Domingo, 19 de Maio de 2019
Urbanismo

Ação humana provoca alagações ‘fora do normal’ em dias de chuva forte em Manaus

Intervenções nos igarapés, derrubada da mata ciliar, construção de casas nas margens, falta de drenagem eficiente e descaso com o lixo estão entre os fatores que contribuem para o problema



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As fortes chuvas que têm castigado Manaus, sem trégua, desde o fim do ano passado, trouxeram o problema à tona (Márcio Silva - 13/jan/2017)
29/01/2017 às 16:20

As chuvas fortes têm mostrado uma realidade que há algum tempo não se via em Manaus: dezenas de alagações, inclusive em áreas que antes não sofriam esse tipo de problema. Para o poder público, a explicação está no descarte irregular de lixo que causa assoreamento dos igarapés e obstrução do sistema de drenagem. Para especialistas, a justificativa para tal situação vai desde a questão natural até as ações antrópicas aliada à necessidade de uma política pública efetiva. 

Morador da rua 64, no bairro Mutirão, Zona Norte, há 27 anos, o estudante Marcos Pinto, 27, nunca tinha visto a água inundar todas as casas da via como nos últimos tempos. De acordo com ele, há um igarapé que passa por trás, mas antes ele não transbordava tanto como acontece agora. “Quem mora às margens do igarapé sempre ficou preocupado, agora fica todo mundo porque a água sobe quase toda a rua”, disse. 

A aposentada Maria de Fátima Queiroz dos Santos, 61, que mora há 17 anos na rua das Tulipas, bairro Jorge Teixeira, Zona Leste, viveu momentos angustiantes durante a chuva do último dia 22. Ela ficou ilhada dentro da casa por conta da inundação. De acordo com ela, em 2013 foi a primeira vez que a água invadiu sua casa, mas o volume não tinha sido tão intenso como o do domingo passado.

Na avenida Manaus 2000, Distrito Industrial, Zona Sul, os moradores passaram algum tempo livres de inundações por conta das obras feitas no igarapé do 40. Mas, ultimamente, qualquer chuva forte tira o sono dos moradores. “Quando vim morar aqui, há 46 anos, o igarapé tinha água limpa, tomávamos banho nele, mas depois que começaram as construções sobre sua margem, as alagações começaram”, disse o industriário Luiz Pantoja, 53.

A aposentada Maria de Fátima, 61, moradora da rua das Tulipas, bairro Jorge Teixeira, Zona Leste (Fotos: Clóvis Miranda - 23/jan/2017 )

Crescimento desordenado e falta de políticas públicas

A geógrafa Alcirene Maria Cursino, mestre em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia, explica que o problema das inundações e enchentes no espaço urbano relaciona-se, na maioria das vezes, ao crescimento desordenado das cidades. Mas deve-se estender o seu direcionamento a falta de políticas públicas e aos processos educativos em relação às transformações urbanas, sejam elas desenvolvidas pelo poder público ou por particulares, nem sempre é algo intencional.

Para ela, essas políticas devem priorizar a prevenção e abranger o contexto ambiental e ocupacional, pois envolve construção de sistemas eficientes de drenagem, a avaliação das zonas de risco nas proximidades de rios e núcleos residenciais, assim como, a ampliação de programas de sensibilização pública para informar e educar a pessoas quanto ao uso dos recursos naturais disponíveis, descarte e acomodação do lixo gerado nas residências, comércio, indústrias e demais. 

Alcirene salienta que as alagações nem sempre estão ligadas a essas ações antrópicas: calçamento de quintais, pavimentação de ruas sem galerias ou canais de escoamento, despejo do lixo urbano em locais a céu aberto, desvio de leito de igarapés para a construção de obras, desmatamento em geral, mais precisamente os de encostas, entre outros. “Esses fatores é claro que no meio urbano causam e aceleram esses processos. Mas, em algumas situações, é apenas um fenômeno de ocorrência natural”.

A especialista em Engenharia Ambiental aponta que a falta de gestão territorial do uso e ocupação do solo faz com que o ciclo natural seja alterado. “Algumas dessas áreas de inundação são erroneamente ocupadas, não existe um estudo prévio, quanto ao tipo de solo, importância daquele local para o equilíbrio do espaço natural e com isso vem causando inundações que chegam a deixar bairros inteiros embaixo d’água, arrancando casas, soterrando pessoas”, destaca.

Quatro pessoas morreram em dezembro de 2016 após um barranco deslizar sobre a casa onde elas estavam (Foto: Euzivaldo Queiroz - 27/dez/2016)

Plano Diretor poderia efetivar as políticas territoriais adequadas

A despeito dessas questões, ela evidencia que geralmente está relacionado com as políticas públicas para o município, a falta efetiva de um Plano Diretor que possa efetivar as políticas territoriais adequadas e aponte melhor medida a ser aplicada. “Aliado as causas naturais, a elevação do volume do leito dos rios pode ser intensificada por ações como a impermeabilização do solo, resultantes das ações e das atividades humanas”, afirma.

Alcirene disse que é importante ficar claro que essas questões relacionadas às inundações nos bairros periféricos da cidade de Manaus, é algo muito semelhante ao que tem ocorrido em outros centros urbanos do Brasil, que em determinadas vezes ocorre pela manifestação natural, mas, que também pode ser intensificada pela ação humana e pela maneira com que ocorre o processo de uso e ocupação desse solo e da gestão territorial dos diversos espaços geográficos dessa cidade.

“Na verdade, é urgente a necessidade de um conjunto de prevenção para o processo de Gestão Territorial de Uso do Solo Urbano, prevendo suas causas e consequências para a população em um âmbito geral”, salienta.

De acordo com dados da Defesa Civil de Manaus, os bairros que mais sofrem alagamentos por conta de chuva são: Armando Mendes, Flores, Cidade Nova, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Nossa Senhora de Fátima, Parque das Nações, Alfredo Nascimento, Jorge Teixeira e Mutirão, entre outros.

Personagem: José Roselito Carmelo Silva, geógrafo, mestre em Geociências

Roselito é professor e pesquisador do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (Foto: Winnetou Almeida - 14/dez/2016)

José Roselito diz que, atualmente, o maior problema urbano brasileiro nas questões ambientais tem sido alagações. No caso de Manaus, a falta de planejamento adequado tem acelerado esse processo. “Um dos problemas sobre os igarapés é a retirada total da vegetação ciliar, que é uma barreira natural da enxurrada, ajuda a diminuir a velocidade dá água e está infiltrando para o lençol freático”, afirma.

Ele lembra que no lugar constroem ruas paralelas isso aumenta a velocidade da água que não infiltra. A água vai direto para o igarapé. Outra questão, o poder público retifica o canal do igarapé, para ganhar mais velocidade no escoamento, isso acontece, só que o canal está assoreado, entulhado de resíduos e o rio transborda imediatamente. “Não se leva em conta o dinamismo e equilíbrio do ecossistema”.

O pesquisador explica ainda que os igarapés de Manaus transitam entre áreas de vertentes de forma meandrante (sinuoso). As obras de intervenções feitas pelo poder público não levam em conta isso. “Na Europa existem há mais de trinta anos ações que tende a renaturalizar o curso do rio tentando deixá-lo o mais próximo do natural. Aqui é o contrário”, observou.

Obras causam retenção

O engenheiro ambiental Wanderley Gomes, especialista em Desenvolvimento Sustentável, diante dos alagamentos em sequências pelas chuvas de 100 e 60 milímetros na comunidade da Charp e nos conjuntos Nova República, Industriários e Manaus 2000, resolveu fazer medições nas áreas de bueiros e pontes sobre o igarapé do 40  para avaliar a capacidade de vazão de águas. O resultado mostrou que as obras causam grande retenção de vazão provocando as inundações.

“Mesmo sendo considerada uma área de abrangência inferior a real totalidade de escoamento para o igarapé do 40, constatei que os atuais bueiros e pontes com áreas de afunilamentos não tem capacidade de escoamento para precipitações superior a 50 milímetros com duração de duas horas sem que cause inundações nos pontos críticos conhecidos pela população”, aponta o engenheiro.

Engenheiro ambiental diz que muitos bueiros e pontes construídos pelo poder público municipal e estadual causam retenção (Foto: Antônio Menezes)

'Culpa da população'

A Defesa Civil de Manaus alega que o lixo das casas construídas à margem dos igarapés, em alguns casos, é descartado na água causando o assoreamento do igarapé e isso tem gerado muitas ocorrências em áreas que antes não havia esse problema. Outros casos são alagamentos por conta de obstrução no sistema de drenagem, também causado por descarte de lixo e entulho nas ruas, que leva a obstrução dos canais.

Para o órgão, uma das alternativas para solucionar o problema é não construir casas à margem de igarapés e não descartar lixo nesses lugares ou na rua porque em dia de chuva esse resíduo é arrastado para o sistema de drenagem causando obstrução. Em casos em que o morador identificar que o sistema de drenagem de onde ele mora está comprometido, a orientação é acionar equipes da prefeitura pelo 0800 092 0111 – Ouvidoria Municipal.

A Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf) também se refere às ações da população. Conforme a pasta, mesmo com constantes dragagens executadas nos igarapés, o resíduo sólido gerado pelo consumo humano, compõe elementos impactantes para os rios, igarapés e redes de drenagens. Os resíduos se incorporam ao ciclo natural de cada leito causando fluxo de erosões. Por isso é sempre necessário o trabalho de desassoreamento.

A secretaria informou que o processo para desassoreamento de igarapés necessita de autorização do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), pois o mesmo é  responsável pela fiscalização. As ações que a Seminf vem executando atualmente, todas são em caráter emergencial. Os serviços são realizados nos igarapés da avenida Brasil, Fazendinha, rua Palmeira do Miriti, comunidade da Sharp, Passarinho e bairro Novo.

Para o engenheiro ambiental Wanderley Gomes, o desassoreamento de igarapés são feitos de forma inadequadas, pois danificam a mata ciliar e contribuem ainda mais para os problemas de inundações (Foto: Wanderley Gomes - 25/jan/2017)

Estudo aponta:

As causas

1 - Construções municipais e estaduais com estrangulamentos nas áreas para vazões nas pontes e bueiros.

2 - Assoreamento dos igarapés, por obras irregulares e falta de visão do poder publico para reter a dispersão de solos para os igarapés.

3 - Invasão de empreendedores com obras nas APP´s, avanço de invasões de populares para novas moradias.

4 - Prefeitura faz escavações nos igarapés danificando as matas ciliares, contribuindo planificações nos igarapés tipo praias.

5 - Moradias sobre os igarapés, o lixo contribui, mas não é o mal maior.

E as soluções

1 - Aumentar vazão de bueiros em 100 %

2 - Aumentar vazão em baixo de pontes no mínimo 50 % fazer retirada de areias das ruas e avenidas

3 - Manter talvegues (local mais profundo do vale) nos igarapés, fazer dragagem corretamente evitando retrabalhos.

4 - Seguir leis ambientais a novos empreendimentos e banir invasões de politicagem

5 - Retirar moradias sobre igarapés e oferecer casas populares em construções legais.

*Fonte: Wanderley Gomes, engenheiro ambiental


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