Domingo, 17 de Novembro de 2019
É JUNHO!

Amazonense conta como eram as festas juninas na década de 40 e 60, em Manaus

Aos 82 anos e com muita história para contar, Maria de Nazaré Spencer guarda, com saudades, as lembranças de um tempo áureo do folclore amazonense



JUNINA_VALENDO01.jpg Moradora da rua Frei José dos Inocentes, Maria é apaixonada pelos festejos. Foto: Euzivaldo Queiroz
18/06/2017 às 14:21

Antigamente as festas juninas eram bem diferentes de hoje em dia, com mais ruas enfeitadas, colorido na vestimenta das pessoas, bebidas que pouco se vê atualmente - como o forte e marcante aluá, extraído da casca do abacaxi deixada para “envelhecer”-  e aquele cheirinho no ar característico de uma das melhores épocas do ano, entre outras coisas. Quem viveu muito bem essa época do folclore amazonense foi Maria de Nazaré Spencer, a ‘Tia Nazinha’, que aos 82 anos de idade, guarda consigo as lembranças de um tempo marcante.

Na base de uma lucidez que a faz votar no tempo, essa tradicional moradora da rua Frei José dos Inocentes, no Centro Histórico de Manaus, conta sentir saudades dos folguedos de antigamente.



“Sinto saudades das festas juninas de antigamente. Não havia asfalto aqui na Frei José dos Inocentes. Eram paralelepípedos. Fazíamos as festas e as fogueiras com tacacá, bolo podre, banana frita... Nossa vida era outra aqui no patrimônio histórico”, diz “Nêga Naza de Pé no Chão”, como a própria gosta de frisar nas suas entrevistas.

O Boi-bumbá Dois de Espada e as “quadrilhas de pobre” eram originários da própria Frei José dos Inocentes, mas os antigos arraiais naquela área do Centro -, uma rua de trabalhadores como pescadores, remanescentes da época áurea da borracha, ou que produziam da lenha ao barro e pedra - também recebiam outras entidades folclóricas como o bumbá Corre Campo (até hoje disputando o Festival Folclórico do Amazonas que até hoje é realizado no mesmo local: a Praça Francisco Pereira da Silva, antiga Bola da Suframa, no que atualmente é o Centro Cultural Povos da Amazônia (CCPA).

Os dias santos juninos sempre eram marcados por grandes celebrações. Para Santo Antônio, em 13 de junho, uma procissão era mais do que essencial para reforçar a fé. Até hoje uma tradição é mantida: a dos moradores que quiserem cooperarem para uma animada celebração após a missa.

Para São João, em 24 de junho, a fogueira (hoje não recomendada devido gerar perigo de queimar fiações elétricas e gerar incêndios e até queimadas) era tradicional.

Tia Nazinha comenta que todo dia 29 de junho era tradicional a “saída de barquinhos em procissão em homenagem a São Pedro a partir do Igarapé do Bosteiro”, nas cercanias da Comunidade São Vicente (complexo histórico que tem, além da rua Frei José, também logradouros históricos como a Bernardo Ramos e a Governador Vitório.

Em todos os arraiais era comum da organização pedir cooperação financeira da comunidade, destaca Tia Nazinha.

Anos dourados
As décadas de 1940 a 1960 foram as mais animadas “juninamente falando”, e a juventude de dedicava mais aos estudos, relembra ela. A vestimenta das mulheres nos “arraiais clássicos” era o chitão que cobria duas anáguas. E os homens que dançavam nos bois-bumbás usavam cetim. E os couros de instrumentos como os tambores eram de sobra de couro de onça e porco-espinho.

Os foguetes tipo buscapé empolgavam os frequentadores dos arraiais bem antes da chegada definitiva dos catolés e outros fotos de artifícios. As quermesses mais famosas eram da Catedral Metropolitana da Igreja de Nossa Senhora da Conceição e da Igreja de Dom Bosco.

Hoje, não se tem o asfalto, a segurança e a iluminação que a rua Frei José dos Inocentes merece, garante a moradora octagenária. E as festas juninas não são mais como antes, assegura a experiente moradora descendente de barbadianos (imigrantes nascidos em Barbados).

“Me sinto uma órfã das festas juninas após tantas coisas boas que passamos. É uma pena. A tradição esta se acabando. Está acabando a história do Amazonas”, comentou ela, que diz sentir falta do tacacá, da tapioquinha...

Fazer fogueira não gera pena, mas deve haver bom senso
O Código  Ambiental do Municipio, lei nº 605/2001, não prevê multa ou aplicação de penalidade para quem tem o hábito de fazer fogueira no periodo junino em homenagem a São João, por se tratar de uma manifestação cultural popular e pontual. A informação é da assessoria de comunicação da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semmas). De acordo com a Diretoria de Fiscalização da Semmas, as regras nesse caso são definidas pelo Corpo de Bombeiros quanto a localização e acendimento das mesmas.

Segundo informações prestadas pelo Corpo de Bombeiros, uma fogueira é uma queimada urbana. “Não é aconselhável fazer fogueira, pois pode causar princípio de incêndio e é poluição ambiental. O que os Bombeiros liberam são autorizações de fogos de artifícios para festas. A tradição de fogueiras há tempos não existe mais, mas as pessoas ainda soltam balões, que se propagam e caem em cima de casas”, informou o soldado Cativo, do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas.

Já a assessoria de comunicação da Ipaam e Sema destaca que as fogueiras são manifestações culturais, folclóricas e histórica, e o que deve ser feito é uma consulta aos Bombeiros para adoção de cuidados, para ver se a fogueira não estará perto de fiação elétrica e pessoas. “Há cuidados de todos os órgãos envolvidos nessa questão pelo bom senso”, informou a assessoria.

 


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