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Manaus
ÚLTIMO SUSPIRO

Águas da bacia hidrográfica Tarumã-Açu sofrem com poluição 'sem freio' em Manaus

Urbanização desenfreada e falta de conscientização são fatores que comprometem ainda mais o curso d’água que corre entre o trecho do igarapé-Acará até a ponte do Tarumã 24/09/2018 às 16:05
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Poluição está associada também a falta de cobertura (Foto: Junio Matos/Freelancer)
Cecília Siqueira Manaus (AM)

Em meio ao mau cheiro, lixo urbano e espumas tóxicas ele dá seus últimos suspiros. É nesse clima fúnebre que as águas da maior bacia hidrográfica dentro da área urbana de Manaus, a Tarumã-Açu, correm entre o trecho do igarapé Acará até a ponte do Tarumã, situada na estrada da Vivenda Verde, na Zona Oeste da capital.

A formação de espuma no igarapé aponta que  água não está tendo a quantidade necessária de oxigênio para decompor substâncias orgânicas. É o que diz o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam). Segundo o órgão, esse fenômeno ocorre por causa dos agentes químicos como detergentes, sabões em pó e sabão, que inibem as bactérias responsáveis pela biodegradação.

Com uma extensão  de 37.612 quilômetros, o Tarumã-Açu vem sofrendo desde o final dos anos 60, com a implantação da Zona Franca na capital amazonense e urbanização desenfreada. O manancial, que inicia no quilômetro 40 da BR-174 e desemboca no lado esquerdo do Rio Negro, está morrendo por etapas.

O pesquisador da área de recursos hídricos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Sávio Filgueira, conta que as características atuais do rio já saem  de uma de suas nascentes com alto nível de poluição.  “Como o Tarumã recebe afluentes que vêm da Zona Norte de Manaus, como o igarapé da Bolívia, que drena uma parte dos bairros Nova Cidade e Cidade de Deus, além de outros, ou seja, ele já sai da Reserva com a qualidade alterada e carga elevada de material orgânico. A gente percebe que à noite, por falta de luz, não há fotossíntese, por isso o mau cheiro”, explica.

 Falta conscientização

 O pesquisador do Inpa expõe um grave problema socioambiental, onde são alinhavados o elevado nível de poluição por conta da urbanização desenfreada, desfalque da cobertura vegetal, falta de saneamento básico, além da falta de conscientização da própria população que mora nas proximidades dos igarapés.

“Até o conjunto Viver Melhor, as águas não são comprometidas. Mas a partir daí, o igarapé Acará  é impactado e só piora, porque recebe outros afluentes, como o Matrinxã, que drena o aterro sanitário. Isso só vai potencializando porque os moradores das proximidades, desses bairros, não têm tratamento de esgoto, jogam lixo diretamente nas águas. O igarapé corre direto para o rio”, enfatizou.

O vendedor de coco, Nelson da Silva, 55, que montou recentemente uma barraca bem próximo ao igarapé, acredita que a culpa é de fábricas instaladas na Zona Norte. Ele relata que também mora na área desde a infância e comenta que chegou a frequentar os banhos das proximidades.

Fauna e fora estão ameaçadas

Quando um rio está morto, os peixes morrem, a fauna e flora às suas margens também rapidamente são afetados.   Conforme relatório elaborado em 2017 pelo grupo de pesquisa Recursos Hídricos da Amazônia (Rhania), a constante contaminação por dejetos causou a morte dos igarapés Acará, Matrinxã, Sabiá e Bolívia.

O documento atesta que as águas desses cursos hídricos já estavam impróprias para consumo e banho desde 2005. O grupo enumera as causas da poluição e a extração de brita e blocos de pedra de fábricas instaladas nas proximidades dos rios. “Têm fábricas na Torquato Tapajós que jogam alguma química forte, fora os invasores de área protegidas, que jogam lixo no igarapé. Acho que isso que foi destruindo”, lamenta  Nelson Silva.

População

Para o comerciante James de Souza, 38, o descaso é um problema causados pela sociedade. “O Poder Público deveria ter visto isso enquanto estava começando a ficar assim. Assim como a todos somos culpados por isso. Não é questão só de esgoto de fábrica, mas também de residências e falta de consciência das pessoas”.

37.612 KM

É extensão total do rio Tarumã-Açu, que inicia no quilômetro 40 da BR-174 e desemboca no lado esquerdo do rio Negro. Mas a poluição ameaça o manancial.

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