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Manaus
FAUNA EM RISCO

Animais silvestres convivem com humanos na ocupação Parque das Tribos

Com a derrubada das árvores para construção de barracos na ocupação, no Tarumã, a fauna silvestre se tornou a nova vítima 02/08/2017 às 22:16 - Atualizado em 03/08/2017 às 10:22
Silane Souza Manaus (AM)

Com a devastação de seu hábitat natural, muitos animais silvestres têm que conviver com os humanos. Isso acontece na invasão Parque das Tribos, no bairro Tarumã, Zona Oeste. Macacos guariba, barrigudo, sauim-de-coleira, além de bicho preguiça, papagaios e periquitos são  encontrados na região. A maioria foi resgatada e deixada onde ainda há floresta, mas voltou por conta do abrigo, comida e água fácil que consegue nas casas.

O autônomo Edy Santos, 25, conta que os animais quando aparecem são maltratados pelas crianças. Quando isso acontece, ele resgata o bicho, cuida dele e depois o devolve a floresta. “Um dia desses foi uma preguiça-real. Ela ficou machucada, mas depois que recebeu cuidados e foi deixada na mata não voltou mais. Também tinha um casal de socó que sempre vinha se alimentar, mas não apareceu mais. Os que ficam aqui são porque não conseguem mais se reinserir na natureza”.

A invasão Parque das Tribos surgiu há três anos. Até agora houve 11 mandados de reintegração de posse para a área, mas todos foram suspensos por se tratar de um local ocupado por supostos índios. Ao todo, há índios de 32 etnias. Mais de 700 famílias vivem no local, num total  de três mil pessoas. Também há  não-índios, que representam 10% do total, de acordo com a “coordenadora de cadastro” Vicelônea Martins.  “São pessoas que, assim como nós, necessitam de moradia”.

Entre as  etnias  estão Baré, Ticuna, Tukano, Tariano, Piratapuia, Dessano, Munduruku, Tuiu e Saterê Mawé. Ao menos 17 falam a língua nativa. Vicelônea diz que muitos alegam que não há índios, mas todos têm Registro Administrativo de Nascimento de Indígenas (Rani) para provar que são. “As pessoas acham que índio não pode morar em casa de madeira, tinha que estar na maloca, querem chegar aqui e ver índio nu, mas estamos na cidade. Só nos caracterizamos quando tem evento”.

As famílias vivem em condições precárias. Só tem acesso a água de poço artesiano e a energia elétrica por meio de gato. A esperança é que o terreno invadido por eles seja doado e se transforme num espaço de referência da cultura indígena. “Aqui fazemos artesanato, farinha, beijú, temos grupos de danças, cada um vive de acordo com sua tradição. Queremos não só um lugar para morar, mas também para manter nossa tradição”, disse Vicelônea, da etnia Piratapuia.

Suhab

No último dia 19, o superintendente  de Habitação do Amazonas (Suhab), Nilson Cardoso, foi até a invasão  e ficou de verificar com o procurador da República Fernando Meloto a situação do processo envolvendo a invasão.

A Suhab informou que Cardoso foi conhecer a área, mas foi informado depois que a mesma é de responsabilidade da Secretaria de Estado de Políticas Fundiárias (SPF). A CRÍTICA entrou em contato com o Ministério Público Federal do Amazonas (MPF-AM), mas até o fechamento desta edição o órgão não se manifestou. A Fundação Nacional do Índio (Funai) também foi acionada, mas informou que não poderia apurar as informações dentro do prazo solicitado.

A área onde fica o Parque das Tribos, é alvo de uma disputa judicial desde 2014, ano de criação da comunidade. A briga pelo terreno é com o empresário Hélio Carlos D’Carli, que afirma ser o proprietário da área.

Promessa de Arthur

Há quatro semanas das eleições de 2016 o então candidato a reeleição, Arthur Neto (PSDB), foi à invasão e prometeu regularizar a situação dos indígenas, mas até hoje não fez nada, de acordo com Vicelônea Martins. O vídeo em que o prefeito discursa no local é postado constantemente na internet pelos indígenas a fim de lembrar Arthur  das promessas.

Indígenas ganham reintegração

A pedido do Ministério Público Federal no Amazonas (MPF/AM), a Justiça determinou a imediata reintegração de posse em favor dos moradores da comunidade Yupirunga, família indígena do povo Karapana, às margens do rio Tarumã-Açu, zona rural de Manaus. A decisão liminar determina a demolição, em até 48 horas, do muro erguido irregularmente.

Os moradores da área comunicaram aos responsáveis pela obra que o terreno estava sob litígio judicial e que, portanto, não poderiam continuar a construção. Após erguido, o muro impediria o acesso de todas as famílias das imediações ao rio Tarumã-Açu e às fruteiras, locais onde toda a comunidade busca plantas medicinais, além de comprometer acesso ao igapó onde realizam atividade de pesca de subsistência.  Após o contato, as obras foram intensificadas e os moradores foram coagidos, inclusive por ação policial ilegal na região.

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