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ESPERANÇA

Mulheres combatem preconceito e disputam vagas para pedreiros em Manaus

"Não me incomoda falarem que este trabalho é de macho, porque faço mais que muito deles", disse Márcia Castro. Conheça essa e outras histórias de quem busca um emprego 21/05/2018 às 12:57 - Atualizado em 21/05/2018 às 14:05
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Sentada em uma cadeira, a doméstica Márcia Castro, de 37 anos, acompanhou o andar da fila em frente à Seminf (Foto: Winnetou Almeida)
Amanda Guimarães Manaus (AM)

"Faço concreto e arrumo cerâmica". O resumo de suas qualificações técnicas é  da doméstica Márcia Castro, de 37 anos, que participou na manhã desta segunda-feira (21), de uma seleção da Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf), com mais 300 vagas para pedreiros e serventes. Ela está desempregada há mais de 8 anos e sonha em ser uma das contratadas pela pasta municipal.

Márcia faz parte de um time gigantesco de brasileiros que estão desempregados. Conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de trabalhadores que estão sem atuar no mercado de trabalho, no Brasil, foi de 13,7 milhões de pessoas nos três primeiros meses de 2018.

A doméstica nunca atuou com carteira assinada, apenas fez bicos na área de construção civil, bastante dominada pelos homens. "Fiquei sabendo dessa seleção da Seminf pelo meu irmão. Eu já trabalhei como pedreira, mas como era 'bicos', a minha carteira não era assinada. Cheguei em frente à secretaria na tarde desse domingo (20), na esperança de entregar a minha documentação nesta segunda (21)", disse Márcia.

A trabalhadora amazonense integrou uma das imensas filas registradas em frente à Seminf na manhã de hoje. Sentada em uma cadeira, ela acompanhava o andar do grupo de pessoas. A Polícia Militar do Estado do Amazonas (PMAM) registrou a presença de pelo menos 3 mil trabalhadores. 

Sem ligar para o preconceito contra as mulheres na construção civil, ela mostrou confiança nas suas qualidades para disputar a vaga. "É muito normal trabalhar no meio de tantos homens. Não me incomoda das pessoas falarem que este trabalho é de macho, porque faço mais que muito deles. Eu já até estou acostumada de ficar em filas, pois sempre espero para pegar fichas em postos de saúde. Não me importo com o preconceito das pessoas. Quero trabalhar", destacou a doméstica.

Também não se importando com o preconceito, a pedreira Erika Correa, afirma que participou de uma "saga" no último fim de semana para conseguir participar da seleção. A trabalhadora, de 38 anos, está fora do mercado há cinco anos.

"Cheguei em frente à sede da secretaria no sábado pela manhã. Até hoje, fiquei revezando com um colega para tomar banho na casa de vizinhos conhecidos. Perder o lugar em uma fila como essa, é muito complicado, porque todos estão querendo a mesma coisa: trabalho", afirmou Erika.

Ainda a pedreira comentou que a expectativa para ser contratada é enorme. "Eu amo trabalhar na construção civil. Já trabalhei em várias empresas de carteira assinada, mas estou desempregada há cinco anos. Claro que já vi muito preconceito durante esse tempo. Mas o importante é trabalhar", completou.

'Preciso de trabalho'

Apesar do intenso sol, o pedreiro Benedito Souza Arruda, de 52 anos, esperou funcionários da Seminf receberem os seus documentos na manhã desta segunda-feira (21). Ele contou que apesar da experiência de mais de 30 anos na área da construção civil, não consegue emprego desde 2016.

"Você me pergunta se vale a pena ficar debaixo de um sol intenso para uma vaga, e eu te respondo que sim. Passei a madrugada aqui, na esperança de pelo menos entregar meus documentos, mas é muito difícil ser contratado. Estou desempregado há mais de um ano. Mas estou tendo fé em Deus, que dessa vez, serei chamado", afirmou.

Se apegando na fé para conseguir o emprego, o ajudante de pedreiro Samuel Albuquerque, de 37 anos, afirmou que a paciência precisa ser uma virtude para todas as pessoas que estão sem trabalhar.

"Estou desempregado há anos e já participei de várias seleções. Eu acredito que vale a pena sim ficar esperando aqui. Os desempregados precisam ter paciência. Nada vem fácil", destacou.

Estrangeiro no Brasil

O haitiano Janold Orissaint, de 36 anos, chegou no Brasil em 2012. Durante este período, ele até conseguiu um emprego na área de construção civil, mas acabou sendo demitido. Em busca de uma nova chance no mercado brasileiro, o pedreiro estrangeiro também participou da seleção da secretaria.

"Eu dormi aqui na fila, porque estou esperando uma vaga. Preciso trabalhar para ajudar minha família, pois ninguém trabalha. Tenho certificado de matemática aplicada em construção civil, mas mesmo assim as oportunidades continuam difícies. Moro no São José, em uma casa alugada, e não posso desistir", finalizou.

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