Quinta-feira, 29 de Outubro de 2020
Ontem e hoje

Avenidas do Centro de Manaus eram igarapés antes da 'modernidade'

Avenidas Eduardo Ribeiro e Getúlio Vargas, além de uma área da Matriz, eram braços de rio



avenidaeduardoribeiro_8C49D69B-D87F-4262-80EC-DF33DA6D72CD.jpg O Igarapé do Espírito Santo em 1865, que viria a ser a avenida Eduardo Ribeiro, uma das mais famosas do Estado / Foto: Christoph Albert Frisch
16/08/2020 às 20:58

Nem todos sabem, mas áreas do Centro Histórico de Manaus como as avenidas Eduardo Ribeiro e Getúlio Vargas eram há mais de 100 anos, igarapés e pântanos, ou chavascais, como queiram. Para alguns, isso seria impensável atualmente, ainda mais que é grande a possibilidade de que esses locais estariam altamente poluídos.

Antes de ser uma das avenidas mais famosas do Estado, a Eduardo Ribeiro era conhecida como Igarapé do Espírito Santo. “Era um córrego que se iniciava próximo a atual rua Dez de Julho e desembocava no rio Negro no local onde hoje é o porto de Manaus. Renomeado pelos portugueses como Igarapé do Espírito Santo, prática comum dos lusitanos em terras conquistadas, o curso d’água obedecia ao regime das águas amazônicas, e nos meses de junho até agosto, o trecho alagado podia ser percorrido até as imediações de onde hoje se situa o edifício Zulmira Bitencourt e servia de via de locomoção da canoas e igarités dos parcos moradores da cidade, segundo o historiador Genesino Braga”, relata o professor e também historiador Aguinaldo Figueiredo.




A avenida Eduardo Ribeiro na atualidade: uma das mais importantes do Estado / Foto: Euzivaldo Queiroz

Ele destaca que, com  o aumento populacional e da atividade econômica a cidade começou a crescer espacialmente e os administradores começaram a planejar mudanças estruturais afim de modificar seu aspecto e modernizá-la para o futuro próspero que se avizinhava. Adveio daí a preocupação com o destino dos igarapés: saneia e revitaliza para o uso racional como vias aquáticas ou se aterra? “Decidiu-se pelo aterramento que foi realizado aos poucos e em várias administrações com destaque para o presidente José Paranaguá. Seu aterramento total se deu no governo de Eduardo Ribeiro (1892–1896), cujo material (barro) foi retirado dos morrinhos existentes nas partes altas nas ruas José Clemente e Dez de Julho. O processo de aterramento se estendeu até a região onde hoje é o porto de Manaus, recebendo inclusive sistema de esgotamento sanitário e pluvial. O porto começou a ser construído em 1903 e concluído em 1907”, ensina Aguinaldo Figueiredo. 

Poucos sabem, também, que na área onde hoje é a agência do Banco do Brasil da Praça 15 de Novembro (Matriz) existia um igarapé. “Ele se chamava Igarapé do Seminário porque, na sua foz, próxima ao porto, foi instalado o Seminário São José e foi aos poucos sendo aterrado por necessidade de uso do local. Quando do seu mandato como govenador da Capitania de São José do Rio Negro, o coronel Lobo D’Almada ali instalou o estaleiro Ribeira das Naus, com o fito de construir e reparar as naus e igarités que faziam os transportes de mercadorias e pessoas na capitania”, informa Figueiredo.

Getúlio Vargas

Já a Getúlio Vargas se chamava, antigamente, rua 13 de Maio, e era tomada por um igarapé que se estendia até os arredores da Igreja dos Remédios - por essa razão os livros, jornais e documentos antigos referem-se ao local como “Igarapé dos Remédios” e depois passou a ser do Aterro. Os serviços de aterramento e urbanização da avenida Treze de Maio, hoje Getúlio Vargas, foram concluídos em 1932. 


Já a Getúlio Vargas se chamava, antigamente, rua 13 de Maio, e era tomada por um igarapé que se estendia até os arredores da Igreja dos Remédios / Foto: Reprodução

“O governo da época canalizou o igarapé do Espírito Santo e aterrou o  dos Remédios. Aterrou a área que conhecemos como avenida Floriano Peixoto, e a  área que compreende uma parte da Getulio Vargas virou um pântano). A transformação do centro da cidade foi considerada urgente devido a proliferação de mosquitos transmissores de diversas  doenças. Entre elas podemos citar a malária. No entanto é interessante deixarmos claro que essa não era a única motivação: o desejo de urbanizar Manaus se deu com a necessidade de apagar suas vistas bucólicas e trazer a tona vistas modernas”, explica a professora Gisella Braga, uma das fundadoras do Blog Manaus de Antigamente, uma das referências da história antiga de nossa capital.


A movimentada avenida Getúlio Vargas dos tempos atuais 

População

Pessoas que trabalham ou costumam frequentar os locais onde outrora existiam igarapés que se esses braços de rios existissem ainda hoje, estaria,m bem diferentes de antes.
“Eu sei que o igarapé que havia aqui onde hoje é a avenida Getúlio Vargas foi aterrado no início do século passado dentro das atividades de modernização da cidade para transformá-la em uma ‘Paris no meio dos trópicos’. Se o igarapé existisse ainda, com certeza estaria poluído e degradado assim como outros de Manaus”, disse o produtor audiovisual Darlan Guedes, 40.

Os jornalistas Daniel Jordano, 34, e Artur Coelho, 24, têm uma vista privilegiada da avenida Eduardo Ribeiro: ambos trabalham na sala da redação da Band News Difusora FM, que fica sediada no 19º andar do Palácio do Comércio.

“O pôr do Sol mais lindo do Brasil é em Manaus e aqui no 19º andar, uma vista bonita e legal porquê daqui você vê a cidade, o contraste, as coisas que precisam melhorar. É maravilhoso. Mas se o igarapé não tivesse sido aterrado, numa opinião bem pessimista ele estaria poluído principalmente por conta da população”, comenta Jordano, preocupado com a urbanização da capital.

“Meus pais não chegaram a ver o igarapé, mas me falaram que era bem, bonito nos primórdios. Mas não cabe mais um igarapé aqui por conta da modernidade, além do que geraria custos que não sei se o Município teria essa verba para retirar os prédios daqui”, avalia Artur Coelho.

Blog

Gisella Braga, do Blog Manaus de Antigamente
 

"Falar desses projetos de urbanização e aterro de igarapés são necessários, pois eu acredito, sim que eles representam muito as primeiras fundações de Manaus e, ao aterrar esses locais, tivemos um aspecto histórico importante que foi apagado. Seria totalmente possível a cidade crescer às margens de seus igarapés. Infelizmente os colonizadores não tiveram a sensibilidade de manter nossos recursos, eles simplesmente  esgotaram e exploraram tudo que foi possível. Tinhamos a cidade crescendo entre rios e árvores, tudo foi arrancado e substituído por pedra e concreto”.

Análise

Aguinaldo Figueiredo, professor de História

"Na época dos aterramentos não havia uma alternativa para manter vivos igarapés como do Espírito Santo. Havia uma lógica urbanística que envolvia outras modalidades de locomoção, a questão do regime das águas, a questão sanitária e o desejo apressado dos gestores públicos da época em dar respostas à modernidade que se vivencia e se desenvolve no mundo ocidental, principalmente em copiar modelos de cidades mais “avançadas”.

Repórter de A Crítica

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.