Terça-feira, 23 de Julho de 2019
RECADOS

A guerra que vem dos 'salves': ordens para mortes partem de presídios federais

Mesmo em presídios de segurança máxima, os líderes das facções transmitem comunicados extensos e detalhados sobre o que os seus comandados do lado de fora devem fazer



salve.JPG (Foto: Márcio Silva)
28/07/2018 às 16:45

O fato de estarem segregados em presídios federais de segurança máxima não impede que os líderes das facções criminosas continuem fazendo com que as suas ordens cheguem aos seus comandados por meio de informativos, os chamados de “salves”. No mês passado, por exemplo, a inteligência dos órgãos de segurança interceptou um desses, o maior já encontrado até agora, de autoria do José Roberto Barbosa Fernandes, o “Zé Roberto da Compensa”, um dos fundadores e principal nome da facção criminosa Família do Norte (FDN), preso há mais de um ano em Catanduvas, no Paraná.

No informativo de dez páginas, o traficante, que se autodenomina “Avatar”, fala que o grupo está em “guerra”, faz um reordenamento da facção em Manaus e diz  aos comandados, entre outras coisas, que adquiriram armas, inclusive de uso restrito, e granadas. “Eu to precisando, estamos em uma guerra”, diz trecho do salve. 

Apesar do trabalho de inteligência interceptar as mensagens, elas chegam aos seus destinatários, nas unidades prisionais do Estado.  “Quando sai um salve, ele é enviado para todas as unidades. Quando eu pego um, passam cinco e pulveriza de uma cadeia para outra”, diz o secretário de Administração Penitenciária do Amazonas (Seap), Cleitman Coelho.

O secretário executivo de Inteligência da Secretaria de Estado de Segurança Pública do Amazonas (Seai/SSP-AM), Herbert Pascarelli, diz que não  há dúvidas que os salves são passados pelos presos por pessoas que mantêm contato pessoal e físico com eles, que são os familiares, advogados e agentes penitenciários.

Nos últimos meses, os salves estão mais frequentes e polícia está tendo mais dificuldades para interceptá-los porque na maioria das vezes eles chegam via internet. “Mas, já vimos casos de uma visita que estava levando uma carta escrita no tecido do avesso da calça comprida”, observa Pascarelli.

O teor da maioria dos salves trata briga entre facções criminosas, de disputa de área do tráfico e ordens para eliminar desafetos. Embora sejam muitos salves que chegam, nem todos merecem credibilidade, a maioria é falsa, destaca o secretário da Seai/SSP-AM. Nos últimos meses a inteligência teve acesso a oito salves considerados verdadeiros, dois ordenavam a disputa de territórios e seis tratavam de briga entre facções e eliminação de desafetos.

Questionado sobre o vazamento dos comunicados, o Ministério da Segurança Pública ressaltou em nota que o Sistema Penitenciário Federal (SPF) “realiza um árduo trabalho preventivo” para evitar que os recados (escritos ou verbais) saiam dos presídios federais e que não há registro de envolvimento de servidores nestas ações criminosas. Fora do ambiente penitenciário, destacou a pasta, a investigação e acompanhamento das pessoas que transmitem esses salves ficam a cargo das polícias Federal e civis de cada estado.

Segurança está em alerta

O secretário de Segurança Pública (SSP-AM), Anézio Paiva, disse que tomou conhecimento do informativo da facção  e que as secretarias de Inteligência  (Seai) e  Administração Penitenciária (Seap), além das polícias Civil e Militar, já estão analisando minuciosamente  o texto para que sejam tomadas as medidas que forem necessárias.

No “salve” de Zé Roberto, entre outras coisas, ele manda matar seus inimigos, fatia a cidade entre grupos e diz quem vai comandar o crime em cada pedaço. Ele  também dá ordens para cobrar dívidas, orienta o transporte de remessas de drogas pelos rios e determina que todos se empenhem  em conseguir armas, granadas e dinamite.

“Eu Avatar estou sabendo que estão matando muitos irmãos nossos nas ruas e vcs não dão uma resposta ... vocês têm que cair pra cima de todos os nossos inimigos”, recomenda o traficante.  O criminoso que atribui as mortes de seus soldados ao seu ex-sócio na facção Gelson Carnaúba, o “Mano G”, preso na mesma unidade prisional que ele.

Zé Roberto faz uma determinação sobre o transporte de droga da Colômbia para Manaus e aponta aos seus comandados sobre aquele que será responsável pelo contato direto com um colombiano do cartel de Cali, que é quem fornece a droga para a facção, e quem deve trazer a droga até Manaus.

“O Cebola que está na UPP (a Unidade Prisional do Puraquequara) tem um bom frete de Tabatinga para Manaus, aí vocês juntem dinheiro para estar investindo e vindo esse material nessa viagem”, determina.  Ele destaca o narcotraficante colombiano Wilder Chuquizuta Velayarse, o “Tronquito”, como sendo o elo entre a facção e os fornecedores Colombiano.  

O líder FDN também determina que os seus soldados tomem o controle do tráfico nas áreas que estão sobre o domínio dos concorrentes. “Vocês meus irmãos tem que ir pra cima dos inimigos que tem área aí e tomar tudo e não dá espaço para o inimigo”, ordena.

Zé Roberto diz que no Amazonas não há espaço para outra facção e determina que os que lhe fazem oposição sejam mortos. “No Amazonas só existe um comando p..., e não dois. CV é lá no Rio (Rio de Janeiro). No Amazonas tem um comando há mais de 25 anos”.

Revista minuciosa, sustenta ministério

Para A CRÍTICA, o Ministério da Segurança informou que antes do preso sair de sua cela para ter contato com visitantes (no pátio de visitas) ele passa por uma rígida revista. Antes do visitante entrar na área de segurança máxima do presídio, ele é submetido a uma inspeção em equipamentos de raio-x corporal  (Body Scanner).

A pasta frisou que a legislação brasileira permite ao preso receber visitas com contato físico e, nestes moldes, não é possível impedir que o detento dê uma ordem verbal ao visitante. 
Por  fim o ministério   informou que apenas os presos que estão incluídos no Regime Disciplinar Diferenciado têm suas visitas estabelecidas (de acordo com decisão judicial) em um local que o preso não tem contato físico com sua visita e monitorado por áudio e imagens

Manaus em guerra de facções

A última semana foi marcada pela violência na cidade, iniciando com três decapitações em 24 horas. Depois, bandidos impediram  vacinadores do sarampo de percorrerem as ruas do bairro Jorge Teixeira. 
A situação ganhou a atenção da imprensa nacional e as autoridades de segurança passaram a atrubir a alta da violência no mês ao recha das facções e à fuga massiva de integrantes do Comando Vermelho em maio.
  Na sexta-feira, as forças da segurança pública criticaram a divulgação de notícias falsas nas redes sociais, incitando o medo,  e disseram que o Estado está sob o controle da situação.
 

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