Sábado, 19 de Outubro de 2019
PÂNICO

Onda de violência no Mutirão fecha lojas e muda costumes dos moradores

Constantes assaltos e até o ‘toque de recolher’ fizeram a população evitar as ruas, afetando até a economia tradicional do bairro



23/07/2017 às 06:46

Nos últimos cinco anos, a loja de roupas foi o principal meio de renda para a família do microempresário *Manoel Silva, 45. Mas, desde o último final de semana, Manoel resolveu abrir mão da propriedade juntamente com toda a mercadoria de venda para ir em busca de “sossego” para a própria família. A decisão foi motivada após a onda de violência ocorrida desde o último final de semana entorno da feira do Mutirão, bairro Novo Aleixo, Zona Norte, sem contar com os quatro assaltos ocorridos na loja, no qual em um deles, os bandidos deixaram um recado para o filho de Manoel que o microempresário seria um homem morto.

A loja de roupas é só uma das 99 lojas da rua Itaité - conhecida por receber a Feira do Mutirão - contadas pelo A CRÍTICA que estão com as portas fechadas. Isso sem contar com as vias adjacentes desta área. Além da crise econômica, quem tem comércio nesta área afirma que a situação ficou mais difícil, após o aumento da violência ocorridas nos últimos meses. Os constantes assaltos e a briga pelo domínio do tráfico de drogas são os principais problemas de violência apontados pelos comerciantes e vendedores do local.



Manoel afirma ter sido um de tantas vítimas decorrentes dessa violência. “Eles (assaltantes) são cruéis e desrespeitosos. Só neste ano minha loja foi assaltada duas vezes. Na última ocorrência, além do dinheiro em caixa, os bandidos levaram dois fardos de roupas de marca, além de deixarem um recado ao meu filho que eles iriam me matar. Fora o prejuízo de mais de R$ 10 mil, minha família vive com medo do que possa vir ocorrer, quando precisam vir para loja, a porta é o tempo todo fechada na chave”, revelou o microempresário.

Antes desta última ocorrência, Manoel havia equipado a loja com câmeras de segurança. De acordo com ele, as imagens foram repassadas a polícia e durante o registro na delegacia foi informado que o caso dificilmente seria solucionado. “Isso até nos entristece ainda mais. Pois, os policiais me informaram que não havia efetivo o suficiente para tratar do meu caso, mesmo após receber ameaças. Depois desse ocorrido no último domingo, resolvi fechar a loja e buscar outro meio de renda, pois não dá mais para viver com ameaças e domado pela bandidagem”, detalhou. 

A vendedora *Maria Vera Costa, 27, contou que os bandidos aparecem para assaltar as lojas até de bicicleta ou a pé. Sempre andam em dupla e como muitas das vezes estão armados, ninguém tem coragem de reagir. “Quase todo dia uma das lojas desta área é assaltada. Os bandidos além de levarem o dinheiro em caixa, são tão abusados que levam peças de roupas, bonés, e até cuecas e ainda saem curtindo com a cara dos donos das lojas e vendedores. Como nesta semana teve a presença diária da polícia, não tivemos ocorrências, mas a situação é bem abusiva”, disse.

A sensação de insegurança domina o Mutirão. De acordo com Maria, após a informação do “toque de recolher” na última terça-feira, as vendas caíram, pois quase ninguém tem buscado a Mutirão para realizar as compras. “Não só os vendedores e comerciantes estão com medo, mas a população em geral. O movimento caiu praticamente 100%, a feira do Mutirão vivia cheio de gente, e nesta semana os clientes sumiram depois dos homicídios e com a história do toque de recolher. Quem mora por aqui afirma que a história é verdadeira, depois das 18h os moradores precisam estar com as suas casas e mercearias fechadas”, revelou a vendedora.

*nomes fictícios para preservar a identidades das fontes.

Vigilância aumenta

Durante essa semana, policiais militares portando até submetralhadoras foram postos na rua Itaité, bairro Novo Aleixo, Zona Norte. Um dos policiais, que preferiu não se identificar, informou que o toque de recolher não passou de um boato ocorrido na última terça-feira. Fora isso, ele revelou que a briga é feia nas ruas adjacentes sobre o domínio do tráfico de drogas. 

“Por isso ocorreu aquele tiroteio durante o final de semana. Estamos tentando manter a paz no local, porém o tráfico domina nessas vias adjacentes a feira do Mutirão. Por enquanto está tudo em ordem e a segurança foi reforçada. Pelo menos não tivemos mais nenhum caso de homicídio durante esses dias e nem registros de assaltos na feira”, disse o policial.

Durante a ida do A CRÍTICA a feira do Mutirão, muitos vendedores tinham medo de se pronunciar com receio do que poderia vir ocorrer com a conversa. Em uma das situações, a vendedora pediu pelo amor de Deus que a equipe de reportagem não se aproximasse, pois os traficantes da área tinham “olheiros” dentro da própria feira e que esses poderiam não aceitar o posicionamento da vendedora. “Eu tenho medo de morrer, eles podem mandar nos matar”, disse.

Nesta semana o Secretário de Segurança Pública, Sérgio Fontes firmou que as mortes ocorridas entre a madrugada e a noite de domingo no entorno da Feira do Mutirão, representam uma "falência total da criminalidade".

De acordo com o secretário, foram dois assassinatos à noite e mais dois de madrugada, todos em decorrência rachas dentro do crime organizado. Para Fontes, as execuções mostram que os ditos 'líderes' dos grupos criminosos estão sem comando. "É só olhar os sinais que os criminosos estão dando. João Branco versus Gelson Carnaúba, e o Zé Roberto sem liderança nenhuma na sua própria facção".

O número: 99 lojas estavam fechadas  ou com placas de vendas só nesta semana. Quem trabalha na feira do Mutirão afirma que o caso está relacionado com as criminalidades que ocorrem diariamente nesta região.

Violência recente

No último final de semana, os moradores em torno da feira do Mutirão, bairro Novo Aleixo, Zona Norte, viveram momentos de terror quando um grupo armado formado por aproximadamente 20 homens, alguns encapuzados, entrou na área e efetuou um tiroteio, deixando duas pessoas mortas e outras oito feridas, entre elas dois adolescentes de 13 e 16 anos. De acordo com a polícia, o crime foi motivado por uma briga entre grupos pelo comando do tráfico de drogas da área.

Na última terça-feira, os lojistas foram informados que deveriam fechar as lojas ao meio dia durante um suposto “toque de recolher”. Durante a ocorrência, os lojistas disseram terem ouvido barulhos de tiros e receberam informações de que bandidos entrariam nos estabelecimentos para saquear tudo.  


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