Domingo, 13 de Outubro de 2019
Manaus

Após morte de filho em cirurgia, pai denuncia quadrilha de 'tráfico de órgãos' no Amazonas

Desde 2013 o professor Naeff Ribeiro tenta provar que o filho dele, morto aos 7 anos, teve os rins ‘roubados’ por quadrilha de cirurgiões



1.jpg Há dois anos Naeff Ribeiro se empenha na elaboração de um ‘dossiê’, que reúne toda a documentação e procedimentos cirúrgicos realizados no filho dele.
29/01/2015 às 16:34

Um pai convicto de que os rins do filho foram retirados para alimentar uma rede de tráfico de órgãos. Este é o drama do professor Naeff Ribeiro, 58, que há dois anos tenta provar que o filho Bóris de Araújo Silva, que tinha 7 anos quando morreu, foi vítima de uma quadrilha que, segundo ele, atua nos Prontos Socorros Infantis do Estado do Amazonas. 

Depois de dez dias  internado no Hospital e Pronto Socorro da Criança da Zona Oeste,  onde deu entrada com vômitos e diarreia (ver box), a criança veio a óbito  no dia 13 de fevereiro de 2013.  Desconfiado das cirurgias que estavam descritas no prontuário, Ribeiro solicitou detalhes dos procedimentos médicos e até a exumação do corpo, que levantou a suspeita de que o filho dele fora enterrado sem os rins. “No prontuário constam procedimentos que não autorizamos fazer. Não sabíamos de todas aquelas cirurgias que eles alegam. Então notei que havia alguma coisa errada e descobri que meu filho caiu nas mãos da quadrilha que tira os órgãos”, denunciou.

Ele contou que um exame radiológico de tórax foi feito dois dias antes da morte de Bóris  mas  não foi entregue à  família. “Vi no prontuário  que foram feitos raios-x e solicitei os exames que fizeram antes e depois das cirurgias. Não me entregaram nada. Esta seria a única coisa que provaria se meu filho estava ou não com os órgãos”.

A Secretaria de Estado de Saúde (Susam) informou que o “exame foi realizado no sistema convencional da época, utilizando película-reveladora e fixador, com características voláteis”. Segundo a secretaria, o “filme apagou” e por isso a imagem foi descartada.

Depois de fazer a denúncia no 8º Distrito Integrado de Polícia (DIP), o professor solicitou a exumação do corpo do filho. “Eles estão acostumados a fazer isso porque sabem que nenhum pai tem coragem de mandar desenterrar o filho pra fazer exumação”, relembra.

Exumação

O exame foi realizado três meses depois. O laudo do Instituto Médico Legal (IML) aponta que “foi evidenciada a presença de material compatível com compressas” dentro do corpo de Bóris. Após a retirada desse material, foi encontrada uma bolsa coletora de urina, “suturada à aponeurose abdominal, compatível com técnica cirúrgica”, segundo detalha o IML.

Sobre a suspeita de que os rins foram retirados, o perito legista descreveu que “pelo estágio de decomposição avançado”, a identificação de tecidos (órgãos) ficou prejudicada. No entanto,  Naeff afirma que acompanhou todo o processo de exumação e  que a bolsa foi colocada para substituir o órgão.

 No laudo médico emitido pela Susam, o procedimento em que a bolsa foi suturada não foi descrito. “A bolsa coletora estava no lugar de um rim da criança. Como essa bolsa foi parar dentro dele se não autorizamos e nem sabíamos deste procedimento?”, questionou Naeff.

Ele denunciou o caso ao Ministério Público Estadual (MPE-AM), e  o  juiz Anésio Rocha, da 2ª Vara do Tribunal do Júri, declinou a competência do caso a “uma das varas criminais comuns”, uma vez que o suposto crime não apresenta características de homicídio doloso consumado, de acordo com  a decisão. O processo criminal está “parado” no setor de “distribuição” da Justiça.

Ribeiro também deu entrada em um  processo cível  de número 0635920-10.2014.8.04.000, que tramita na 3ª Vara da Fazenda Pública Estadual, onde ele processa o Estado e pede uma indenização de R$ 1 milhão por danos e perda.


‘Sem apoio’

Incansável, o professor alega que nenhuma autoridade se dispôs a ajudá-lo na investigação. “Já pedi ajuda de tantas pessoas. Fui na delegacia, no Conselho Regional de Medicina, na Câmara Municipal de Manaus, na Assembleia Legislativa e nada. A única certeza que tenho é que não vou desistir, pois a alma não descansa enquanto não houver justiça”, lamentou.

Outro caso

Embora Naeff se sinta só, esse não é o único caso de um pai que denuncia o tráfico de órgãos no Brasil. Assim como ele, o gerente de sistemas Paulo Airton Pavesi denunciou e  luta há quase 15 anos contra uma  ‘máfia do tráfico de órgãos’ de Minas Gerais. 

Sob proteção internacional do Governo Italiano por meio de asilo humanitário concedido em setembro de 2008,  Pavesi  escreveu o livro intitulado “Tráfico de Órgãos no Brasil: o que a máfia não quer que você saiba”. A publicação da história com pouco mais de 400 páginas foi censurada,  mas é disponibilizada gratuitamente na internet.

Menino foi levado ao hospital com vômitos

De acordo com o pai da criança, Naeff Ribeiro, 58,  tudo começou quando o garoto comeu uma pizza de calabresa e foi levado ao Pronto Socorro da Criança da Zona Oeste, com vômitos e diarreia. Ele foi internado no dia 2 de fevereiro de 2013, às 23h15. No dia seguinte, por volta das 16h, Bóris foi operado por um cirurgião que faz parte do Instituto de Cirurgia do Estado do Amazonas (Icea), sucessor da antiga Cooperativa de Cirurgiões do Estado do Amazonas, que tem contrato com Estado  há mais de dez  anos.

“O médico falou que ia fazer uma cirurgia de obstrução intestinal, mas minha esposa  discordou, já que o menino estava com diarreeia. Mas o médico explicou que haviam vários tipos de obstruções e autorizamos essa cirurgia. Nada com os rins”.

Ainda segundo Naeff, a criança foi levada para a UTI depois da cirurgia. “O médico relatou que tinha dado tudo certo na cirurgia. Mas algumas horas depois o Bóris estava em estado lastimável, do abdômen para baixo que nem um balão cheio de água, inchado”.

Dois dias depois, a criança foi submetida a uma nova cirurgia, onde uma equipe médica composta por outros dois cirurgiões e uma anestesista do Icea constataram mais uma “fístula” (abertura) intestinal.

No prontuário  da Secretaria Estadual de Saúde (Susam) consta que houve piora no quadro, sendo necessária uma nova cirurgia dia 5 e outra dia 11. No entanto, Naeff afirma que só foram realizadas duas cirurgias e que o pronturário foi fraudado para “esconder” a retirada ilegal dos órgãos da criança. Segundo ele, em um dos dias, a hora apontada no prontuário como o momento da cirurgia  (10h50) era horário de visita e a família estava com a criança na UTI.

“Depois que meu filho morreu que fui ligar os fatos. No prontuário  eles descreveram cirurgias que nunca foram feitas, o que me levaram a crer que eles só querem abrir as crianças para ganhar dinheiro.  Por isso pedi a exumação do corpo”.

A reportagem tentou entrar em contato com os médicos citados no processo, mas o Icea informou que eles estão viajando e não podiam ser encontrados. A cooperativa informou que comunicaria os médicos, para que eles procurassem a reportagem, o que não aconteceu até o fechamento desta edição.

 ‘Denúncia incoerente’


A gerente técnica do Pronto Socorro da Criança da Zona Oeste, Eriane Leal de Oliveira, afirmou que a denúncia é “ incoerente”, uma vez que o paciente teve todo o tratamento necessário naquela unidade.

“O senhor Naeff focou em cima de um erro de digitação de um laudo, onde escrevi que houve a ‘retirada de um rim’. Quando na verdade eu quis dizer que na primeira vez que a criança esteve internada, em 2006, foi retirado uma ‘parte’ de um rim devido um abscesso. Quando ele questionou, me desculpei e corrigi o erro”.

A médica explicou que Bóris de Araújo deu entrada no hospital em estado grave. “Assim que foi atendido, o médico logo identificou que o caso era de urgência”. De acordo com Eriane, a primeira cirurgia foi feita para correção de uma fístula (abertura) intestinal, ocasionada pelas cicatrizes de uma operação feita há seis anos.

 “Quando os médicos abriram a criança, viram que o intestino estava perfurado. Nos dias seguintes o paciente apresentou piora, sendo necessário fazer outros procedimentos cirúrgicos. A equipe tentou até o último dia salvar a criança”, completou. Em relação à bolsa coletora de urina que não foi descrita no prontuário, a médica explicou que faz parte do procedimento da colocação de “tela de marlex”.

“Uma tela de marlex faz com que o aparelho do abdômen não se junte, dá mais espaço pro intestino que está inchado. Essa tela pode ser auxiliada por uma superfície de plástico, isso pode ser feito conjuntamente. É o que chamamos de ‘técnica de bogotá. Mas o médico cirurgião não achou necessário descrever no prontuário”, ratificou. 

Mas o médico que fez a cirurgia relatou em depoimento ao Conselho Regional de Medicina (CRM-AM), que a bolsa coletora de urina estéril foi usada em substituição da ‘tela de marlex’ e não “conjuntamente”. O CRM arquivou a sindicância e concluiu que “ao analisar o farto material contido nos autos, o médico denunciado agiu de forma correta quando realizou o procedimento cirúrgico e o CRM não encontrou nenhum indício de infração ao Código de Ética Médica”.


Gerente de sistemas  luta há  quase 15 anos   contra a ‘máfia do tráfico de órgãos’

Em 2000, Paulo Airton Pavesi, 46,  trouxe à tona uma denúncia de que médicos do Hospital Pedro Sanches e da Santa Casa de Misericórdia, ambos em Poços de Caldas (MG), mataram o filho dele, Paulo Veronesi Pavesi - o “Paulinho” -, na época com 10 anos, para abastecer o tráfico de órgãos.  Após 14 anos de investigações e denúncias, dois médicos foram condenados e presos no ano passado, em MG. No entanto, um mês depois, Celso Roberto Frasson Scafi e Cláudio Rogério Carneiro  tiveram o pedido de habeas corpus concedido pela Justiça. Ele, a exemplo do professor Naeff Ribeiro, luta sozinho para provar que o filho foi vítima de uma rede criminosa.    


Como desconfiou que seu filho foi morto para retirada dos órgãos? 

Meu filho sofreu um acidente e foi levado para o hospital. Quando recebi a conta, após a morte dele, percebi dezenas de materiais que estavam sendo cobrados e que não tinham sido usados. Ao questionar a conta, tive acesso ao prontuário e todo o assassinato estava descrito lá, em detalhes.

Para quem você fez a primeira denúncia?

Eu tentei entrar em contato com o Sistema Nacional de Transplantes, mas não localizei nenhum número de contato. Então enviei uma denúncia à ABTO (Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos). Infelizmente a ABTO não tomou nenhuma providência e tentou me oferecer um desconto na conta do hospital para que tudo fosse esquecido. Eu descobri que o irmão do principal acusado pela morte do meu filho fazia parte da diretoria da ABTO.

 Enquanto isso, como você levou a vida?

Minha vida parou. Eu e a mãe do Paulinho nos separamos pois eu não tinha mais tempo para nada. Passava dias  estudando e denunciando o que estavam fazendo. As descobertas que fiz durante estes anos foram encaminhadas para todas as instituições que deveriam fazer alguma coisa, mas nunca fizeram nada. Em 2004 eu consegui instalar uma CPI em Brasília para apurar o caso do meu filho e diversos outros, resultado das minhas pesquisas. A pressão desta máfia é muito forte. Eles possuem braços em todas as instituições, inclusive na imprensa. Em 2002 passei a ser processado e ameaçado por médicos e procuradores. Não satisfeitos com as minhas vitórias, as ameaças de morte começaram a crescer em 2008. Foi neste período que percebi que era hora de deixar o País para poder continuar a luta.

Você recebeu ajuda de algum órgão público na investigação do caso?

Nunca recebi apoio nenhum. Ao contrário. Todas as portas foram fechadas. Eu visitei pessoalmente dezenas de instituições e todas disseram que não podiam fazer nada. Em 2002 eu passei a enviar e-mails para todos os deputados federais em Brasília, quase que diariamente, demonstrando como o meu filho foi assassinado e como a máfia trabalhava fraudando o SUS. A CPI foi tumultuada porque a bancada dos médicos tentou impedir que as investigações andassem. O relatório final concluiu que eu tinha razão e indiciou nove médicos. Este relatório, assim como todos relatório de CPIs, foi enviado para o procurador Geral da República e desapareceu em seguida. Depois de muitos anos consegui descobrir que o relatório havia sido arquivado com a justificativa de que o Ministério Público faz o que quer sem ter que dar explicações a ninguém. 

Já ouviu relatos ou casos parecidos no Amazonas?

A máfia nunca esteve tão atuante como agora. Com a impunidade em casos de tráfico de órgãos em que doadores estão sendo assassinados, criaram uma rede de proteção a esses marginais. Eles operam tranquilamente, com a ajuda da Justiça e do Ministério Público. O procedimento é fácil e também beneficia o governo. O Brasil tem poucos leitos de UTIs disponíveis. A máfia, percebendo isto, tem abreviado a vida de muitos pacientes para que leitos sejam liberados. Eu recebo com frequência muitas denúncias de tráfico de órgãos, inclusive do Amazonas. As pessoas me escrevem e pedem anonimato. Infelizmente não é possível ajudar anônimos a resolver um problema como este.

Por que você acha que os casos são  “abafados” ?

Primeiro porque as pessoas que estão praticando este tipo de crime possuem escudos fortíssimos. Um escudo é o argumento de que se divulgarem casos como o meu, poderá atrapalhar a doação de órgãos, levando as pessoas da fila da espera a óbito. Outro escudo é a influência política. Doação de órgãos traz votos. Há diversos deputados que são padrinhos destes traficantes com influência em muitas instituições. Com este braço político, eles conseguem impedir qualquer investigação mais detalhada. Segundo, porque este tipo de crime movimenta muito dinheiro, sem qualquer esforço.

Após 14 anos, os médicos foram condenados e soltos um mês depois. Sua luta continua?

A luta nunca vai acabar, exceto quando eu morrer. Os médicos já estão condenados, mas continuam soltos. Durante estes 14 anos, ficaram presos apenas 30 dias. Há ainda outros casos que estão sendo julgados e também o júri popular que deve acontecer em 2015  - e que vem sendo adiado desde 2010 sem qualquer explicação. Fora do País, eu posso continuar a fazer as minhas denúncias, sem qualquer medo de retaliação.

O que você diria para o professor Naeff Ribeiro, que também acredita que o filho dele foi vítima do tráfico de órgãos?

Eu não tenho dúvidas, mesmo sem conhecer detalhes do caso, que alguma coisa de errado aconteceu. Como pai, eu entendo muito bem o que o senhor Ribeiro está enfrentando. Infelizmente eu não posso enviar nenhuma mensagem positiva, pois conheço bem a estrutura das instituições no Brasil e posso afirmar, sem medo de errar, que tudo será abafado. Para que ele tenha algum resultado, precisará abrir mão da própria vida, como eu fiz, e enfrentar um grupo poderoso que não mede esforços para calar a boca de quem denuncia. Não há leis para esta quadrilha. E não há qualquer autoridade que tenha coragem de enfrentar essas pessoas.


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