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Manaus
DENÚNCIA

Alunas de Jornalismo da Ufam denunciam casos de assédios envolvendo professor

O docente teria "cheirado", contado momentos íntimos, tocado nas mãos e até chamado de "meu bem" as acadêmicas. A Ufam informou que está apurando o caso 28/09/2018 às 18:27 - Atualizado em 28/09/2018 às 20:31
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As estudantes espalharam cartazes na universidade com frases contra o assédio sexual (Foto: Euzivaldo Queiroz)
Amanda Guimarães* Manaus (AM)

Alunas do curso de Jornalismo da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC) da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) denunciaram casos de assédio sexual envolvendo um professor substituto.  A carta de repúdio com os relatos de quatro estudantes foram encaminhados para a Ouvidoria e o caso está sendo investigado pela universidade. O docente teria "cheirado", contado momentos íntimos, tocado nas mãos e até chamado de "meu bem" uma das acadêmicas. 

No documento com as denúncias, que o Portal A Crítica teve acesso nesta semana, os alunos e alunas da instituição comentam que durante o primeiro período do curso, o professor substituto ministrava as aulas e já se "tornava perceptível seu comportamento inapropriado e irresponsável dentro e, até mesmo, fora de sala". O docente, segundo os estudantes, teria pedido que a turma criasse um grupo no WhatsApp.

Os estudantes narram na carta de repúdio que após ter o número das alunas ao alcance, "conversas inadequadas foram surgindo por parte do professor no WhatsApp e na sala de aula os comentários e exemplos somente foram escalando para assédios cada vez mais notáveis".

Assédio por mensagens

Em um dos casos, que consta no relato de uma aluna, o professor teria falado em sala aos alunos que a relação deles na universidade seria diferente da relação de fora.

"Desde o começo do primeiro período, o professor possui atitudes inapropriadas e faz comentários desnecessários em relação às alunas. Certo dia, após ele já ter dito em sala aos alunos que ‘nossa relação aqui é diferente da relação lá fora’, ele deu um exemplo que, em minha opinião, é totalmente inapropriado. Ele fez a seguinte suposição em relação a mim: ‘e se aqui dentro eu e ela fôssemos professor e aluna, mas lá fora fôssemos namorados’”, aponta a estudante, no documento protocolado na instituição.

A aluna também conta que não queria ver a malícia nas ações do professor, mas que os casos de assédio só foram piorando com o passar dos dias. Em uma ocasião, a denunciante relata que avisou para o docente que iria sair mais cedo da aula, e ele teria pedido para mandar um "oi" no aplicativo de mensagens. Ela afirma que mesmo com todos os olhares incômodos e desconfortáveis, mesmo sentindo que ele estava a encarando, decidiu mandar a mensagem.

Pelo aplicativo, o professor começou a elogiar a aluna e chegou a chamá-la de "meu bem". Neste momento, a aluna descreve no documento, que ele já tinha ultrapassado todos os limites aluno/professor ao falar de algo íntimo e pessoal.

Assédio físico

Um outra aluna também conta no documento que durante o primeiro período se sentiu desconfortável com as atitudes do professor. "Houve vezes em que ele fez contato físico comigo ao passar as mãos nas minhas (mãos) por um tempo muito extenso, mesmo com a minha clara recusa. E ainda houve um momento em que este dirigiu mensagens a mim pedindo para nos encontrarmos após eu ter pedido informações sobre as minhas notas durante as férias", conta.

Outra estudante descreve, no documento, que o professor começou a fazer elogios, tais como "esforçada", "atenciosa", "inteligente", o que a deixou desconfortável. "Na mesma ocasião, o docente citou para a aluna um momento íntimo da sua vida e afirmou que ela lembrava a ex-namorada".

“Por perceber minha cara de espanto e desconforto, ele prosseguiu sua intimidação afirmando que ‘eram só lembranças boas’ acerca da moça referida. Encerrei nossa conversa e não terminei de tirar as dúvidas necessárias, pois me senti coagida por ele. Muito me espanta que os alunos ainda estavam presentes na sala de aula, além de existirem alguns perto de mim, isso não o fez repensar suas ações. Não que eu devesse estar sozinha para que ele pudesse me assediar, mas ele não respeita suas alunas em momento nenhum”, relatou a estudante.

Uma quarta aluna comentou que durante uma aula aplicada pelo professor, teve dúvidas a respeito de uma atividade e pediu ajuda do docente. O caso de assédio teria acontecido, o que provocou a revolta da estudante.

“Enquanto me explicava sobre tal atividade, ele estava abaixado no chão ao meu lado, se aproximou, me cheirou, elogiou meu perfume e perguntou qual eu usava, pois ele tinha ‘gostado muito do cheiro que eu tinha’. Me senti extremamente desconfortável e envergonhada”, completou.

Cartazes

Em forma de protesto, as alunas espalharam cartazes contra os casos de assédio próximo ao Bloco Mário Ypiranga, na Ufam, e até em uma sala de aula. Nos papéis constam frases como, “Assediador só nos respeitará quando for punido. Justiça”, “A culpa não é nossa! Queremos Justiça”, “Dar em cima de alunas não é normal. É crime”, entre outras.

Ufam investiga

Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) informou que tomou conhecimento do caso por meio de uma denúncia anônima registrada no sistema de Ouvidoria. Depois, segundo a instituição, a mãe de uma das alunas entregou um abaixo-assinado dos discentes do curso sobre o caso, no qual anexaram, documentos e prints de WhatApp.

A Ufam destacou que foi instituída uma comissão isenta para averiguação dos casos. Segundo a universidade, a ouvidoria encaminhou a manifestação em questão ao Diretor da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC), que, no caso em exame, é a autoridade competente para apuração dos fatos ocorridos, conforme estabelece o art. 124 do Regimento Geral da Ufam.

Questionada se a Ufam tomará alguma medida contra o professor, a assessoria de imprensa destacou que todos os procedimentos legais previstos na legislação estão em andamento.

A universidade destacou que primeiro haverá uma investigação interna, depois abertura de sindicância, e posteriormente um Processo Administrativo Disciplinar (PAD), com direito ao contraditório e ampla defesa do professor. A Ufam ainda completou que a formalização da denúncia foi de iniciativa da universidade, após tomar ciência do caso em conversa com os alunos.

Professor se defende

A defesa do professor enviou o posicionamento do docente por meio de nota. Segundo ele, “posso afirmar categoricamente que, em nenhum momento, pretendi realizar qualquer ato com o intuito de coagir, ofender ou assediar qualquer pessoa, assim sequer recordo da ocorrência dos eventos contra mim imputados, pois, ainda que supostamente tenham ocorrido, tenho certeza de que tudo se trata de um mal entendido ou uma interpretação infeliz”.

O professor afirma ter a consciência limpa. “Pois quem me conhece pessoalmente e profissionalmente sabe da minha idoneidade e integridade moral, bem como sabe do meu compromisso e seriedade com o magistério; uma vez que nunca tinham sido imputadas contra mim acusações desta ou de qualquer natureza em todos esses aproximados 20 anos de sala de aula”, afirmou o docente, que diz ainda ter apresentado à Ufam seu posicionamento perante as denúncias.

Ele finaliza destacando que, ao longo dos aproximados 20 anos de magistério, pautou sua conduta pela retidão e preocupação com o bem-estar dos seus alunos. “Assim, lamento como fui interpretado e sigo com uma pontada de decepção por exporem a minha imagem de forma irresponsável, antes da finalização do processo administrativo que tramita na instituição ou do início de processo penal”.

*Os nomes das denunciantes não foram divulgados para preservá-las. Já o nome do professor acusado não foi mencionado por se tratar de denúncias na esfera administrativa e não criminal.

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