Terça-feira, 12 de Novembro de 2019
Matança nos presídios

A CRÍTICA mostra o drama das mães de detentos do sistema prisional do Amazonas

Em meio à matança nos presídios, são elas que mais sofrem com a situação dos filhos presos; leia o relato de uma que perdeu o filho e de outras que sofrem sem informações dos rebentos



domingo_EA1E5FE5-48C6-4177-8B65-A2939817343B.JPG Último áudio que Adriana recebeu do filho foi declaração de amor a ela. Foto: Sandro Pereira/freelancer
02/06/2019 às 16:18

“Mãe eu te amo”. Essa foi a última frase que a dona de casa Adriana Araújo ouviu do filho Leonardo Marinho Araújo. Ele, que faria 24 anos hoje, foi um dos 55 detentos mortos por outros presos dentro das unidades prisionais da capital no início da semana passada. O relato é parecido com o de milhares de mães que perderam seus filhos para o crime e que mudaram a rotina de vida em função da situação deles como presidiários.

O filho de dona Adriana estava preso há cerca de dois anos, pelo crime de latrocínio, no Instituto Penal Antônio Trindade (Ipat) e foi um dos 25 detentos assassinados dentro do local na última segunda-feira (27). Cabisbaixa e com o olhar triste, ainda vivendo o luto do filho enterrado na quinta, ela relembra a última vez que ouviu a voz de Leonardo e conta como soube que ele tinha morrido.



“Na sexta, dia 24, ele me mandou um áudio falando que me amava e contando outras coisas. No domingo (26) fui visitar ele, mas como teve confusão no Anísio Jobim eles suspenderam a visita. Eu já estava na revista, na parte do procedimento de vistoria da comida. Aí mandaram a gente sair de dentro do presídio que estávamos. Eu nem cheguei a ver mais meu filho naquele dia”, conta, entristecida.

 Adriana ficou em choque após saber que o filho era um dos 40 mortos da última segunda-feira. Foto: Sandro Pereira/freelancer

Ela estava em casa quando soube que o filho tinha sido umas das vítimas do conflito no Ipat. A filha mais nova, que tinha ido até a entrada do ramal de acesso ao presídio, foi quem ligou dando a notícia. “Eu estava tranquila, não imaginava. E aí minha filha falou os nomes da lista. O primeiro nome era o do meu filho. Quando eu ouvi o nome dele, eu fiquei em choque. Não estava acreditando. Mas aconteceu. Dentro da cadeia tem muita coisa que nem é bom falar”, relata, bastante abalada.

Dona Adriana contou que mudou a coisas na sua rotina para poder ir visitar os filhos todos os finais de semana. Assim como ela, a agricultora, Alcinda Vieira, 68, divide seus dias entre cuidar da casa que tem na estrada de Autazes e com as visitas ao neto Jeferson Vieira, que criou como filho, detido no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) e do qual ela não tem notícia há uma semana [ele não está na lista dos mortos].

“Ele foi criado ao meu lado. Dormia comigo, era meu parceiro em casa e agora eu fico preocupada, pensando como ele dorme lá. Sem conforto. Tudo isso por causa de um amigo, de uma amizade errada, se meteu nisso e ficou assim”, relata.

Ela contou que correu para o IML quando soube da confusão e se disse aliviada por sabe que o filho não estava na lista dos mortos. “Esse amigo dele até morreu nessa confusão e eu, ainda no IML, dei um apoio a família dele quando soube que o meu filho não estava na lista de mortos. A gente fica preocupada porque sempre tem confusão e quando a gente ama a gente não olha os defeitos. Agradeci por ele esta vivo. É uma situação que mexe com a gente. Mudamos os hábitos para acompanhar a vida deles. Eu venho (visitá-lo na cadeia) toda semana. Alguns dias durmo na minha casa, no interior, e outros dias aqui na casa da minha filha. Fico nessas idas e vindas desde que ele foi preso há dois anos”, conta a agricultora.

Sem notícias do filho 

Na manhã da última sexta-feira, a diarista Elizângela Fonseca, 42, esperava notícias da situação do filho, condenado por roubo em 2012, ao lado da avó do rapaz, em frente ao ramal que dá acesso ao complexo de presídios na BR-174, em Manaus. Ela mostrou-se apreensiva diante da falta de informações sobre o estado dos detentos que sobreviveram à chacina do começo da semana.

 Elizângela e a mãe em busca de notícias do filho, preso no Compaj. Foto: Jair Araújo

“No massacre de 2017, os agentes divulgaram a lista dos presos feridos. Tivemos acesso às dependências do Compaj e ao serviço de assistência social”, lembra. “Hoje, os agentes alegam que não podem dar informações e precisam da presença do pessoal dos ‘Direitos Humanos’, mas é difícil. Não conseguimos retomar nossa vida depois do ocorrido. A falta de notícias nos deixa sem chão”.

A reportagem de A CRÍTICA entrou em contato com a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) questionando sobre a situação relatada, porém não recebeu resposta até o fechamento desta matéria.

Dia de aflição e desespero

O desespero por informações fez com que mães, esposas, irmãs e filhos tomassem conta das vias que dão acesso às quatro unidades prisionais onde houve conflitos na segunda-feira (27). No quilômetro 8 da BR-174, onde ficam localizados o Compaj, Ipat e Centro de Detenção Provisória Masculino 1 (CDPM1), a aflição e desespero tomou conta de muitas mulheres. O alívio ou lamentação só veio depois que a lista de mortos foi divulgada, horas depois do inicio da confusão, no início da noite. Somente nessas três unidades foram assassinadas 34 pessoas. Sendo 25 só no Ipat.

Já na Unidade Prisional do Puraquequara (UPP), localizada na comunidade Bela Vista, Zona Leste de Manaus, seis detentos foram executados. Do lado de fora, após os ânimos se acalmaram, muitos familiares se reuniram em oração pela vida dos mortos e para pedir segurança aos que ainda estavam detidos na unidade prisional. No total, apenas na segunda-feira, foram registrados 40 homicídios dentro dos presídios. Sendo que no domingo anterior 15 detentos já tinham sido executados dentro do Compaj. Boa parte das mortes foram causadas por asfixia e estrangulamento, segundo informou a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap). A CRÍTICA mostrou com exclusividade que as mortes foram motivadas por um racha na facção criminosa Família do Norte (FDN).

A situação trouxe à tona a fragilidade do sistema e fez com que o Ministério da Justiça enviasse homens da Força-Tarefa de Intervenção Penitenciária para ajudar no monitoramento das unidades. Mais de 80 já chegaram à capital e devem permanecer na cidade por cerca de 90 dias.

Na sexta-feira (31), uma comissão formada por parlamentares, membros da Frente Parlamentar Mista de Desenvolvimento Estratégico do Sistema Penitenciário, Combate ao Narcotráfico e ao Crime Organizado no Brasil, visitaram algumas unidades prisionais e prometeram elaborar um relatório com medidas para solucionar a crise no sistema prisional do Amazonas.

O presidente da Frente, deputado federal Capitão Alberto Neto (PRB-AM), explicou em coletiva de imprensa que, entre as propostas do grupo, está a realização de concursos públicos para mais agentes penitenciários, formação de agrupamentos para controle contínuo dos presos, melhoria da estrutura das penitenciárias, e regulamentação, a nível local, do Fundo Penitenciário Nacional. O relatório será encaminhado ao Ministério da Justiça.

*Colaborou: Daniel Amorim

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Repórter de Cidades
Formada em 2010 pela Uninorte, é pós-graduada em Assessoria de Imprensa e Mídias Digitais pela Faculdade Boas Novas. Repórter de Cidades em A Crítica desde 2018.

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