Terça-feira, 11 de Agosto de 2020
VIDA NOVA

Abrigos para pessoas em situação de rua viabilizam empregos, moradia e reabilitação

Plano estratégico de intervenção do Governo do AM implantou um conjunto de medidas de proteção às pessoas em situação de rua



WhatsApp_Image_2020-07-14_at_20.48.51_59ACEA15-6D48-4371-A7EB-AABCD440F8CF.jpeg Foto: Miguel Almeida/Seas
15/07/2020 às 07:33

Até o último mês de março, a rapper Lua de Souza Mascarenhas, 37, dormia nas ruas de Manaus, trocando constantemente de locais pelo medo de ser violentada. Com o isolamento social provocado pela pandemia da Covid-19, a situação ficou ainda pior e perigosa com as ruas vazias.

O panorama dela e de outras pessoas em situação de rua passou a mudar quando surgiram os abrigos provisórios criados pelo Governo do Amazonas. Lua, que tem o nome artístico Lucka Brasil, foi acolhida na base emergencial de acolhimento provisório da Arena Amadeu Teixeira.



Criada no dia 25 de março pelo governador Wilson Lima, a iniciativa também conta com mais dois abrigos: Centro Educacional de Tempo Integral (Ceti) Áurea Pinheiro Braga (Compensa) e Centro Estadual de Convivência da Família Miranda Leão (Alvorada).

As três bases integram o Plano de Intervenção para População de Rua como estratégia de prevenção da Covid-19 com a implantação de um conjunto de medidas de proteção às pessoas em situação de rua.

“Aqui tenho acompanhamento psicológico e psicossocial. Nas ruas eu tinha medo constante de ser estuprada. Todo esse apoio que tive no abrigo representou uma virada de página na minha vida. Foi uma transformação da água para o vinho”, contou Lucka Brasil.

De acordo com a diretora do Departamento de Proteção Social Especial (DPSE) da Secretaria de Estado da Assistência Social (Seas), Adriana Pellin, desde o início do período da pandemia foram realizados 802 acolhimentos à População em Situação de Rua (PSR). 

Além dessas três bases, o Centro Estadual de Convivência do Idoso (Ceci), no bairro da Aparecida, também serviu de ponto de apoio para almoço para esse público.

No total, o Governo do Amazonas forneceu até o mês de julho um total de 139.370 refeições, entre café da manhã, almoço, lanche e jantar. A segurança alimentar oferecida às pessoas em situação de rua acolhidas pela Seas e seus parceiros foi fundamental para garantir a proteção desse público vulnerável frente à pandemia. 

Graças a esse trabalho multidisciplinar e também ao acompanhamento médico que os acolhidos tiveram nesse período, não foi registrado nenhum caso de Covid-19 nas bases emergenciais de acolhimento provisório de acordo com a Seas.

E até agora 16 pessoas saíram empregadas das bases emergenciais de acolhimento provisório. Cerca de 20% dos acolhidos já retornaram aos trabalhos, formais ou informais, o que garante renda a essa população que se encontrava em situação de extrema vulnerabilidade, destacou o levantamento da Secretaria de Estado de Assistência Social.

Acompanhamento

Mas e quando os abrigos provisórios forem desativados, como fica a situação dos abrigados? De acordo com a Seas, a intenção do Estado é seguir acompanhando as pessoas em situação de rua.

“Em quase quatro meses de acolhimento, uma boa parte das pessoas em situação de rua acolhidas nas bases emergenciais foi encaminhada para um novo estilo de vida, seja moradia, empregabilidade e centros de reabilitação, com isso, a intenção do Estado é apoiar a continuidade dos encaminhamentos e serviços”, informou o órgão via assessoria de comunicação.

E os desabrigados ainda terão alguma assistência pelo Governo do Amazonas, garantiu a Seas.

“O Estado atua em parceria com o município de Manaus prestando apoio técnico e todo subsidio necessário na organização dos serviços, programas, projetos e benefícios socioassistenciais para pessoas em situação de rua”, explicou a secretaria.

MPT definirá futuro das bases

Atualmente, os atendimentos continuam na Arena Amadeu Teixeira, no Ceti Áurea Braga e no Ceci, este último serve como ponto para almoço.  A base emergencial do Centro Estadual de Convivência da Família Miranda Leão (Alvorada) já foi desativada. 

A Seas enfatizou que mesmo não sendo competência do Estado, mas do Município realizar os acolhimentos, a secretaria foi o primeiro órgão a olhar para as pessoas em situação de rua no inicio da pandemia e abriu o primeiro abrigo, dia 25 de março de 2020, na Arena Amadeu Teixeira.

A Seas aguarda as determinações do Ministério Público do Trabalho (MPT) sobre o futuro das bases emergenciais, uma vez que os espaços cedidos retornarão as suas finalidades (esporte e educação).

Volta ao lar e cadastro em benefícios

O trabalho de acolhimento ofertado pelo Governo do Amazonas incluiu atendimento psicossocial, mediação de conflitos, oficinas, palestras, rodas de conversas, escuta qualificada e encaminhamentos.

Conforme a Seas, isso possibilitou o fortalecimento dos vínculos familiares e o retorno de 20 pessoas aos seus lares e o encaminhamento de 61 pessoas para comunidades terapêuticas e/ou acolhimentos, o que é considerado uma vitória das equipes técnicas formadas por profissionais multidisciplinares. 

“Realizamos também o cadastro de 164 pessoas em situação de rua no Auxílio Emergencial, sendo que 78 já estão recebendo o benefício e conseguimos o aluguel social para outras quatro pessoas”, contabilizou a Secretaria de Estado da Assistência Social.

A Seas esclarece que não cabe ao acolhimento com foco no atendimento emergencial por conta da pandemia averiguar situações judiciais dos acolhidos. Importante ressaltar que, entre as pessoas que passaram nas bases emergenciais, não foi evidenciado problemas de acolhidos com a Justiça.

Rapper se solidariza com desabrigadas


(Foto: Miguel Almeida/Seas)

A cantora de rap, Lucka Brasil, nasceu em Itacoatiara (a 176 quilômetros de Manaus) e conta ter perdido o tempo que chegou na capital. Antes, ela morava com familiares na comunidade Parque Riachuelo, na Zona Oeste da cidade, e após problemas familiares, depressivos e financeiros foi morar nas ruas, mais precisamente nas praças.

Tudo mudou quando soube dos abrigos do Governo do Estado por parte de outras pessoas em situação de rua. Foi quando começou a traçar uma volta por cima a partir do acolhimento na base da Arena Amadeu Teixeira.

Além de ser abrigada, Lucka recebe café da manhã, almoço, lanche e jantar e mais apoio psicológico, psicossocial, mãos amigas e atenção.

A virada de página elevou a estima da cantora, que passou a ser uma espécie de porta-voz de outras mulheres na mesma situação, sendo mais compreensiva. A artista voltou a se apresentar em eventos e atividades recreativas.

No último dia 16, ela se apresentou para a ministra da Mulher, da Família e Direitos Humanos Damares Alves, na própria Arena Amadeu Teixeira, quando, junto com outros advogados, cantou a clássica canção “We Are The World” (“Nós Somos o Mundo”, idealizada e composta por Michael Jackson e Lionel Richie, gravada em 1985 por 45 dos maiores nomes da música norte-americana, no projeto conhecido como USA for Africa).

Além de ouvir a história de vida das demais mulheres, Lucka faz caminhadas, eventos musicais de Rap na Arena e procura ajudá-las a se superar da condição de moradoras de rua. “Eu me identifico com elas porque já fiz um pouco de tudo, inclusive trabalhar como flanelinha na Ponta Negra”, declarou.

Esperando apoio dos poderes públicos, um dos principais sonhos dela é gravar um videoclipe da música “Caixa de Pandora” ao estilo rap. Outro sentimento é continuar a ter acompanhamento por parte do Estado.

Repórter de A Crítica

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