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Aos 94 anos, e há 60 vendendo tacacá, lendária Dona Zita dá lição de amor e não quer parar tão cedo

Tradicional tacacazeira, que trabalha na Praça da Polícia há 60 anos, é a vitalidade em pessoa; ela conta ter saudades da Manaus antiga, relembra fatos curiosos e diz que seu tacacá tem segredo que "não pode ser revelado" 23/10/2015 às 20:05
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A tacacazeira Adalgisa Soares Felício, de 94 anos
Paulo André Nunes Manaus, AM

A história da Praça Heliodoro Balbi, a popular “Praça da Polícia”, tem na vendedora de tacacá Adalgisa Soares Felício, 94 anos, um capítulo mais do que especial de amor nestes 346 anos de Manaus. Nascida no seringal Concórdia, no Município de Juruá (a 671 quilômetros da capital), Dona Zita, como ela é conhecida, vende a iguaria no mesmo ponto há mais de 60 anos, confundindo-se com a paisagem do tradicional local da capital.

Foi com o forte amarelo do saboroso e aromático tucupi, aliado ao rosa do camarão, à transparência da goma de tapioca e à inconfundível folha de jambu que ela criou cinco filhos e, acreditem, 48 netos.

O tucupi - sumo amarelo extraído da raiz da mandioca descascada, ralada e espremida (tradicionalmente usando-se um tipití) - de Dona Zita vem de outro lugar bastante tradicional de Manaus: o Mercado Municipal Adolpho Lisboa, o Mercadão.

Dona Zita fala que adora o tucupi, de temperá-lo bem e com prazer, principalmente quando ele é “do “bom”. “Mas, quando não está do gosto da gente, não me animo muito”, destaca ela, que mantém segredo sobre o tempero que faz todos apreciarem seu tacacá. As cuias são vendidas a R$ 10 e R$ 15.

Dona Zita começou vendendo comidas em um tabuleiro (Foto: Clóvis Miranda)

“Eu vendia em outros locais,  mas foi aqui na Praça da Polícia onde eu me fixei para oferecer o tacacá há 60 anos. Comecei a vendê-lo por vontade própria. Provando de um e de outro, tirando o paladar, até atingir o ‘ponto certo’”, diz ela, filha do cearense Gerônimo Soares de Melo e da paraense Carlota Pires de Melo. A nonagenária conta ter saudade da Manaus antiga: “As pessoas eram mais atenciosas conosco. E o clima era mais ameno. Esse verão está muito quente mesmo. Haja água”.

PONTO DEMOCRÁTICO

A banca de tacacá de Adalgisa é um dos mais tradicionais e democráticos pontos de concentração popular da cidade. Não por acaso, “gente comum” se mistura com personalidades bastante conhecidas da cidade. O atual prefeito Artur Neto é um deles, e o ex-governador e ex-prefeito, Amazonino Mendes, é outro. Sem falar no secretário de Estado da Cultura (SEC), Robério Braga, entre outros clientes de Dona Zita que não deixaram de ser ícones nem mesmo depois de falecidos, como Gilberto Mestrinho, o famoso “Boto Navegador”, que também está entre os clientes “ilustres”.

Uma das particularidades de Dona Zita é o fato dela própria servir a iguaria à maioria dos clientes da Praça da Polícia (um casal de filhos dela a acompanha nas vendas diárias). E, se depender dela, essa tradição vai continuar por muitos anos ainda. “Vou ficar vendendo aqui até quando não puder mais enxergar ou andar. Ou então me jogarem daqui”, brinca ela.

Ela ensina que as pessoas nunca devem se entregar à velhice. “Elas devem continuar trabalhando para ficar sempre novas. Eu, até nessa idade, não gosto quando me chamam de ‘velha’. Eu trabalho, não quero depender de ninguém enquanto estiver viva”, declara Adalgisa.

FORÇA DE VONTADE

Se por um lado Dona Zita não revela o segredo do tempero do seu tacacá, e nem de quanto fatura com as vendas, por outro ela fala, categórica, que é a boa vontade e o carinho que tem no coração que a fazem ter cada dia mais vontade de viver.  “Eu ainda faço muita caridade com as pessoas. Por exemplo: meus 8 últimos netos dependem até hoje de mim porque não têm emprego”, explica ela, emocionada.

No entanto, ela conta que um dos momentos mais marcantes dos seus 60 anos na Praça da Polícia foi quando, em um dia de Natal, há mais ou menos 20 anos, um grupo de moradores de rua, cheira-colas, invadiram a Praça, formaram uma fila e ofereceram flores a ela. “Sinto esse carinho até hoje. Faz muito tempo, mas eu nunca me esqueci disso. Eles me chamavam de mãe. Havia muito deles aqui no Centro nessa época. Eu dava comida pra eles”, recorda a tradicional tacacazeira.

PARABÉNS MANAUS

Nestes 346 anos da cidade, Dona Zita parabeniza o povo manauense, mas aproveita para cobrar que os governantes tomem mais providências em prol de Manaus. “Peço que eles reparem mais pela cidade para dar mais alegrias para nós, idosos, e às nossas crianças, que estão se perdendo por falta de atenção”, conclui a sábia tacacazeira de 94 anos de idade.

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