Segunda-feira, 01 de Março de 2021
PANDEMIA

Pessoas em situação de rua renovam esperanças após tratamento em abrigos provisórios

Nesses locais, os moradores de rua têm oportunidade de acesso a serviços que jamais teriam em outro contexto. Além de tirar documentos, eles passam por atendimento médico, de assistência social e psicológica



1770440_69523EC9-7FDE-496B-970D-1E26A983369C.jpg Foto: Junio Matos
31/05/2020 às 06:37

O excepcional trabalho de escuta qualificada e de acolhimento diário de pessoas em situação de vulnerabilidade que vivem nas ruas de Manaus por causa da pandemia do novo coronavírus (Sars-CoV-2) revela a força que esse tipo de apoio social pode ter para transformar vidas. Resultados podem ser observados na prática nos três abrigos emergenciais montados pelo Governo do Amazonas em pontos distintos de Manaus.

Nesses locais, os moradores de rua têm oportunidade de acesso a serviços que jamais teriam em outro contexto. Além de tirar documentos, eles passam por atendimento médico, de assistência social e psicológica. Eles recebem roupas novas e kits de higiene, contam com uma estrutura banheiro e também podem fazer suas refeições, além da possibilidade de pernoitar, caso tenham essa necessidade.



Foi a partir do acolhimento em um desses abrigos, a Arena Poliesportiva Amadeu Teixeira, que o montador de móveis Kleber Silva Nascimento, 39, passou a olhar a própria vida por uma outra perspectiva. Ele contou à reportagem que, devido ao consumo excessivo de álcool e outras drogas, teve que abandonar o trabalho, um relacionamento estável de 12 anos e passou a morar nas ruas da capital.

“Eu fui me adaptando ao álcool e as drogas e, quando vi, eu já estava dependente disso. Depois eu fiquei longe das pessoas que me amavam, o meu dinheiro ficou praticamente todo para a droga, eu não conseguia mais pagar aluguel, e quando me dei conta, em 2020, eu estava morando na rua e vivendo uma vida de nômade”, disse ele, que morou na rua há seis anos.

Em meio à pandemia, ele se recupera do vício. “Eu tenho evitado o álcool dia a dia. O meu organismo ainda não está adaptado à mudança que quero para mim, mas aos poucos, vamos conseguir”. Atualmente, o montador de móveis tem outros desejos e um deles é voltar a trabalhar.

“A primeira coisa que quero é um emprego. Depois disso, eu desejo que seja alugado um prédio para que essas coisas que oferecem aqui dentro (do abrigo provisório) continuem sendo oferecidas depois da pandemia. Existe um mundo de pessoas lá fora que precisam dessa oportunidade que eu tive aqui dentro”, destacou ele, que agradece a ação desenvolvida. “Eu sei que muitas pessoas estão morrendo, mas eu agradeço por esse apoio que chega nesse momento. Até o início do ano, eu era uma pessoa invisível e, hoje, eu retornei das cinzas”.

A vida para o repositor de mercadorias Dorival Andrade Gato, 35 anos, também nunca foi fácil. Ele luta contra vício nas drogas há alguns anos. “Por conta das drogas, bebida e prostituição, eu perdi muitas oportunidades como a minha família, meu emprego e minha futura esposa”, enumerou ele. Antes de chegar ao abrigo, Dorival morava debaixo de um viaduto próximo ao Terminal de Integração 5, no bairro São José, Zona Leste de Manaus, e hoje, se restabelecendo da dependência das drogas, espera o melhor para o futuro.

“Eu ainda estou lutando para parar com os meus vícios. Eu quero cuidar primeiramente da minha saúde, restituir as relações com a minha família e desejo um emprego para dar continuidade à minha vida. Eu nunca desisti dos meus objetivos e sonhos”, disse.

Como funciona o atendimento

Além da Arena, as outras bases de acolhimento são  o Centro de Educação de Tempo Integral (Ceti) Áurea Pinheiro Braga, no bairro Compensa, e o Centro de Convivência Maria de Miranda Leão, no bairro Alvorada.

Em funcionamento desde o dia 25 de março, a base da Arena abriga 108 moradores em situação de rua, mas o número pode variar. Até o momento, nenhuma das pessoas acolhidas teve sintomas do novo coronavírus.

“Enquanto secretaria, nós estamos trabalhando a disponibilização de um espaço para que vire um acolhimento, não emergencial, mas sim um acolhimento tipificado, com todas as normativas”, disse. “A gente não  pode tira-los de forma brusca do abrigo emergencial. Todo o desligamento precisa ser gradativo. Vamos descentralizando, nós vamos verificando quais são as necessidades deles e assim vamos encaminhando cada situação”.

Maior pleito deles é ter emprego e casa própria 

De acordo com a diretora do Departamento de Proteção Social Especial da Secretaria de Estado de Assistência Social (Seas), Adriana Pellin, as pessoas em situação de rua que são acolhidas nos três abrigos possuem uma rotina diária de atividades.

Na Arena Amadeu Teixeira, ela afirma que, por vontade dos abrigados, foi estabelecido um toque para acordar e outro para recolher. “Pela manhã, às 6h, nós ligamos a televisão, que fica ligada até meia noite, que é o horário de recolhida. Quando a gente liga a televisão, eles já sabem que é hora de acordar e de tomar banho e, às 8h30, nós servimos o café da manhã”, explicou.

“Às 10h, nós começamos as atividades livres que podem ser palestras, atividades esportivas, de lazer e, quando dá 11h30, nós começamos a nos organizar para o almoço, posterior a isso, poucos ficam assistindo TV e a maioria vai dormir”, disse.  Por volta das 15 horas, é ofertado um lanche e, às 18h30, é servida uma sopa e, quando há doações, é oferecida uma ceia. “O importante é não deixar eles com intervalos de fome por conta da abstinência e o que supre isso é a comida”, ressaltou.

Além das necessidades básicas, os acolhidos ouvidos pela equipe de profissionais compostas por assistentes sociais, psicólogos e técnicos de outras áreas. Adriana Pellin comentou que durante a escuta qualificada, os anseios mais comuns ouvidos por essas pessoas em vulnerabilidade social são moradia e emprego.

“Muitos moram nas ruas desde pequenos. Então, eles falam que nunca tiveram o que estão tendo aqui. Conforme  um levantamento que nós fizemos, emprego é o primeiro pedido e, após isso, é a moradia”, revelou ela, ao esclarecer que a estratégia é de “desacolhimento” gradativo, ou seja, ouvir as demanda e dar um encaminhamento específico para cada caso.

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Repórter de Cidades
Jornalista formada pela Uninorte. Apaixonada pela linguagem radiofônica, na qual teve suas primeiras experiências, foi no impresso que encarou o desafio da prática jornalística e o amor pela escrita.

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