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Manaus
Renda Familiar

Amazonenses contam como sobrevivem com renda familiar mensal reduzida

Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), coloca o Amazonas como o Estado com terceira pior renda familiar do País 27/02/2017 às 14:35
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A doméstica Maria Francisca Marques trabalha com carteira assinada há quatro anos, é a única que possui renda em casa, e tem que poupar na conta de luz para comprar alimentos (Foto: Antonio Lima)
Geizyara Brandão Manaus

Em uma casa de três cômodos, localizada no Parque São Pedro, Zona Oeste, castigada pelo calor manauara, vive Maria Francisca Marques, 39, com mais cinco pessoas. Trabalhando há quatro anos de carteira assinada, a doméstica ganha apenas um salário mínimo e é a única que contribui para a renda familiar. A situação dessa empregada doméstica evidencia os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados na última semana,  em que o Amazonas aparece com a terceira pior renda familiar do País.

O cálculo utilizado pelo IBGE para determinar os rendimentos domiciliares, em que toda renda obtida é somada e dividida entre os moradores da residência, se aplicado ao caso de dona Maria, mostra que o rendimento domiciliar per capita é, aproximadamente, R$ 156. No geral, o Amazonas possui a média de rendimento mensal nos domicílios de R$ 739, ficando à frente apenas de Alagoas (R$ 662) e Maranhão (R$ 575).

Mãe solteira de três filhos, Marques além do aluguel de 
R$ 350 paga, ainda, a luz elétrica quando o locador afirma que o custo ultrapassou o limite imposto no contrato. Isso garante uma variação de menos R$ 120 do salário. Para economizar na conta de energia e poder sobrar para as outras necessidades básicas dos filhos, os ventiladores e a luz não são ligados, mesmo em um dia quente.

Vinda de Eirunepé (a 1.160 quilômetros de Manaus), a doméstica trabalhou seis anos sem ter a carteira assinada e até novembro recebia o benefício do Bolsa Família, mas pelo fato de ter um emprego fixo, acabou sendo cortada do Programa.

As principais dificuldades relatadas por Maria Francisca aparecem na hora de comprar os alimentos. “Às vezes tem mês que eu não compro alimentos, já tem os filhos que estudam, que eu gasto com eles. Quando falta alimento preciso pedir da minha patroa vale (para ser descontado do próximo salário)”, contou a doméstica.

Quando questionada sobre o pai das crianças, Maria Francisca diz que estão separados há quatro meses e que, mesmo quando moravam juntos, ele não ajudava na renda. “Se eu for esperar pelo pai, ele não dá nada. Ele trabalha como pedreiro. Antes tudo ficava nas minhas costas”, disse.

Ao lado de Maria Francisca vive uma família com situação semelhante. Sem emprego desde quando saiu do Pará há oito anos, Deuzanira Ferreira Lira, 29, está de resguardo do terceiro filho e depende apenas da renda do marido.

Empregado há menos de um mês, o parceiro de Deuzanira trabalha como motorista de caminhão, enquanto ela cuida dos filhos em casa. Aos finais de semana chegam mais “duas bocas” para alimentar, são os filhos do relacionamento anterior do cônjuge da dona de casa.

Com o relacionamento abalado, a dona de casa assegura que se chegar ao divórcio, poderá voltar para o lado da família na cidade natal. “Nossa situação financeira não está muito fácil. No momento eu não posso trabalhar porque estou com o meu filho pequeno. [...] Eu penso de voltar para a minha cidade se eu me separar mesmo”, relatou.

Essas duas famílias são exemplos do empobrecimento da população amazonense, que é visto pelos analistas do IBGE como decorrente dos efeitos da crise econômica, que acentuou o desemprego.

Saiba Mais

Segundo os dados da  Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do último trimestre de 2016, realizada pelo IBGE, os trabalhadores domésticos e os que atuam por conta própria são os que possuem as piores médias no rendimento médio habitual pela posição na ocupação, sendo  R$ 706 e R$ 859 respectivamente. Já os empregadores possuem a melhor remuneração somando um total de R$ 3.884.

Desempregados encontram dificuldades

 impacto da crise econômica ocorreu de maneira mais forte no Estado do Amazonas por depender do setor industrial. Em 2016, Manaus estava entre as dez cidades que mais perderam vagas de emprego. Mais de seis mil postos de trabalho foram perdidos apenas na indústria, além de registrar a queda de 6,14% no faturamento do Polo Industrial (PIM).  

Dentre as 261 mil pessoas sem ocupação no Amazonas está Flávia Simas. Ela trabalhava como operadora de máquina no distrito industrial e se afastou pelo Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS). “Falaram que todos que se afastaram pelo INSS iriam pegar a conta. Depois deram uma desculpa que era pela crise”, expôs.

O marido de Flávia trabalhava como encarregado no comércio e desde então não consegue mais nenhuma vaga. A principal preocupação depois de acabar o seguro-desemprego da ex-operadora é não conseguir outro serviço. “Ainda estou conseguindo pagar as contas e colocar alimento dentro de casa. Eu que organizo tudo e procuro não fazer dívidas”, disse.

Para fugir da falta de renda, o casal planeja vender churrasco para poder conseguir complementar o dinheiro mensal. 

Prestes a receber o diploma de enfermeira, Kamila Bentes tem esperanças de atuar na área de formação a partir do próximo mês. A finalista ficou desempregada há um ano, porque não conseguiu conciliar o estágio da faculdade e o trabalho como atendente. "Já tenho algo em vista, na quinta-feira já irei deixar meu currículo para atuar no meu ramo", assegurou. A jovem faz parte dos 2,8 milhões de pessoas no Amazonas que estão em idade de trabalhar.

Quem não teve a mesma sorte foi a mãe de Kamila, Sinthia Barros é formada e está desempregada desde quando se formou, no início do ano passado. Em 2014 a nutricionista deixou o emprego para se dedicar totalmente à faculdade. "Chega uma hora que não dá para conciliar trabalho e faculdade, principalmente quando precisamos fazer estágio supervisionado e não remunerado. Então escolhemos pela conclusão do ensino superior para poder conseguir algo melhor, mas não está fácil para ninguém", comentou a futura enfermeira, Kamila Bentes.

Em números
70% - 
Foi o índice de aumento do desemprego no Estado do Amazonas  no período de dezembro de 2015 e dezembro de 2016. O dado foi divulgado na última quinta-feira (23) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua). Na capital amazonense a taxa subiu de 16,6% para 18,8%, do 1° ao 4° trimestre do ano passado. Já o número de pessoas ocupadas no último trimestre contabilizou 1,4 milhão.

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