Quinta-feira, 29 de Outubro de 2020
SEQUELAS DA COVID

Amazonenses recuperados da Covid-19 relatam luta diária com sequelas da doença

Mesmo após recuperados do novo coronavírus, pacientes relatam perda de olfato, paladar e outros problemas que podem ser perigosos e até mesmo causar acidentes



junio_2_8CC063D6-C46C-4361-9218-4B28919D4197.jpg Foto: Junio Matos
17/10/2020 às 06:48

“Meu neto apareceu gritando, desesperado porque o gás de cozinha estava fugindo e o cheiro tinha dominado a casa inteira. Mas eu não senti cheiro de nada, foi quando percebi o grande risco que isso se tornou”, esse é o relato da dona de casa Maria Albaniza, 60, que perdeu o olfato em julho deste ano, uma herança deixada pelo novo coronavírus (Covid-19) mesmo após ter se recuperado da doença.

Há quatro meses que a dona Albaniza, pertencente ao grupo de risco, enfrenta essas complicações deixadas pelo vírus. No início, quando testou positivo para a doença, os sintomas eram de uma gripe comum, como febre, tosse seca e cansaço. Ela é grata por conseguir se recuperar na sua própria casa. “Graças a Deus não precisei ser internada, fiz o tratamento em casa direitinho como os médicos prescreveram, só que quando chegou no final do tratamento, acabei perdendo meu olfato e até agora não voltou”, conta Maria.



A dona de casa diz ainda que sem olfato ela fica dependente da família e que isso pode causar acidentes “Fui limpar o banheiro e joguei muita água sanitária, como não sentia cheiro, imaginei que tinha jogado pouco. Isso fez com que eu desmaiasse. Quando faço comida, outras pessoas precisam ficar provando, caso contrário, eu acabo exagerando nos temperos”, explicou, revelando que o seu paladar também foi afetado.


Prazeres simples da vida, como saborear e sentir o cheiro de um café, deixaram de ser realidade para a dona Albaniza. Foto: Arquivo Pessoal

Falta de ar, insônia e diabetes são outros sintomas que estão entre as reclamações de pessoas que tiveram Covid-19 e ainda vivem com sequelas da doença. Como o caso do vigilante Jean Carlos, que foi um paciente em caso grave e agora faz tratamento para se recuperar. “Pelo menos 80% do meu pulmão ficou danificado, qualquer esforço eu já fico cansado. Apenas o esforço de me levantar do sofá para beber água já me sinto com falta de ar”, diz o vigilante.

Umas das sequelas que mais intrigou o Jean foi a diabetes, ele conta que sempre fez acompanhamento médico e nunca teve alteração na glicose, mas quando ficou internado no hospital de combate à Covid-19, na Nilton Lins, o seu quadro mudou. “Os médicos ficavam me perguntando se eu já tive diabetes ou algum caso na família, eu dizia que não e eles ficavam surpresos. Se aumentasse mais eu teria que tomar insulina”. 

O vigilante está curado do novo coronavírus, mas segue fazendo tratamento em casa por conta das sequelas no pulmão, ele toma alguns antibióticos para combater inflamações e faz fisioterapia com ajuda usa alguns equipamentos.

Preocupação mundial

Os casos de dona Albaniza e de Jean, apesar de ainda não serem contabilizados em estatísticas oficiais no Brasil pelo Ministério da Saúde, não é isolado. Um estudo preliminar sul-coreano realizado com 965 pacientes recuperados da Covid-19, no final de setembro, revelou que 91,1% relataram ter experimentado efeitos colaterais como fadiga, perda do olfato ou paladar e distúrbios psicológicos, o equivalente a 9 em cada 10 pacientes.

A fadiga foi o efeito colateral mais comum, registrado em 26,2% dos participantes da pesquisa, seguido pela dificuldade de concentração, que se manifestou em 24,6% das pessoas, disse Kwon.

A Coreia do Sul também está conduzindo para o próximo ano um estudo separado com cerca de 16 organizações médicas sobre complicações potenciais da doença por meio de uma análise detalhada envolvendo tomografias em pacientes recuperados, disse Kwon Jun-wook, autoridade da Agência de Prevenção e Controle de Doenças da Coreia (KDCA), em coletiva de imprensa à época.


Pesquisas sobre as sequelas deixadas pela Covid-19 estão em andamento no mundo. Foto: Junio Matos

O infectologista Marcelo Cordeiro, consultor do Sabin Medicina Diagnóstica, conta que essas sequelas do vírus são novas para ciência, por isso grande parte dos casos não há tratamento.

“Pesquisas estão sendo feitas para avaliar a atuação de fato do vírus, para depois criar um tratamento efetivo para esses casos”, o médico complementa que as pessoas devem procurar um especialista. “Em caso de sequelas como falta de ar ou problemas no pulmão, o paciente tem que fazer acompanhamento de um pneumologista e de um fisioterapeuta. Nos casos de problemas olfativos, o correto é procurar um otorrino para auxiliar alguns exercícios que estimulem o sentido prejudicado”, explica.

Marcelo conta que as pessoas não podem ficar esperando apenas a vacina anunciada pelo governo, em janeiro de 2021, pois ela não servirá como a cura ou tratamento. “Essa vacina que está em análise vai criar anticorpos contra a covid, ou seja, é uma forma de imunizar a população, não um tratamento contra os sintomas “, afirma o infectologista.

Cientistas alegam que casos como da dona Maria Albaniza ainda são um mistério, alguns pacientes ficam apenas quinze dias com essa dificuldade, em outros é estipulado que essa perda de olfato dure até 1 ano, mas o aconselhado é que pessoas com esse quadro façam exercícios de memória olfativa, como tentar sentir o cheiro do café diariamente.

Serviços locais

Com o intuito de garantir a segurança e auxiliar na reabilitação daqueles que contraíram o novo coronavírus, o Governo do Amazonas, por meio de secretarias de Estado, tem oferecido serviços de fisioterapia pulmonar a servidores estaduais. A medida vem para proteger e melhorar a qualidade de vida dessas pessoas, além de contribuir com o retorno seguro às atividades.

Entre os órgãos que oferecem acompanhamento com fisioterapia pulmonar estão a Fundação Hospitalar de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas (Hemoam), Fundação Hospitalar Adriano Jorge (FAHJ) e a Secretaria de Estado de Assistência Social (Seas). Na Fundação Hemoam, desde o pico da pandemia, o Núcleo de Atenção ao Servidor (NAS) disponibilizou o serviço.


Hemoam é um dos órgãos que oferece serviço para recuperação e reabilitação para servidores que passaram pela Covid. Foto: Divulgação/Secom

De abril a julho deste ano, a equipe multidisciplinar do NAS – Hemoam, composta por médicos, fisioterapeutas, psicólogos e assistentes sociais, atendeu mais de 1.700 servidores.

No dia 3 de julho deste ano, a Seas passou a oferecer fisioterapia pulmonar a servidores que tiveram Covid-19. As sessões são realizadas às segundas, quartas e sextas e nelas, são realizados exercícios de fortalecimento pulmonar e alongamento de todo o corpo. Também há o fortalecimento muscular, consciência corporal, trabalho de coordenação motora e a questão do bem-estar dos servidores.

Centro de Fisioterapia

Ainda em 2020, será inaugurado um Centro de Fisioterapia para atendimento aos servidores da Polícia Civil, inclusive aqueles que testaram positivo para Covid-19, caso apresentem necessidade. O projeto já está em andamento e em breve, esses serviços estarão sendo disponibilizados.


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