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Manaus
MEDO, CANSAÇO, SEDE...

Amazonenses impedidos de sair da Venezuela atravessam fronteira com Brasil pelo mato

Um deles relatou momentos de medo, cansaço e sede. Agora em Manaus, o noivo que perdeu o casamento já remarcou o casório 16/12/2016 às 17:19 - Atualizado em 16/12/2016 às 17:56
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Eles percorreram um trajeto de vegetação e lama de cerca de dois quilômetros e meio e durante um tempo estimado de 15 a 30 minutos (Foto: Divulgação)
Vinicius Leal Manaus (AM)

Um grupo de seis amazonenses que estava impedido de sair da Venezuela devido ao bloqueio da fronteira com o Brasil atravessou ilegalmente e a pé o limite entre os dois países na madrugada desta sexta-feira (16) por uma trilha de lama e vegetação. Eles conseguiram chegar ao território brasileiro após percorrer um caminho de cerca de dois quilômetros e meio durante um tempo estimado de 15 a 30 minutos. Entre eles estava o noivo de Manaus que perdeu a própria cerimônia de casamento.

“O (presidente Nicolás) Maduro prorrogou o fechamento da fronteira por mais 72 horas. Vamos tentar sair agora pelo mato”, avisou Rainey Rocha, de 32 anos, irmão do noivo amazonense Raynilson, 27, através de mensagem enviada à reportagem momentos antes da travessia, à meia noite (horário da Venezuela), ainda no hotel na cidade de Santa Elena. No grupo deles estavam também Carlos Correa, 25, Alexsandro Aguiar, 33, e Junior da Silva, 24, todos moradores de Manaus.

“Ficamos apreensivos e atordoados. Vários brasileiros iam tentar também, mas ficamos na dúvida porque era de noite, escuro e perigoso, e um venezuelano falou que os soldados costumam atirar mesmo, que tinha cobra no trajeto”, disse. “Outro grupo atravessou primeiro e, depois de uns 20 minutos, ligaram para nós avisando que tinham conseguido. Na mesma hora recebemos a informação que o general estava chegando à fronteira, porque estava tumultuando de muitos brasileiros, aí tomamos a decisão de ir logo”, explicou Rainey.

Por volta de 1h da madrugada, em horário da Venezuela, o grupo de seis pessoas com Rainey, Raynilson e outros se preparava para a travessia. “Era uma hora da madrugada, e ao chegar perto da fronteira já tinha gerado uma média de 30 a 40 pessoas lá”, disse. “Desde o primeiro dia tinham pessoas passando pela fronteira, mas pelo lado do Exército. Nesse trajeto alternativo tinha que correr uns 200 metros, escalar uma montanha e esse caminho para nós não era bom. Nossa intenção era chegar o mais rápido na divisa com o Brasil, pela distância mais curta”.

A travessia perigosa

“Fizemos todo o trajeto a pé. Era um terreno irregular, com lama e o mato na altura da cintura. Parecia que a gente estava afundando quando pisava. Estávamos despreparados para aquilo, de calça jeans, tênis e com bolsas e malas pesando de 30 a 40 quilos”, disse Rainey. “Quando completamos um quilômetro e meio, ninguém aguentava mais pelo cansaço, a sede, o medo. Ficamos uns 10 minutos parados descansando. E nessa hora pensamos em desistir... A gente pensou que não ia conseguir, com medo dos guardas prenderem a gente”, explicou. “Mas pensamos ‘vamos tentar, não dá mais para ficar aqui”.

Em solo brasileiro

Após cerca de 30 minutos, o grupo de Rainey e Raynilson estava em solo brasileiro. Eles ainda percorreram “uma boa distância” antes de se aproximar da estrada. “Decidimos sair só quando não tinha mais ninguém na rua, onde não tinha movimentação de carros e pessoas. Fomos para a rodoviária, mas estava fechada e tinham várias pessoas dormindo lá na frente. Como estávamos com bolsas, fomos para frente da Polícia Federal. Quando começaram a sair outros brasileiros da mesma trilha e ganhamos mais confiança. Eram umas 30 a 40 pessoas”.

Perto do amanhecer, o grupo de amazonenses embarcou num táxi com destino a Manaus. “Quando era umas 4h30 ou 5h começou a aparecer táxi. Aí fechamos um pacote direto para Manaus. Ficou R$ 1,4 mil para seis pessoas”, disse Rainey. No trajeto, pela rodovia federal BR-174, eles fizeram paradas curtas para abastecimento nos municípios roraimenses de Mucajaí e Rorainópolis, e depois na cidade de Presidente Figueiredo, no Amazonas, até Manaus. “Agora eu vou chegar em casa e comer uma caldeirada de tambaqui com farinha ovinha”, comemorou o amazonense.

Carlos, 25, o noivo Raynilson, 27, o taxista, Alexsandro, 33, Junior, 24, e Rainey, 32

“Já fizemos essa viagem muitas vezes, mas essa foi ímpar, foi um divisor de águas. Não aconselho a ninguém, mas espero que a situação lá se resolva logo. Inclusive parte da nossa família está com viagem marcada para lá em janeiro”, disse Rainey. “Tinha brasileiro lá que não tinha o que comer e beber, com crianças. Contatamos a embaixada, e mesmo assim não conseguiram solucionar nada. Soubemos que agora reforçaram a guarda. Posso dizer que somos privilegiados. Tomamos a decisão certa, na hora cerca. Caso contrário, voltaríamos de lá só no domingo, ou sabe-se quando”.

O casamento

Um dos amazonenses que fez a travessia da fronteira foi Raynilson Rocha, que perdeu a cerimônia do próprio casamento marcado para ontem, quinta (15), em Manaus. “Foi uma situação complicada, mas ela conseguiu me entender”, disse. A data do novo casamento já está marcada para a próxima terça-feira, dia 20 de dezembro. “Vai ter festa, mas será uma coisa bem particular mesmo”, explicou.

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