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'A cidade não é um problema, é uma solução', diz arquiteto e consultor da ONU sobre Manaus

O arquiteto paranaense que concebeu o sistema BRT,  copiado por mais de 300 cidades do mundo e escolhido como matriz de transporte de Manaus, defende que é possível implantá-lo em três anos sem custos exorbitantes 07/06/2015 às 17:23
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Lerner defende que o BRT é o sistema de transporte de massa mais barato.
Cinthia Guimarães Manaus (AM)

 “A cidade não é um problema, é uma solução?”. A frase do consagrado arquiteto e consultor das Nações Unidas para assuntos de urbanismo, Jaime Lerner, demonstra a crença na transformação de quem ajudou a tornar Curitiba cidade-modelo brasileira e conceber o sistema de ônibus expressos batizado de BRT (Bus Rapid Transit) quando prefeito.

Com três mandatos no comando da capital paranaense e duas vezes governador do Paraná, Lerner tem larga experiência sobre os temas mobilidade urbana e cidades sustentáveis e diz em suas conferências pelo mundo que qualquer cidade pode ser transformada em curto prazo, se tornando um melhor espaço urbano de convivência.

Suas ideias que transformaram a capital do Paraná em  referência nacional e internacional em planejamento urbano, principalmente em transporte, meio ambiente, programas sociais e projetos urbanísticos, o deram projeção mundial. Lerner é palestrante do TED - a famosa fundação privada sem fins lucrativos dos Estados Unidos conhecida por suas conferências ao redor do mundo ligadas à disseminação de ideias - e hoje se dedica ao “Jaime Lerner Arquitetos Associados”, seu escritório de arquitetura em Curitiba, que fica a uma quadra de onde mora.

Em entrevista ao A CRÍTICA, Lerner defende que o BRT é o sistema de transporte de massa mais barato, eficiente e mais rápido para se implantar em uma cidade de grande porte como Manaus, que já ultrapassa 2 milhões de habitantes. O sucesso do projeto, diz ele, depende da vontade política em dar mais agilidade à vida dos usuários, com tempo de espera que não ultrapasse dois minutos, embarque rápido e maior frequência de ônibus, de modo que dê alternativas à utilização cada vez menor dos carros.

O sistema BRT já foi copiado por mais de 300 cidades do mundo e atualmente está sendo discutido pela Prefeitura de Manaus e governo do Estado como a solução para a mobilidade urbana da capital, a partir da utilização de vias exclusivas que darão mais velocidade às viagens e frequência maior dos ônibus. Confira:

O que o senhor quer dizer com “qualquer cidade pode ser melhorada em três anos”?

A mudança numa cidade pode acontecer de maneira rápida. Necessariamente não precisamos sacrificar gerações e gerações para melhorar a vida de uma cidade. Não conseguimos implantar todo um sistema de mobilidade, mas podemos começar bem, com a drenagem, por exemplo, Pode -se melhorar sua qualidade de vida bem significativa em menos de três anos, desde que tome medidas necessárias e não postergue eternamente a possibilidade de fazer. Não há nada de excepcional em Curitiba, a não ser que as coisas aqui aconteceram. O grande problema é que no Brasil e no mundo, as pessoas querem ter todas as respostas antes. Não podemos ser pretensiosos. O importante é começar bem. Inovar é começar. 50% das transformações são importantes porque acontecem no início. As soluções não podem ser só de transporte em si, ela é parte de uma visão integrada de moradia, trabalho, emprego. O que desperdiçamos no mundo inteiro desnecessário é terrível. A primeira coisa é não dar a importância que dão para o automóvel, ele é o cigarro do futuro. Não que você não terá, mas a maneira de usar tem que ser diferente, para o lazer, para viagens continuará sendo necessário. 

Como fazer diferente?

A mobilidade tem que ser a solução, transporte público que passa por vários modais: ônibus, bicicleta, transporte público individual (os carros elétricos). Embora digo que o futuro está na superfície, não digo qual é o melhor. Ônibus, metrô, bicicleta, táxi têm que funcionar de maneira integrada. Precisamos é melhorar as condições para que os ônibus possam operar. O ônibus pode ter mesma performance que o metrô: caneleta exclusiva, poucas paradas, embarque rápido e você não esperar mais que um minuto. E o ponto mais importante é a frequência. Por isso, as poucas linhas de metrô no país não funcionam. Você pode ter frequência boa na superfície. Todo mundo vai dizer, “falta espaço nas ruas”. Não é. Porque os espaços estão privatizados. Como canalizar esta prioridade (transporte), vias exclusivas, canaletas. Todas as cidades podem implantar bons sistemas imediatamente, 50 vezes mais barato que o metrô por quilômetro. Tem muitas cidades que tornaram o BRT muito claro, com muitas desapropriações. É pra ser imediata a mudança, não ficar anos e anos. Isso é possível em qualquer cidade. Depende da concepção. 

Como foi o processo para implantar o BRT em Curitiba?

Utilizamos vias existentes e não gastamos um centavo com desapropriação. Criando binários e trinários. É importante que a população sinta o efeito imediatamente. Não dá pra fazer o sistema completo. Importante é que opere bem, seja com uma duas linhas. O sistema (em Curitiba) começou em 1974 e hoje tem 300 cidades no mundo inteiro que implantaram o BRT de Curitiba, entre elas Bogotá, Seul, Cidade do México, Istambul, Rio de Janeiro. Ficou muito claro que não dá pra esperar 30 anos por uma linha de metrô. Tem que começar já. Mas de outra maneira, como um sistema. Na Cidade do México se chama “Metro bus” e em Bogotá “Transmillennium”.

Que condições uma cidade precisa oferecer para que o BRT funcione bem? 

Embarque rápido, frequência, não esperar mais de dois minutos. O mais importante é pensar a mobilidade junto com uma visão integrada na cidade: moradia, trabalho. Se você pensar moradia de um lado e trabalho de outro fica mais caro e mais difícil resolver. Uma cidade não pode ser pensada só em corredores.

Você conhece Manaus ou já fez projetos para cá?

Conheço muito pouco. Não fiz projetos, mas alguns membros da minha equipe já trabalharam aí.

Manaus teria condições de suportar um metrô? Quais critérios são utilizados?

Tudo tem o seu tempo. Antes de ter uma rede completa operando bem não se pode pensar em monotrilho e metrô. Tem que ter uma rede de ônibus que opere bem e uma solução de superfície. Não é o ônibus no lugar do carro, mas carro no lugar do ônibus. Nem sempre desapropriação necessária, cada cidade tem uma realidade. Sempre há alguma alternativa que evite grandes problemas. Um sistema que opere bem a população aprova e começa a pedir mais. Tem que ser um transporte que melhore a qualidade de vida da população. Tem que ter linhas que operem bem. Tem que abranger o máximo possível de linhas que possam garantir boa operação. 

E os terminais de integração são necessários?

São necessários. Sempre serão importantes porque o número de linhas que passem pelo centro da cidade não alcançam.

O que o senhor pensa do seabus (ônibus marítimo), como funciona em Vancouver (Canadá) em um cidade banhada por um extenso rio, como Manaus?

O transporte aquaviário é formidável. Tem que ser parte de uma solução, seria fundamental aproveitar essas soluções.

E quanto ao monotrilho?

Bobagem. O monotrilho é um sistema usado para ligações diretas: aeroporto-cidade. Não é o sistema que possa ser utilizado em embarque e desembarque de passageiro. Um monotrilho com poucas paradas não vai ser viável. Tem cidades onde funcionou. Em geral ele é indicado com ligações diretas com poucas paradas, o que não atende a necessidade como um todo. Não vejo grande vantagem. Porque se inviabiliza economicamente. Tem que ter vias separadas e não é indicado para o transporte urbano.

Qual é o problema de transporte das cidades brasileiras?

Tudo isso é resultado de uma falta de concepção adequada, de separar as funções, uma distância cada vez maior entre moradia e trabalho. Isso está claro que tem que ser mais próximo. Grande parte dos maus exemplos ocorre em função da falta de concepção adequada e de falta de operação adequada. São algumas condições essenciais. Embarque rápido, pista exclusiva, frequência, tem que estar integrado à moradia, trabalho e lazer.

O que fazer numa cidade que possui 600 mil veículos e 2 milhões de habitantes. A solução é rodízio?

O carro é o cigarro no futuro. Ninguém imaginava que pessoas parassem de fumar em lugares fechados há algum tempo. A ênfase no transporte público tem que acontecer mais, vamos ser obrigados a funcionar. Não há futuro no transporte individual.

O que seria um modelo de cidade tartaruga, como o senhor costuma dizer? Por que esse modelo aporta  mais qualidade de vida às cidades?

A tartaruga é: moradia, trabalho e mobilidade junto. O casco da tartaruga tem o desenho de uma tecitura urbana. Você pode imaginar o que aconteceria com a tartaruga se você cortasse o casco - morar num lado e trabalhar no outro -  a tartaruga morreria. É o que muitas cidade, infelizmente, estão fazendo. Separando as pessoas por renda, guetos de gente muito rica, de gente muito pobre. Todas as separações não fazem bem à cidade.

Algumas cidades europeias, como Paris e Madri, já estão proibindo circulações de carro em seus centros. Isso funcionaria em cidades brasileiras?

Antes de mais nada, a cidade tem que oferecer bom transporte público. Lá tem isso. Só com isso você pode exigir, colocar restrições ao uso do automóvel no centro da cidade. Tem que ter alternativa. Ninguém muda se a alternativa não for melhor.

Custo de R$ 15 milhões por quilômetro

Atualmente, Prefeitura de Manaus e Governo do Estado trabalham no projeto do BRT para a capital que será dividido em duas etapas: BRT Leste e BRT Norte. Sem data para começar a operar, o sistema vai precisar de recursos de todas as frentes.

“Para executar tem que ter participação do governo federal, Estado ou buscar empréstimo BID (Banco Mundial), CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina). A prefeitura em si não  tem condição, como qualquer cidade do país”. explica o superintendente municipal de Transportes Urbanos, Pedro Carvalho.

O projeto dos dois corredores está custando R$ 3 milhão. Na fase da execução, cada quilômetro deverá custar R$ 15 milhões, contra R$ 45 milhões por quilômetro que custaria o VLT, uma das alternativas discutidas no plano mobilidade urbana para Copa do Mundo 2014.

De acordo com o planejamento, o BRT Leste passaria pelos terminais de integração 4 e 5, pelas avenidas Autaz Mirim, Alameda Cosme Ferreira e Ephigênio Sales, rumo ao Centro. O BRT Norte vai partir do terminal 4, passando pelo Terminal 3, avenidas Noel Nutels, Max Teixeira, Torquato Tapajós, Constantino Nery até o Centro.

Com o atual sistema BRS transportando, em média, 10 mil passageiros por hora, o BRT poderá transportar 40 a 45 mil passageiros por hora.






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