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Manaus
CASO SUSPEITO

Criança deficiente visual e com paralisia tem clavícula quebrada em escola de Manaus

Pequena Iaely, de 5 anos, sofreu hematomas e quebrou osso na aula de Educação Física de uma escola de deficientes visuais. Ninguém sabe o motivo, 30/03/2017 às 15:07 - Atualizado em 30/03/2017 às 17:13
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Foto: Euzivaldo Queiroz
Vinicius Leal Manaus (AM)

Até agora é uma dúvida para os pais e familiares da pequena Iaely Maria Fernades Santarém, de apenas 5 anos, sobre o que realmente aconteceu com ela dentro do colégio onde estuda, a Escola Estadual Joana Rodrigues Vieira, no bairro Glória, Zona Oeste de Manaus, que é especializada em deficientes visuais. A menina, deficiente visual e também com paralisia cerebral, teve a clavícula quebrada e sofreu ferimentos durante uma aula de Educação Física.

Tudo aconteceu na última segunda-feira (27). “Não sabemos o que houve de verdade. Até agora deram várias versões. O que eu sei é que minha filha está com a clavícula quebrada e ficou com hematomas após a aula de Educação Física”, explicou a mãe, a artesã Iamily Oliveira Fernandes, de 38 anos. A menina está em tratamento. “Ela está em casa, imobilizada e enfaixada. Quando se mexe ela chora de dor. Se não tiver jeito, o médico disse que vai ter que operar. Mas o que mais me revolta é não ter resposta”, disse.


Iaely em repouso em casa (Foto: Euzivaldo Queiroz)

Segundo a mãe, na manhã daquele dia ela levou a filha para a escola e ficou esperando como faz a maioria dos pais. “Eu cheguei, a deixei na sala da professora e esperei no salão. Quando deu umas 9h30 mais ou menos a professora passou para o primeiro andar para fazer Educação Física. Meia hora depois outra professora desceu com ela no colo, chorando. Ela não anda muito bem, mas ela caminha. E sempre ela vem andando da aula de Educação Física. Peguei ela no colo e sentei para dar comida”, disse.

Sem poder falar devido a paralisia, a menina não parava de choramingar de dor. “Ela estava comendo e chorando. Eu estranhei porque ela não fala e só escorre lágrimas dela quando ela está sentindo muita dor. Eu conheço os comandos dela”, disse a mãe. “Depois a professora de Educação Física desceu e ficou na outra mesa. Eu fui perguntar dela o que tinha ocorrido e ela me disse que minha filha tinha caído de bunda, que estava com ela e os outros alunos, passando a bola, e ela caiu. Mas ela não segura bola!”

Após o lanche, a pequena Iaely deveria retornar para a sala de aula, mas não aguentava de dor. “Ela ia voltar para sala, mas continuou chorando. Então fomos para casa. Ela continuou chorando em casa e dormiu. Quando ela acordou chorou mais. Dormiu chorando e acordou chorando. Aí eu fui olhar no corpo dela e vi hematomas nos dois joelhos e na parte esquerda da bacia. Pensei que fosse só da queda de bunda como disse a professora. Bati foto e mandei para a assistente social. Ela disse para eu esperar”, falou a mãe.


Raio-X da clavícula quebrada (Foto: Divulgação)

Clavícula quebrada

Naquela noite de segunda-feira, Iaely não conseguiu dormir. “Ela só pegou no sono de manhã no outro dia, terça. Eu a coloquei deitada, mas ela não se mexia, como se estivesse imobilizada. Estranhei e quis virar ela de lado. Quando peguei no ombro dela, para virar, ela se esperneou e chorou mais forte. Deu até um gritinho. Dei remédio para dor, mas ela continuou chorando e a levei no hospital”, disse a artesã Iamily.

Em consulta com um médico ortopedista, a mãe não acreditou no que ouviu. “O ortopedista mandou fazer raio-X e constatou a quebra da clavícula. Foi um choque. Quando vi o raio-X eu não acreditava. Tudo aquilo porque ela caiu de bunda? Mas o médico disse que foi um baque muito forte e que esse osso não quebra tão fácil assim. Mas até agora estou sem resposta, sem saber a causa”, disse a mãe.

Resposta da escola

Segundo a mãe, após o ocorrido. Uma equipe formada pela diretora da escola, coordenadora da Secretaria de Estado de Educação (Seduc), psicóloga e assistente social foram à casa dela. “Mas a professora de Educação Física não veio aqui se esclarecer. Eles deram várias versões. A primeira que elas estavam fazendo atividade e as duas caíram. Depois a outra que a professora estava de lado e escorregou nela. Mas não sabemos”, explicou a mãe. “Eu acredito que uma queda de bunda não aconteceria isso”.


Ensino na escola Joana Rodrigues (Foto: Divulgação)

A Seduc confirmou que a criança caiu na Educação Física. “A criança estava realizando a atividade de lateralidade, um exercício para desenvolver o senso de direção em crianças com deficiência visual. No exercício a menina se desequilibrou, tombou para o lado e deitou sobre o braço. Nesse momento (a criança) começou a chorar e a professora a carregou e verificou se havia algum machucado aparente, o que não foi observado no momento”, divulgou a Seduc por meio de nota.

O órgão afirmou ainda que prestou os atendimentos necessários e que está investigando o caso. “Em seguida, (a professora) levou a criança imediatamente ao encontro da mãe. Jamais uma professora da rede estadual agrediria um aluno. No momento do acidente todas as providências necessárias foram tomadas pela professora e pela direção da escola”, afirmou a pasta. “A Coordenadoria Educacional Distrital 4 apurou o caso, colheu depoimentos das professoras e demais servidores sobre o ocorrido”.

Terceira vez

Iaely estuda desde os 6 meses de idade com outros alunos deficientes visuais na Escola Estadual Joana Rodrigues Vieira, na Glória. Ela não é acompanhada por cuidadora no colégio e há cerca de dois anos começou a participar das aulas de Educação Física. “Antes ela ficava sozinha com uma professora e depois começou a ter aula com outras crianças”, disse a mãe Iamily.


Crianças brincando na escola (Foto: Divulgação)

A artesã afirma que não tem o que reclamar do colégio. “Não tenho o que falar das professoras. Elas sempre trataram minha filha com carinho e sempre me trararam bem. Mas com a professora de Educação Física já tinha ocorrido outros dois fatos que me deixaram alerta e chateada, os dois ano passado”, falou.

“Primeiro me chamaram dizendo que a boca dela estava sangrando. A professora de Educação Física me perguntou se ela (Iaely) estava com o dente mole. Quando abri a boca dela o dente tinha virado e ela chorando. Da segunda vez ela estava no pula-pula com os outros alunos deficientes visuais. Mas como não ela não tem coordenação, ela não sabe pular e fica sentada, deitada, e as outras crianças pulando. Eu cheguei perto e disse que ia tirar a minha filha de lá. Aí a professora disse que ela (Iaely) tem que aprender a se defender”.

Redes sociais

A tia de Iaely, a também artesã Lílian Fernandes, 41, fez uma postagem nas redes sociais pedindo respostas da escola e da Seduc. A publicação ganhou grande repercussão. “Eu fiquei tão desesperada. Tu entrega um filho para uma escola, um filho que é especial, que não enxerga e não anda direito, e pega ele com uma clavícula quebrada e hematomas? Eu não queria ficar calada. Eu não quero acusar, mas eu sou mãe também. Nós não sabemos o que aconteceu”, falou a tia, Lílian. “Teve gente que falou que a gente forjou, defendendo a escola, mas a maioria quer saber a verdade também”.

Segundo a tia, a pequena Iaely é muito querida e cuidada por toda família. “A família toda a trata com muito esmero. Ela é quase 100% incapaz e precisa de mãos, pernas, braços e olhos de outras pessoas. Ela está reagindo bem. Ela nasceu prematura e já é uma vitoriosa por estar viva”, explicou. Iaely vive com a mãe e a irmã de 17 anos em uma casa no bairro Tarumã, na Zona Oeste. O pai, Anderson Santarém de Souza, 39, também acompanha o caso da filha.

Caso de polícia

A mãe de Iaely registrou um boletim de ocorrência por lesão corporal na Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca) e levou a menina para fazer exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal (IML). O caso já está sendo investigado pela Polícia Civil do Amazonas.

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