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Manaus
TRAGÉDIAS

Amazonas tem mais de 130 mil pessoas vivendo em áreas de risco, diz IBGE

No total, 29.679 residências ficam em locais com risco de inundações, desabamentos e enxurradas. Manaus, Borba e Parintins são as cidades com maior quantidade de casos 05/07/2018 às 07:06 - Atualizado em 05/07/2018 às 09:14
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Foto: Márcio Silva/Arquivo AC
Izabel Guedes Manaus (AM)

Quase um ano depois da tragédia que vitimou dois irmãos no bairro Nossa Senhora de Fátima 2,  na Zona Norte de Manaus, os moradores do local ainda esperam uma solução do poder público e temem outros desabamentos na área. Eles fazem parte das mais de 130 mil pessoas vivendo em áreas de risco no Estado, segundo dados recentes divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Em todo o Estado, quase 30 mil residências estão localizadas nesses locais, conforme os dados. Manaus lidera o número de casos, com 13.782 casas nessas áreas e 55 mil pessoas vivendo expostas à situação.

O levantamento do IBGE tem com objetivo gerar informações para iniciativas que visam reduzir o número mortes e prejuízos materiais relacionados a desastres naturais em todo o País.

Números

Foi a primeira vez que o IBGE  trouxe a público dados referentes a situação da população em área de risco no Brasil. O levantamento apontou que em todo o Estado há 134 mil famílias vivendo nessas condições. No total 29.679 residências ficam em locais com risco de inundações, desabamentos e enxurradas.

Após a capital, Borba fica em segundo lugar, com 2.691 casas localizadas nesses pontos e 11.289 pessoas prejudicadas. O terceiro colocado é Parintins com 1.157 domicílios em risco e 5.152 pessoas afetadas. Foram analisadas moradias de 51 municípios do Estado. 
 
Os números foram levantados no Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), a fim de desenvolver uma proposta metodológica pautada na criação de um novo recorte espacial que auxiliará na gestão de riscos a desastres naturais. A Base Territorial Estatística de áreas de risco (Bater) foi gerada a partir da associação dos dados sociodemográficos, Censo 2010, às áreas de risco de inundações, enxurradas e movimentos de massa.

Outro mapeamento

Em Manaus, um mapeamento divulgado no ano passado pela Defesa Civil do município apontou existirem 734 zonas de risco na cidade. No total, hoje, segundo o órgão, há 28.668 residências nesses locais (número maior que o do IBGE), boa parte delas nas zonas Norte e Leste.

Esse ano, conforme informações divulgadas pela Defesa Civil municipal, já foram iniciadas as ações de mapeamento, em parceria com o Serviço Geológico do Brasil (antigo CPRM). O objetivo, segundo o secretário executivo de Proteção e Defesa Civil, Cláudio Belém, é trabalhar a prevenção e evitar problemas.

“Nos preocupamos muito com o período de chuva,quando há maiores riscos de desabamento e deslizamentos. E em cima  disso estamos trabalhando esse mapeamento para que a gente possa fazer um planejamento para atuar nesses pontos e futuramente fazer uma revitalização dessas áreas e a retirada das residências quando for necessário”, disse.

Sem prevenção

Na capital, ações de prevenção poderiam ter evitado a morte de Sara Barros de Souza, 19, e Ismael Barros de Souza, 17, que morreram durante um soterramento na manhã do dia 22 de setembro do ano passado. O incidente aconteceu após o barranco, que ficava nos fundos da residência deles, desmoronar em decorrência de uma forte chuva na madrugada daquele dia. 

Hoje, a área onde ficava a casa que foi soterrada está tomada pelo mato e guarda a triste lembrança da tragédia para os vizinhos e a mãe do casal de irmãos, a dona de casa Edmara Rodrigues Barros, 38, que mora com o esposo e a filha de seis anos em um quitinete nas proximidades da antiga moradia. 

O quitinete é pago com o dinheiro do auxilio aluguel de R$ 300 dado pela prefeitura de Manaus. “O valor mal dá para pagar o apartamento onde vivemos. A sorte é que a dona deixou a gente ficar por esse valor. Quando aconteceu o acidente, veio um monte de gente aqui. Fomos cadastrados para receber uma casa, mas existe uma fila, né? Só nos resta esperar por uma moradia digna. Tanto para mim como para quem vive aqui nessas condições e teme o pior como aconteceu comigo”, relembra.


No bairro, há várias casas nas mesmas condições da de Edmara Barros. Foto: Junio Matos

Na rua do desmoronamento, muitos moradores convivem com o medo, principalmente em dias de chuva. A diarista Raimunda Rizonete, 49, mora em uma casa com mais cinco pessoas e quando chove forte vai para a área externa da residência com as crianças até passar o temporal.

“Quando chove aqui fica horrível. Eu nem tenho porta no quarto porque tenho medo de morrer. Se tiver muito forte mesmo, eu nem durmo, pego os meninos e saio de casa. Ninguém vê nossa situação. Só veio alguém aqui quando aconteceu a morte dos meninos. Até hoje nunca mais ninguém apareceu. Eu só moro aqui porque não tenho para onde ir”, conta.

Tarefa das defesas municipais

Sobre os dados, a Defesa Civil do Estado esclareceu que, de acordo com as normas e legislações da Defesa Civil, compete às Defesas Civis municipais as atribuições de monitorar, mapear e catalogar as áreas de risco do município, além da elaboração do Plano Diretor, que define as áreas de risco, seja por conta de eventos naturais (enchente, estiagem, desbarrancaento, queimadas, inundações bruscas,  etc) ou tecnológicos. São elas responsáveis ainda pelo Plano de Contingência para o caso de um desastre.

A Defesa Civil estadual informou que apoia o município (quando solicitado) com orientações técnicas, que subsidiem um levantamento preciso dessas localidades. O órgão acompanha por meio do Centro de Monitoramento e Alerta (Cemoa) possíveis eventos que possam atingir essas áreas, mas em nível macro, ou seja, em toda a região.

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