Quarta-feira, 28 de Julho de 2021
TRATAMENTO

A força de Milly Barreto, que trata a ansiedade generalizada nos campos de futebol

Jovem de 19 anos conta ao A Crítica sobre as barreiras que precisou vencer, da ansiedade ao machismo, para seguir com sua 'terapia': a fotografia esportiva



158085227_10225529020196906_779035503702222967_o_B1F0BFA1-99B6-4CD2-8D4F-75F4A61AE9D7.jpg Foto: Adriel Leme
08/03/2021 às 16:11

"Nem todos podem se tornar grandes artistas, mas um grande artista pode vir de qualquer lugar". A frase dita pelo crítico francês Anton Ego, na animação Ratatouille (2007), pode ser usada para descrever Milly Barreto, de 19 anos.

Natural de São Sebastião do Uatumã (246 km de Manaus), a fotógrafa exerce seu trabalho - com mestria - nas partidas disputadas entre clubes profissionais do estado, seja em jogos do profissional ou da base. No Dia Internacional da Mulher, Milly conta ao A Crítica sua história, que vai muito além dos registros feitos por suas lentes.



Família

Aos 13 anos, Milly assistiu sua primeira partida de futebol na arquibancada: Nacional 5x1 Princesa, pela final do Campeonato Amazonense 2014. O título conquistado pelo Leão foi especial, já que naquele ano, a mãe da jovem - Ennas Barreto - trabalhou como assessora do clube azulino.

"Minha família sempre esteve ligada ao futebol por causa do meu bisavô materno. Em 2015, sempre fui aos treinos e jogos com a mamãe e, em 2016, ficava responsável de enviar as fotos que ela fazia para os jogadores. Depois, ela teve que se afastar por problema de saúde e eu fiquei afastada também. Voltamos em 2018 e cheguei a pegar algumas vezes na câmera, mas nunca tive curiosidade de me aprofundar. Achava chato ter que ficar sendo perturbada pelos meninos (risos)".

Forte desde cedo

Mulheres amadurecem rápido e com Milly isso não foi diferente. Ainda em 2018, a jovem não conseguiu passar no vestibular, mas o problema maior veio em seguida, quando ela passou a sofrer com palpitações no coração. E, como se não bastasse, uma tragédia na família fez tudo piorar.

"Fui ao médico algumas vezes, mas sempre no cardiologista diziam que não era nada. Em janeiro de 2019, uma tia com quem eu vivia junto cometeu suicídio e foi um baque muito grande pra mim. Fiquei mais de uma semana sem conseguir dormir, sem comer direito, muitas palpitações. Ia para o cursinho e não me concentrava nas aulas, tinha medo do nada e, um dia, tive isso de uma maneira mais intensa. Pedi ajuda no próprio cursinho e ligaram para minha mãe, ela foi me buscar e logo fomos ao clínico geral. Contando isso para ele, fui encaminhada rapidamente para a psicóloga e fui diagnosticada com ansiedade generalizada", detalha a fotógrafa, que a partir da conversa com a psicóloga, descobriu o que precisava fazer para "deixar o coração mais leve".

"Ela me pediu para largar tudo e fizesse algo que me trouxesse prazer, que ajudasse a me distrair. A única coisa que gosto muito é futebol, então comecei a ir em treinos do Nacional todos os dias e, por já acompanhar e admirar o trabalho do fotógrafo do Vasco (Rafael Ribeiro), pedi a câmera da mamãe emprestada. Comecei a fazer algumas fotinhas à toa, no automático mesmo. Gostei, mas não eram 'as fotos'".

Conquista

Com a ajuda de Rafael, Milly foi aprendendo os segredos da fotografia esportiva. O foto jornalista Paulo Bindá também foi parte importante no processo, orientando a "novata" quando ambos acabavam cobrindo a mesma partida - seguindo assim até hoje. Foi questão de tempo para que a jovem fosse campeã fora das quatro linhas, assim como a mãe.

"Eu acompanhei o elenco sub-19 do Nacional no Amazonense de 2019 inteiro, desde a peneira até a entrega da taça de campeão. No começo foi bem difícil, só era eu de mulher ali. Recebi muita orientação da mamãe em relação a como lidar com os jogadores, mas eles eram quase todos da minha idade e isso ajudou, me respeitaram muito, me respeitam até hoje e nos damos muito bem. Cheguei a contar para eles o motivo de eu estar ali, que era ansiedade e sempre que me viam pra baixo, alguns chegavam pra conversar comigo e tentavam me animar".

Machismo x Respeito

Ainda em 2019, Milly seguiu acompanhando o calendário do Nacional. Desta vez, o clube estava se preparando para a disputa da Copa Verde. Com reforços chegando à Vila Municipal, o ambiente de paz deixou de existir. Foi quando, mais uma vez, ela precisou ser forte, recebendo apoio dos próprios atletas.

"Veio o elenco da Copa Verde e aí já foi um pouco mais difícil. Eram pessoas mais velhas, mas sempre respeitei a todos, para que todos me respeitassem. Alguns eu já tinha amizade, por serem da cidade, mas sempre soubemos diferenciar trabalho de amizade. Cheguei a sofrer um pouco por causa de brincadeiras machistas e falei a eles que não gosto disso. Por vezes chorei com medo de estar fazendo algo errado e estar passando uma imagem ruim por ser mulher, mas depois melhorou, pararam de fazer aquilo, entenderam meu lado e alguns (atletas) também não gostavam e me ajudaram", revela Milly, dando detalhes sobre como precisa driblar as adversidades impostas por pensamentos machistas.

"Por várias vezes, já desconstruí a imagem que esposas de jogadores têm de mim. No começo elas pensavam uma coisa, chegavam a perguntar de outras mulheres se me conheciam e já deixei de postar foto de muitos (atletas). Nós, fotógrafos, temos uma lei a nosso favor, que é de direitos autorais e eu sempre tento falar sobre isso para os jogadores que mando as fotos. Muitos já deixaram de me dar os créditos porque a esposa não gosta, por eu ser mulher. Até entendo o lado delas, mas estou ali a trabalho e, hoje, muitas gostam de mim e conversam comigo".

Inspiração

Prestes a completar 20 anos em abril deste ano, Milly transformou sua "terapia" - como ela denomina seu trabalho com fotografia - em uma história inspiradora para muitas mulheres que querem trabalhar na área de esportes, fazendo questão de orientar cada uma delas quando questionada sobre sua profissão.

"Um dia cheguei a perguntar ao Zezinho (representante da Associação de Cronistas e Locutores Esportivos do Amazonas) se só tinha eu de fotógrafa mulher associada ali, mas ele disse que não. Há outras, mas atuando hoje, só eu. Comentei isso no programa 'A Hora é Delas', live do Brusque no YouTube, durante a primeira quarentena. Já recebi algumas mensagens de outras mulheres pedindo ajuda em relação a câmera. Uma delas é de Itacoatiara, que hoje trabalha ajudando o tio nos jogos do Penarol e a outra é esposa de um jogador. Ajudo todas com a maior disposição, gosto muito quando chegam pra me pedir ajuda, principalmente quando é mulher", orgulha-se a fotógrafa, que ainda espera crescer cada vez mais dentro da profissão.

"A melhor parte é que me ajuda contra a ansiedade, me ajuda a desconstruir o machismo contra nós mulheres que trabalhamos no meio esportivo, no meu caso, dentro do futebol e poder ajudar outras mulheres que têm vontade de começar a fotografar ou trabalhar no meio, assim como o Rafael e o Bindá me ajudam. Eu almejo coisas melhores pra mim dentro da fotografia, melhorar os equipamentos e quero, um dia, poder viver da fotografia", finalizou.


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