Publicidade
Interior
No lugar certo

UEA implanta curso de Arqueologia em São Gabriel da Cachoeira

As aulas da graduação no município, que tem grande potencial arqueológico e 95% de alunos indígenas, começam no próximo mês 25/07/2018 às 19:33
Show sgcc
Potencial arqueológico da região ainda é imensurável,de tão grande. Fotos: divulgação
acritica.com São Gabriel da Cachoeira (AM)

A História dos povos que viveram no Amazonas possui uma grande lacuna no tempo. Os “detalhes” de como viviam essas civilizações, seus hábitos e comportamentos só se tornaram conhecidos a partir do ano de 1500, com a chegada dos portugueses, que fizeram os primeiros registros escritos. Hoje, há inúmeros trabalhos publicados sobre os povos indígenas da Amazônia e Pan-Amazônia, que permitem falar sobre eles a partir dos olhos da ciência.

Para investigar e recontar um pouco mais dessa história a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) implantou no Alto Rio Negro, de forma inédita, o curso de Arqueologia, que inicialmente começará como curso modular no Centro de Estudos Superiores de São Gabriel da Cachoeira, onde mais de 95% dos alunos são indígenas. As aulas da primeira turma do curso iniciarão no próximo dia 27 de agosto.

“Existe uma ansiedade enorme no município, uma vez que teremos alunos indígenas investigando a história de seus próprios ancestrais”, afirma a diretora do centro, Solange Pereira do Nascimento, que juntamente com o coordenador do curso, Luciano Everton Costa Teles, auxiliará a graduação.

O potencial arqueológico do município ainda não foi mensurado pela UEA, mas, considerando vestígios encontrados e relatos dos indígenas sobre os mesmos, sabendo que a região concentra o maior número de povos indígenas do País (23 etnias e 18 línguas faladas, distribuídas em cinco troncos linguísticos) a estimativa para a pesquisa é sem precedentes na História do Amazonas e até do Brasil.

Alta relevância

Doutora em Sociedade e Cultura na Amazônia, pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Solange Nascimento destaca que toda a região do Alto Rio Negro tem potencial para investigação arqueológica de grande relevância científica.

“Aqui foi encontrada uma ponta de flecha em sílex (uma espécie de quartzo). A peça foi encontrada numa profundidade de mais ou menos dois metros, durante uma escavação de poço artesiano num sítio acima de São Gabriel, segundo relatos de quem encontrou a peça. Um artefato similar foi encontrado na região do município de Iranduba, a uma profundidade inferior e datada de 7.500 anos”, comparou a professora, acrescentando que os especialistas dizem que quanto mais profundo é encontrado o objeto, maior a probabilidade de que seja mais antigo.

Pesquisas apontam que o povo que dominava esse tipo de material da ponta de flecha vivia no norte da América, ou seja, podem se tratar de povos nômades (o que é característico dos indígenas) que circularam do norte ao sul da América e que muito provavelmente têm relações mais estreitas entre si, tanto no aspecto da parentalidade como em sua cosmologia e cosmogonia.

Impulso a pesquisas na região

A expectativa da professora Solange Nascimento é que o curso de Arqueologia contribua bastante com esses esclarecimentos a cerca da vida desses antepassados indígenas, alavancando grandes pesquisas na região e, assim, tornando o nome da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) um marco em Arqueologia Indígena do Estado e do País de forma proeminente.

A investigação arqueológica nessa região também servirá para aprofundar estudos mitológicos que dizem respeito diretamente à vida cotidiana dos povos indígenas. Essa riqueza histórica está registrada na memória dos indígenas mais antigos como também em uma vasta literatura indígena, que aos poucos está sendo reescrita por eles mesmos, além de frações da História guardada em escritos rupestres em cavernas e rochas seja em terra firme ou nas margens do Rio Negro. “Tudo em São Gabriel tem um significado mitológico-científico. Essa história só precisa ser recontada com ajuda da ciência”, ressaltou.


Vendido a um colecionador, o amuleto ficava num lugar especial na comunidade do Alto Papuri para proteger o local. Foto: Divulgação

Pintada com ouro

A pedra acima, no formato de cabeça de serpente, é oriunda da região do Alto Papuri, ultima comunidade na fronteira com a Colômbia. É um amuleto. Ela tem detalhes da pintura em ouro. A serpente é elemento presente em todas as crenças dos povos do Negro e representa o elemento criador do universo.

Publicidade
Publicidade