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Manaus
PEÇAS INDÍGENAS

Acervo amazônico fazia parte do Museu Nacional do RJ destruído em incêndio

Coleção traz peças de vários povos do Amazonas, como arcos, peças, bancos de madeira e enfeites. Especialistas afirmam que tragédia no local era anunciada 04/09/2018 às 06:28 - Atualizado em 04/09/2018 às 11:23
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Foto: Vinícius Leal
Paulo André Nunes Manaus (AM)

O incêndio ocorrido no Museu Nacional do Rio de Janeiro, no último domingo (2), pode ter destruído um acervo etnográfico amazônico riquíssimo do século 19 que estava nos porões da tradicional instituição. A professora Patricia Melo Sampaio, titular do Departamento de História da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e membro do meio científico nacional, diz que os prejuízos são incalculáveis.

As peças citadas pela historiadora foram coletadas pelo poeta, advogado, jornalista, etnógrafo e teatrólogo brasileiro Gonçalves Dias (1823-1964), que integrava a Comissão Científica de Exploração visando a Exposição Universal realizada em 1861 no Rio de Janeiro (RJ), da qual o Amazonas participou compondo o pavilhão do Brasil.

A coleção é grande e traz peças de vários povos do Amazonas, como arcos, peças, bancos de madeira, produção de enfeites com penas de pássaros, vasilhas, cestarias, cerâmica, cocares, roupas cerimoniais e muitas outras coisas variadas. Após a exposição, o acervo foi parar no Museu Nacional e nunca foi estudado. Consequentemente, não foi recolocado em exposição.

“A destruição desse acervo coletado por Gonçalves Dias, um estudioso e cientista no estudo das línguas indígenas, que nunca foi estudado e nem estava exposto, tem proporções incalculáveis. É uma tragédia não só para o Amazonas e o Brasil, mas para o mundo”, comentou Patricia Melo Sampaio, que trabalha com História Indígena e do Indigenismo e é membro da Associação Brasileira de Antropologia e pesquisadora do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).


Máscara Tikuna citada em obra de Debret era uma das peças ‘amazonense’  do museu (Foto: Divulgação)

Mas as perdas não se resumem à coleção de Gonçalves Dias, elas são muito mais que isso e se estendem à Amazônia, incluindo a cerâmica marajoara, santarenha e miracanguera. Um mapa étnico-histórico da região produzido pelo etnólogo Curt Nimuendajú também pode ter se transformado em cinzas no incêndio de anteontem.

A pesquisadora destaca que é impossível saber, no momento, se todo o acervo amazônico abrigado no museu foi perdido no incêndio, mas tomou conhecimento que “algumas coisas foram possíveis salvar, mas até agora balanço efetivamente perdido não foi feito”.

Tragédia anunciada

Ela frisa que o incêndio foi um “desastre anunciado” e que por várias vezes e vários anos a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) vem demandando a ampliação dos recursos para manutenção do museu. Ela vai além ao dizer que o sinistro “reflete o descaso com o patrimônio nacional, ciência e tecnologia; o incêndio é expressão do desastre que nos aguarda com todos esses retrocessos”. A tragédia sem proporções reflete, também, a inexistência de políticas públicas de preservação do patrimônio artístico, material e documental, diz Patricia Melo Sampaio.

“Dia mais triste da história dos museus no Brasil”, afirma museólogo

O museólogo do Museu Amazônico, Saulo Moreno, disse que o incêndio no Rio de Janeiro configura a situação mais dramática vivenciada na história das ciências e da cultura nacional.

“O Brasil e o mundo viu ruir um patrimônio imensurável em termos de valor e inestimável para as pesquisas, para o conhecimento de nossa sócio e biodiversidade. Primeira instituição científica do País, o museu foi crucial para a inserção das Ciências Naturais entre nós e favoreceu o florescimento da Arqueologia e da Antropologia, dando significativas contribuições à compreensão de nossa formação social e cultural. Os repertórios artísticos, históricos, culturais e científicos que desapareceram em tal tragédia representam uma perda lastimável. A Museologia brasileira, consternada, convoca a sociedade civil a abraçar os museus e os patrimônios, pois eles representam um inequívoco valor para o nosso futuro”.

Três perguntas para Guilhermina Terra, pós-doutora em Museologia

Qual a sua opinião em relação a esse fato, tendo em vista que havia um acervo amazônico no museu ainda a ser estudado e que pode ter sido destruído?

O ocorrido com o Museu Nacional representa uma perda incalculável não só para nós brasileiros, mas também para todos os demais países do mundo, pois a riqueza histórica existente no referido espaço era objeto de estudo para estudiosos do mundo inteiro. Isso implica afirmar que o rico acervo destruído causará danos irreparáveis.

Qual a dimensão desse sinistro para a cultura amazônica e nacional?

A dimensão deste sinistro vai muito do aspecto físico, pois acabamos de perder um grande e rico patrimônio material e imaterial, já que tínhamos lá não só o acervo amazônico, mas também riquezas únicas, como o crânio de Luzia, por exemplo.

O que poderia ter sido feito para evitar?

Em relação ao que se poderia ter sido feito para evitar uma tragédia desta magnitude, acredito que seria um olhar para o campo da museologia de forma digna e correta, pois este incêndio representa o resultado de anos de descaso que este espaço, como tantos outros de igual relevância estão passando. Esperemos que esta tragédia não tenha sido em vão. Que, a partir dela, o “descaso” fique apenas no passado.

Desastre anunciado, diz historiador e ex-secretário de Cultura do AM, Robério Braga

O ex-secretário de Cultura do Amazonas, Robério Braga, publicou um texto sobre o ocorrido no Museu Nacional. Leia na íntegra:

Assisto, olhos fixos no televisor, à destruição de um dos maiores acervos patrimoniais do País e de grande representação mundial: o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro (RJ), em plena Semana da Pátria.

O fogo que dominou todo o edifício de mais de duzentos anos, que continha as mais raras e importantes coleções da museologia brasileira e dos mais variados ramos do estudo científico, histórico, artístico e cultural em sentido amplo, destruiu não só peças irrecuperáveis, documentos inigualáveis, estudos de alto quilate, peças raras e únicas. Avançou sobre a memória do País e de todos os brasileiros, e, em pouco tempo, transformou em cinzas o trabalho centenário de pesquisadores, doutores, operadores da arte e das culturas, de várias outras nações, das nossas origens e da formação da nacionalidade. 

Inacreditável que a Nação não se dê conta do valor desses acervos e os deixem abandonados à própria sorte, sujeitos ao descaso dos que se julgam importantes e só dão importância a seus próprios interesses. O que resta aos apaixonados que lidam e trabalham nesses museus é a luta cotidiana pelas suas preservações, na maioria das vezes de maneira improvisada em razão da falta de recursos financeiros mínimos necessários.

Como explicar que todas as tentativas de modernizar as instalações, as redes elétricas e de segurança e combate a incêndio e pânico do prédio de um dos principais museus da América Latina não tenha tido guarida nas decisões dos burocratas de plantão nos organismos federais, durante tantos anos? Quem vai assumir essas responsabilidades? De que adiantará punir os culpados, se é que chegarão a ser punidos, depois da destruição e da catástrofe? 

Perdas inestimáveis e ao mesmo tempo insubstituíveis, todas elas. O que restar, se algo restar dos escombros do importante edifício do Museu Nacional, estará imprestável e de dificílima possibilidade de restauração e sem condição de reposição. Suas coleções, nacionais e multinacionais e de várias origens e áreas de concentração científica, viraram pó.  

De todo modo, ao que se viu dos depoimentos do vice-diretor do Museu, ao que se conhece do papel desempenhado pela burocracia brasileira e pela forma como a maioria dos gestores enfrenta essas questões, pode-se falar em desastre anunciado, porque não era mais concebível manter em funcionamento sem o suporte técnico-operacional e logístico mínimo adequado, um edifício dessa natureza.

Incorporando-me à dor dos que atuavam nessa instituição de ensino, pesquisa e memória, dou-me conta, mais uma vez, de quão frágeis se transformavam edificações que, por falta de conservação e modernização adequadas, ficam sujeitas a desastres. Em alguns casos ainda há quem, de forma irresponsável, coloque em risco por conta própria e sem a menor preocupação outras edificações históricas e acervos de valor que estão sob sua responsabilidade, unicamente para produzir discurso vazio e falso de popularização e democratização da cultura, como se vê país afora.

Infelizmente, o incêndio do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista destruiu grande parte a alma brasileira.

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