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Manaus
DENÚNCIA

Água barrenta provoca diarréia e vômito em Atalaia do Norte, denunciam moradores

Há relatos do aumento das doenças pelo consumo impróprio, já que a água mineral chega a custar R$ 12 na cidade. Cosama afirma que abriu sindicância para apurar desvio de materiais 31/01/2019 às 08:51 - Atualizado em 01/02/2019 às 09:24
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Água escura vem sendo drenada sem tratamento em Atalaia. Foto: Divulgação
Oswaldo Neto Manaus (AM)

O ano de 2019 começou sem o fornecimento de um dos serviços básicos para os mais de 19 mil habitantes do município de Atalaia do Norte, a 1.138 quilômetros de Manaus. Desde o ano passado, a população da cidade tem recebido em suas casas uma água barrenta e sem qualquer tipo de tratamento. Há relatos do aumento de casos como diarreia, vômito e coceira devido ao consumo impróprio, já que a água mineral chega a custar R$ 12. 

A situação piorou com o período de cheia do rio Javari. Retirada diretamente dele, a água em Atalaia não só vem sendo repassada com uma cor escura, mas sem qualquer tipo de filtragem ou trato com substâncias químicas. O motivo, segundo a Prefeitura de Atalaia, seria a falta de uma autorização da Companhia de Saneamento do Amazonas (Cosama) em Manaus para que uma gerência de Benjamin Constant liberasse os produtos. Entretanto, tanto os moradores quanto a Cosama afirmam que o fornecimento e a garantia da qualidade da água é exclusivamente do município.

Para tentar sobreviver, os moradores procuram beber água mineral e fazer um tratamento caseiro com cloro para água de banho, alimentos, e outras atividades. A assistente social Márcia Jerusa, de 32 anos, conta que praticamente todos os habitantes recebem a mesma água suja. “Ela cai de forma bruta como se viesse do açude. A justificativa é que não há produto químico porque vem de longe, mas a pergunta é: se não tem produto químico, como tinha antes? Isso é falta de planejamento e descaso com a população”, afirmou.

Márcia conta que trabalha em uma Casa de Saúde Indígena (Casai). No local, ela afirma ter uma noção dos impactos na saúde dos atalaienses. “As consequências são as mais drásticas. Crianças e idosos vem sofrendo com coceira, diarreia, vômito e outras coisas. Quando o caso necessita de medicação e internação, nós encaminhamos pro Hospital São Sebastião, mas acontece que até o hospital é abastecido pela água suja”, disse ela.

Medidas

Denúncias pontuais sobre as condições de abastecimento já foram encaminhadas ao Ministério Público do Estado (MPE) sobre o caso em Atalaia, mas até o momento, segundo os moradores, nenhuma resposta foi dada. A ação mais recente é um abaixo assinado que busca recolher ao menos 100 assinaturas para ser protocolada no órgão.

De acordo com outro morador, Irison Neves, 42, além dos problemas com a água, ele pontua que a população de Atalaia ainda não se mobilizou de forma coletiva pelo fato de muitas pessoas terem parentes que trabalham para a prefeitura. O medo é de sofrer represálias.

“Água não é um problema individual, mas sim uma situação que está afetando todo mundo da cidade. E minha intenção não é apenas mostrar isso, mas sim um conjunto de irregularidades que vai desde a iluminação até remédios nos postos de saúde. Atalaia está um verdadeiro Deus nos acuda”, disse Irison, afirmando que o documento deve começar a circular a partir de hoje.

O transtorno com a água virou um problema discutido em campo político. O vereador Professor Lori (PSD), oposição ao prefeito Nonato Tenazor (PDT), disse que não há qualquer sinalização do Poder Municipal para resolver a questão. “Ninguém consegue contato com o prefeito. Ele vive escondido. É uma falta de responsabilidade da administração, e o custo para resolver isso não é tão alto assim”, declarou.

Lori disse ainda que um grupo de vereadores deve se reunir com um agente da companhia de água no local. A intenção é pensar em uma solução para minimizar o problema da água fornecida do rio Javari. “É um crime o que estão fazendo com a população”.

Cosama diz que prefeitura não efetuava pagamento

A Companhia de Saneamento do Amazonas (Cosama) informou que a compra do material necessário para o tratamento da água é de responsabilidade da prefeitura de Atalaia do Norte. A empresa disse ainda que está apurando como era feito o desvio de materiais entre Benjamin Constant e Atalaia do Norte, visto que a empresa não possui responsabilidade com o município. A companhia diz que várias irregularidades têm sido encontradas por meio de visitas aos 12 locais atendidos pela Cosama. 

“A prefeitura de Atalaia do Norte recebia anteriormente os produtos sem autorização e sem efetuar o devido pagamento. O caso está sendo investigado por meio de uma sindicância que está apurando como era feito o desvio de materiais de Benjamin Constant para Atalaia do Norte”, disse a Cosama. 

A empresa pontuou ainda que, para adquirir o produto de forma legal, é necessário que a Prefeitura de Atalaia do Norte envie uma solicitação de compra do produto para Cosama ou que realize um processo de licitação com empresas que ofereçam o material

“A Cosama não está se eximindo de colaborar para a melhoria da água de Atalaia do Norte, desde que a parceria seja feita de forma legal”. 

Prefeitura diz que tomará providências

O prefeito de Atalaia do Norte, Nonato Tenazor, disse nessa quarta-feira (30) ao A Crítica que a prefeitura estava buscando soluções para o impasse. “Estamos tomando todas as providências no sentido de melhorar a água”, declarou.

O prefeito explicou que a autorização para o repasse dos produtos químicos usados na água deve vir de um escritório da Cosama em Manaus. Da capital, uma gerência em Benjamin Constant envia o material para Atalaia, e somente depois desse procedimento a água é tratada. “Reiteramos o ofício. Estamos tentando esse contato e contando com a sensibilidade do novo gerente da Cosama para a entrega do produto”, justificou o prefeito.

Sobre a água fornecida ter aspecto de contaminação, Tenazor disse que somente a secretaria de Meio Ambiente do município poderia falar sobre o assunto. A reportagem tentou contato por telefone, mas não obteve sucesso.

O prefeito de Atalaia do Norte foi procurado nesta quinta-feira (31) para comentar sobre a falta de autorização e a ausência de pagamentos dos produtos apontados pela Cosama, mas as ligações não foram atendidas. 

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