Domingo, 05 de Julho de 2020
EMPATIA

Rede de apoio promove atendimento a mulheres vítimas de violência em Manaus

Projeto Fênix Amazonas já atendeu cerca de 100 mulheres em um ano e meio de atividades



hfdjdshjvjklbzcxj_5DED4BE2-103A-4E45-8353-3BFE166911D4.JPG Foto: Glenda Dinely
03/02/2020 às 19:09

Realizações incríveis podem acontecer quando mulheres se apoiam. O lema move 17 voluntárias, entre psicólogas, advogadas, assistentes sociais e outras profissionais que atuam no Projeto Fênix Amazonas, que há um ano e meio oferece amparo jurídico, psicológico e social a vítimas de violência doméstica em Manaus. A rede de apoio independente já atendeu cerca de 100 mulheres.

O projeto não recebe nenhum tipo de apoio governamental. Sem uma sede fixa, é no apartamento da coordenadora do projeto, Jacqueline Suriadakis, na Zona Centro-Oeste da capital, que são feitas as reuniões com as voluntárias e o acolhimento das mulheres que buscam a ajuda do grupo. Também é comum que ela vá à casa das vítimas mais humildes para acompanhá-las em todo o processo que vai do boletim de ocorrência ao exame de corpo de delito. 



Dentro do projeto, essas vítimas recebem, gratuitamente, acompanhamento jurídico, psicológico e social, e começam a participar de atividades promovidas pelo grupo. “A nossa missão é empoderar essas mulheres para que elas tenham forças para sair de um relacionamento abusivo e deem uma guinada na própria vida. Sinto que em Manaus há uma carência de acolhimento a essas mulheres que sofrem algum tipo de violência”, apontou Jacqueline. 

Perfil

“As mulheres que já atendemos no Projeto Fênix Amazonas, geralmente, são humildes, de baixa escolaridade ou imigrantes, mas, claro, a violência doméstica não escolhe classe social. Recebo pedidos de socorro por telefone ou pelas redes sociais. Já cheguei a atender e orientar vítimas de outras partes do Brasil, como Brasília e Rio de Janeiro. Meu sonho é, um dia, ampliar esse projeto para outras partes do País para que cada vez mais pessoas tenham acesso a esse tipo de assistência”, completou. 

A empatia de Jacqueline Suriadakis por outras mulheres que sofrem agressões dentro de casa aflorou quando ela viveu um relacionamento abusivo. Separada há dois anos, com dois diplomas universitários e cursando um mestrado, ela conta que estender a mão para outras vítimas a ajudou a superar os próprios traumas de ter passado por torturas psicológicas ocasionadas pelo ciúme doentio do ex-marido. 

“Mulheres que conheceram a minha história de superação começaram a me procurar para buscar ajuda. Eu sei como é estar presa numa relação abusiva e não ter forças para sair. A tortura psicológica mina a autoestima da mulher, que se vê sem horizonte e acaba se submetendo a diversas situações humilhantes por acreditar que não é capaz de ter as próprias conquistas. No projeto, ajudamos a desconstruir esse pensamento que elas carregam por meio da psicoterapia e de atividades que trabalhem a autoestima delas, como sessões de cabelo e maquiagem, rodas de conversa’’, explicou.

Vítima se libertou de marido violento

O nome Projeto Fênix Amazonas não poderia ser mais apropriado. A ave fênix, segundo a mitologia, morria em chamas e, então, renascia das próprias cinzas para começar uma vida nova e próspera. Tão poderoso simbolismo reflete bem as mulheres que buscam, por meio do projeto, sair de um ciclo de violência dentro de casa. 

É o caso da operadora de caixa B.D.T (assim a chamaremos nesta reportagem), de 38 anos, que trabalhava numa padaria quando conheceu Jacqueline, que era cliente assídua do estabelecimento. Foi em um desses encontros diários delas que B.T.D conheceu o projeto e criou coragem para reagir às diversas humilhações que ela passava nas mãos do agora ex-marido, com quem foi casada por sete anos. 

“Na frente da minha família o meu ex-marido me tratava como uma princesa, mas em casa ele me batia e me xingava. O estopim para eu conseguir, finalmente, pedir o divórcio foi quando o flagrei com a amante e sofri agressões físicas dele, dela e de uma sobrinha dele no meio da rua. Muita gente testemunhou aquela situação, mas ninguém me estendeu a mão. Foi horrível”, contou.

Ainda muito machucada, B.T.D entrou em contato com a Jacqueline, que foi ao seu encontro para acompanhá-la até a delegacia para fazer o Boletim de Ocorrência. “Está sendo muito gratificante receber todo esse apoio do Projeto Fênix, pois está levantando a minha autoestima. Eu me sinto como se tivesse saído de uma prisão. Eu vivia uma vida baseada no medo. Ele me ameaçava de morte e dizia que se ele me matasse não aconteceria nada, porque ele tinha conhecidos dentro da polícia”,  declarou.

A rotina de violência afetou, inclusive, o filho do casal, de seis anos, que chegou a testemunhar uma das agressões físicas sofridas pela mãe e desenvolveu uma gastrite nervosa. Hoje ele faz acompanhamento psicológico. 

“Com medo de que acontecesse algo mais grave, eu me retraía. Estou há seis meses separada dele. No começo, ele não obedeceu as medidas protetivas e vivia mandando áudios para os meus familiares dizendo que se ele fosse preso, me mataria assim que saísse da prisão. Em muitas oportunidades ele tentou manipular o meu filho para me pedir que eu retirasse a queixa contra ele. Depois de outro Boletim de Ocorrência, ele se afastou. Hoje me sinto livre e motivada a ajudar outras mulheres que estão vivendo a mesma situação”, disse.

Voluntariado

Advogados, psicólogos, assistentes sociais e outros profissionais que desejem contribuir, de alguma forma, com o Projeto Fênix Amazonas, assim como colaboradores e patrocinadores interessados em dar um apoio, podem entrar em contato com a coordenadora do projeto, Jacqueline Suriadakis, pelo Instagram, pela página do projeto no Facebook ou pelo Whatsapp, (92) 99149-6259.

‘’As pessoas podem entrar em contato com a gente para saber da programação do projeto e, dessa forma, vê a sua disponibilidade de tempo. No momento, temos um grupo grande de mulheres voluntárias, contudo, homens também podem se voluntariar, já que temos situação de violência em relacionamentos homoafetivos também. O projeto está aí para abraçar a todos’’, ressaltou Suriadakis.

News guilherme 1674 2977771b 6b49 41af 859a ef3c3b62eae8
Repórter do caderno Cidades do jornal A Crítica. Jornalista por formação acadêmica. Já foi revisor de texto de A Crítica por quatro anos e atuou como repórter em diversas assessorias de imprensa e publicações independentes. Também é licenciado em Letras (Língua e Literatura Portuguesa) pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.