos depois do dia 26 de julho.

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