Quarta-feira, 23 de Setembro de 2020
Violência

Apesar de queda, casos de abusos sexuais contra crianças ainda é alto em Manaus

Confinamento mostrou a face mais brutal das agressões em casa, embora números apontem redução



zCID0125-504_p01_7438FF7A-08C1-459E-9F5B-D2E7A06C706A.jpg Foto: Euzivaldo Queiroz
25/08/2020 às 10:09

De janeiro a junho deste ano, o Sistema Integrado de Segurança Pública do Amazonas (Sisp) registrou 122 casos de abuso sexual contra crianças e 87 contra adolescentes em Manaus. Ambos os índices representam queda em comparação ao mesmo período do ano passado (156 e 87 casos, respectivamente). A vigilância e a prevenção, no entanto, devem continuar sendo praticados por pais e responsáveis e, assim, evitar atos que têm profundos reflexos na vida e na rotina da vítima.

Gravidez indesejada, doenças sexualmente transmissíveis e traumas são algumas das consequências do abuso sexual de crianças e adolescentes, prática recorrente em espaços onde o menor deveria se sentir protegido: na escola e no âmbito familiar.



Além desses problemas, não raro a vítima se torna motivo de vergonha entre familiares que, ao descobrirem o abuso, resolvem silenciar diante da situação. “É o caso das mães que dependem financeiramente do abusador, seja pai ou padrasto, e têm medo dele”, explica o pediatra Luiz Affonso Brito.

Dentre as 30 crianças e adolescentes acolhidos no Lar Mamãe Margarida, Zona Leste, muitas foram rejeitados pelo fato de terem sofrido abuso sexual, conta a assistente social Folvy Magalhães. “As mães ficam divididas entre o amor pelo companheiro e o amor pelo filho. De forma geral, acabam optando pelo primeiro”.

O Lar abriga vítimas de abuso direcionadas pelo Juizado da Infância e Juventude, Ministério Público, DEPCA e conselhos tutelares, e oferece acompanhamento psicossocial, atividades socioeducativas e de lazer. “Tentamos restabelecer o que foi quebrado pela violência”, diz Magalhães, assistente social do Lar Mamãe Margarida. “Com as adolescentes, trabalhamos com o pensamento de que podem construir uma nova história e criar uma autonomia mesmo sem o apoio da família, tornando-a dona de sua própria história”.

Coação

Por meio de prendas ou ameaças, as vítimas são coagidas pelos agressores a não denunciá-los ou contar o que aconteceu. “Isso vira um trauma para a criança, que não consegue ter um rendimento adequado na escola, socializar com o meio, a se privar de certas atividades e do diálogo. Ela se torna reprimida, retraída, tímida, fica refém do agressor”, exemplifica Brito.

A impunidade facilita a prática reiterada de violações, que iniciam com carícias e toques e podem culminar no ato sexual de fato.

“O criminoso vê a criança como um objeto desprovido de sentimento, de carisma”, acrescenta o pediatra. Vários adolescentes se tornam adultos traumatizados, com dificuldades de se relacionar com parceiros por conta de um antigo problema.

Investigadora diz que crime cresce

Uma investigadora  de uma delegacia, que pediu anonimato, afirma que o número de estupros contra menores aumentou durante a pandemia. Na semana passada, o caso de uma menina abusada pelo pai e pelo tio foi descoberto depois que ela sofreu um aborto aos dois meses de gravidez. O crime foi denunciado pelo Disque 100.

“Nos meses de maio, junho, julho e agosto tive que fazer inúmeros procedimentos policiais com crianças vítimas de violência sexual. É muito difícil tomar termo de declaração de uma criança vítima. Essa semana já fiz quatro, só de estupro de vulnerável”, relata a agente.

Conforme informações do Disque-Denúncia da Semasc, 31,97% são denúncias oriundas da zona Leste, 28,88 da zona Norte, 11,92% Centro-Oeste, 11,54% Sul, 9,54% Centro-Sul, 4,59% Oeste e 0,65% rural. Disponibilizado por meio da ligação gratuita, o atendimento à população vítima de violações de direitos atende pelos números 0800-092-6644 e 0800-092-1407. Esses canais atendem denúncias sobre violação de direitos contra crianças e adolescentes, além de mulheres, idosos, populações ribeirinhas, pessoas em situação de rua, com deficiência e LGBT.

Pai preso por estuprar a filha

Um homem de 33 anos foi preso em flagrante suspeito de estuprar a própria filha, de apenas 13 anos, na madrugada de domingo (23), no bairro da Paz, zona centro-oeste de Manaus.

As equipes da 17ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom), da Polícia Militar, foram acionadas por volta das 2h30 para o atendimento da ocorrência.

O caso foi registrado na Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca), da Polícia Civil.

Invasão

De acordo com a titular da Depca, delegada Joyce Coelho, o suspeito teve a prisão flagrante convertida em preventiva pela Justiça. “Ele seguirá preso e as investigações continuam”, disse a delegada.

Conforme o Boletim de Ocorrência (BO) sobre o caso, na ocasião do delito, o homem teria entrado no quarto da criança e feito diversas perguntas de teor sexual.

Depois disso, ele teria cometido o estupro.

Depois do crime, a vítima buscou ajuda de uma tia, que mora nas proximidades, e que acionou a polícia por meio do 190.

A criança foi encaminhada para atendimento psicossocial pela equipe da Depca.

Fruto de uma agressão causa revolta na vítima e muitas se deixam levar pelas drogas

Gravidez causa traumas

O médico Luiz Affonso Brito  observa que muitas adolescentes que tiveram uma gravidez não-desejada acabam negligenciando cuidados básicos com a gestação, como pré-natal e alimentação adequada, e entregam-se ao consumo de álcool, cigarro e drogas ilícitas.

É uma forma de expressar a revolta por carregar o fruto de um abuso, o que resulta em bebês prematuros, com má formação e complicações genéticas. “É uma situação muito delicada, no qual o apoio familiar é fundamental”, finaliza Brito. Dos 763 chamados feitos ao Disque-Denúncia da Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania (Semasc) de janeiro a maio deste ano, 10 eram relacionados ao abuso sexual.  Os casos de negligência respondem pela maioria dos relatos (243), seguidos por maus tratos (148) e agressão física (99).

Em referência aos trinta anos de criação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a Secretaria Municipal de Comunicação (Semcom), em parceira com o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) e apoio da Coordenadoria da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça do Estado do Amazonas (Tjam), lançou uma campanha em diversas mídias para evidenciar a importância de se combater toda forma de discriminação, exploração e violência contra a criança e ao adolescente. Em sintonia com as políticas definidas pelo Estatuto, a Prefeitura oferece serviços como o “Kit Cegonha”, destinada ao atendimento pré-natal da população mais vulnerável, o “Saúde na Escola” e o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), este integrado à política nacional de assistência social.

Na semana retrasada, o caso da menina capixaba de 10 anos que engravidou do próprio tio reacendeu o debate sobre a violência sexual contra crianças e adolescentes. De acordo com relatos da vítima, ela sofria abusos desde os 6 anos de idade e preferiu guardar silêncio para evitar represálias. Na quarta-feira (19), ela deixou o hospital onde passou por um procedimento para interrupção da gravidez, em Pernambuco.

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Repórter de Cidades
Formado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Além de A Crítica, já atuou em uma variedade de assessorias de imprensa e jornais, com ênfase na cobertura de Cidades e Cultura.

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