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Manaus
CHEIA

Moradores de áreas alagáveis em Manaus mantêm alerta sobre a cheia do rio Negro

Nem o ritmo lento da subida das águas leva alívio a quem vive em regiões sujeitas a alagação na capital. Quinze bairros estão na lista de risco 08/02/2018 às 07:10 - Atualizado em 08/02/2018 às 11:54
Show cheia
Foto: Jair Araújo
Silane Souza Manaus (AM)

O ritmo de subida do nível das águas do rio Negro, em Manaus, ficou mais lento nos últimos dias. A cota de 23,04 metros, atingida nessa quarta-feira (7), está 1,53 metros abaixo da registrada no mesmo período do ano passado, de 24,57 metros. Porém, a notícia não traz nenhuma segurança à população que mora em áreas passíveis de alagação da cidade, que o digam os moradores do beco do Pescador, no bairro Mauazinho, Zona Leste, onde a Defesa Civil do Município está reconstruindo uma ponte de madeira a fim de minimizar os transtornos causados pela cheia no local. 

A aposentada Sônia Maria da Silva Gonçalves, 65, disse que há dois anos não tem a residência dela alagada porque a reconstruiu mais alta. Mas antes da reforma sofria muito, pois todos os anos as águas atingiam o assoalho, levando a família a fazer maromba para elevar o piso da casa e, assim, resguardar os eletrodomésticos e móveis. “Tivemos um grande alívio com isso, graças a Deus”, mencionou. Mas nem todos os vizinhos têm a mesma sorte: muitas casas ainda são invadidas pela água. 

Apesar das dificuldades e da morte do esposo, ocorrida há dois meses, a aposentada não pensa em sair do lugar, onde vive há pelo menos 35 anos, desde que veio da comunidade Terra Nova, no município de Careiro da Várzea (a 25 quilômetros de Manaus). Conforme ela, no período da cheia há abundância de peixe na região. “Aqui eu pego meus peixinhos, coloco na caixa e meus netos vendem todos”, contou. 


Após várias alagações, Sônia Gonçalves decidiu reconstruir a casa mais elevada. Foto: Jair Araújo

A dona de casa Edneuza Ribeiro da Silva, 52, pensa diferente. De acordo com ela, que mora há 20 anos no lugar, se pudesse ela já teria se mudado. “Aqui é muito perigoso na cheia. Quando tem temporal então, nem se fala, o banzeiro é muito forte e junto com o vento pode derrubar a casa. Tenho muito medo. Quando meus filhos eram crianças eu colocava todos dentro da canoa e ficava até o temporal passar”, revelou.

Edneuza ressaltou que é preciso se preparar para enfrentar a cheia. As crianças têm que aprender a nadar o mais rápido possível para não morrerem afogadas, a família que não tem canoa fica ilhada, visto que nem todas as casas são ligadas pela ponte, entre outros obstáculos comuns a quem vive na orla de Manaus. “São muitas as dificuldades. Ainda tem a questão das lanchas e jet-skis que transitam por aqui sem cuidado, trazendo perigo aos moradores”, apontou.


Edineuza aguarda oportunidade de se mudar: ela acha a vida na orla perigosa. Foto: Jair Araújo

Prejuízos a moradores

A autônoma Sônia Filha, 40, afirmou que quase perdeu todos os móveis nas últimas cheias. “Todo ano a minha casa alagava. Era preciso fazer maromba, mesmo assim, muitas coisas eram danificadas. No ano passado derrubamos a casa e fizemos outra mais alta. Não alagou. Espero que este ano não alague também. A preocupação maior era com a ponte que estava com a estrutura comprometida”, disse.

A ponte de madeira em questão está sendo reconstruída desde a última segunda-feira pela Defesa Civil de Manaus. São aproximadamente 70 metros. “Esta é uma ação preventiva por conta da cheia. Estamos adiantando os trabalhos aproveitando que o nível do rio ainda está baixo. É muito ruim reconstruir ou reformar ponte dentro d’água”, afirmou o técnico do órgão, Renilson Monte.


No beco do Pescador, uma ponte é construída para evitar o isolamento. Foto: Jair Araújo

Medidas preventivas

De acordo com a Defesa Civil de Manaus, as ações da “Operação Cheia 2018” tiveram início ainda no mês de janeiro. O objetivo é antecipar as atividades de prevenção e monitoramento nas áreas passíveis de alagação, por conta do fenômeno da cheia, para minimizar os impactos causados na capital e na zona rural do Município.

O técnico do órgão, Renilson Monte, revelou que o bairro Mauazinho, na Zona Leste, é o primeiro a receber, este ano, os trabalhos de construção de pontes de madeira, que auxiliam na locomoção de moradores de áreas alagadas. As demais ações do tipo ainda estão sendo programadas. “Nós vamos construindo as pontes conforme a indicação dos nossos agentes que estão monitorando a cheia e identificando os locais que alagarão mais rápido. Nosso objetivo é adiantar o trabalho preventivo”, disse Monte destacando que, provavelmente, a próxima ponte a receber reparo é a da rua 13, no Mauzinho 2.

Conforme a Defesa Civil, as vistorias serão realizadas nos 15 bairros da cidade passíveis de alagação. São eles: Tarumã, Mauazinho, São Jorge, Educandos, Raiz, Betânia, Presidente Vargas, Colônia Antônio Aleixo, Aparecida, Centro, Santo Antônio, Cachoeirinha, Glória, Compensa e Puraquequara.


Defesa Civil já monta pontes provisórias nas áreas passíveis de alagação. Foto: Jair Araújo 

Alagações no Juruá e Purus

No gráfico de desastres da Defesa Civil do Amazonas, as calhas do Juruá e Purus são as primeiras regiões afetadas no Estado com inundações. O Boletim de Acompanhamento da Cheia 2018, do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), aponta que estas regiões estão em processo regular de enchente, apesar de o Purus ter apresentado redução nas cotas das últimas semanas. 

A bacia do Negro, nos trechos alto e médio, vem apresentando pequenas variações de nível ao longo de seu processo de enchente. No porto de Manaus, o rio Negro segue em processo de enchente, com níveis dentro da normalidade.

A bacia do Solimões é outra que segue monitorada em processo de enchente em toda a sua extensão, com cotas regulares para a época, conforme o Boletim de Acompanhamento da Cheia 2018. 

Processo regular de enchente também é observado na bacia do Amazonas, ao contrário da bacia do Madeira que, em Humaitá, está com níveis próximos aos observados em 2014, quando ocorreu a cheia histórica daquela região. Na última semana, porém, apresentou redução de alguns centímetros em seu nível.

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