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Após multidão nas ruas, movimentos continuam acampados na frente da ALE-AM e da Câmara

Além de estarem acampados em frente aos dois poderes legislativos da capital amazonense, os dois grupos têm em comum a incerteza do tempo que permanecerão ali 22/07/2013 às 12:13
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Sem prazo para deixar o local, membros do UMM se mantém acampados na calçada da ALE-AM, em Manaus, há 22 dias
Lúcio Pinheiro ---

Depois de dezenas de milhares de pessoas tomarem as ruas de Manaus entre meados de junho e início de julho - embaladas pela onda de protestos em todo o País -, dois grupos entendem que é preciso fazer da ocupação de vias e calçadas um instrumento de luta permanente.

Obstinados em pressionar os 24 deputados estaduais a tomarem decisões que contribuam para a melhoria de políticas e serviços públicos, hoje, jovens integrantes de um grupo intitulado de União dos Movimentos Manaus (UMM) completa 22 dias de acampamento em frente ao prédio da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (ALE-AM), na zona Centro-Sul de Manaus.

No lado oeste da cidade, outro grupo (o Movimento Passe Livre Manaus-MPL) mantém cartazes de protestos espalhados na grade que cerca o prédio da Câmara Municipal de Manaus (CMM), no bairro Santo Antônio. E em frente a entrada principal da casa, do outro lado da rua, permanece acampado há seis dias. Uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do transporte público na CMM e a isenção do pagamento da passagem para estudantes são bandeiras defendidas pelo MPL.


Além de estarem acampados em frente aos dois poderes legislativos da capital amazonense, os dois grupos têm em comum a incerteza do tempo que permanecerão ali. “Não sairemos até que pelo menos 75% da nossa pauta seja atendida”, diz o estudante de Ciência da Computação, José Leite Neto, 31. “Se os vereadores forem sensíveis, a gente vai ficar o menor tempo possível”, afirma o estudante de Urbanismo e Arquitetura Sandro Marandueira, 35.

O UMM montou suas barracas e tendas improvisadas na calçada da ALE-AM no dia 1º de julho. O MPL decidiu montar acampamento na CMM no dia 17, também desse mês. Nesse final de semana, a reportagem de A CRÍTICA esteve nos dois acampamentos para ver como vivem e quem são os membros dos dois grupos.

Por volta de 10h de sábado, no acampamento do MPL, o estudante de Sistema de Informação Yan Mesquita, 22, mexia em alguns objetos abrigados em uma tenda, tentando por um pouco de organização no local. Mais afastado, sobre a calçada, um integrante do grupo dormia em um colchão de ar. E uma moça alternava cochilos entre uma barraca e uma rede. “Outro pessoal está chegando. Saíram para comprar alguma coisa pra gente comer”, explicou Yan.

No domingo, também por volta das 10h, na chegada à ALE-AM, antes de falar com os manifestantes, a reportagem recebeu um pedido de uma policial militar que faz a segurança no local: “Pergunta quando eles  vão embora”. No acampamento, era possível conferir nove pessoas. Um dormia. Mas acordou durante a visita. “Você não tirou foto de mim dormindo, não, né?”, brincou o rapaz. Voltou deitar, dessa vez para ler.

José Leite Neto - Estudante e empresário

Um dos acampados da ALE-AM é o estudante de Ciências da Computação e empresário, José Leite Neto. “Trabalho na área de informática. Tenho um escritório”, afirma Neto, como é chamado no local.

Neto tem 35 anos, é casado e mora no bairro Dom Pedro, na zona Oeste. Segundo ele, a mãe é uma das maiores incentivadoras da permanência dele no acampamento. Já a esposa só passou a apoiá-lo quando percebeu que o marido e os demais manifestantes poderiam ter sucesso em alguma pauta. “No início ela foi contra, porque dizia que era um esforço em vão, que não ia dar em nada”, lembra o empresário.

O estudante disse que trabalha no horário comercial, e à noite se dedica ao acampamento. “À noite vou para a faculdade, e depois venho para a ALE-AM, geralmente por volta das 22h”, explica.

Como todos que fazem hoje parte do acampamento, Neto não tem filiação partidária. E o grupo se define como apartidário. “Não queremos pessoas ligadas a partido aqui para que depois elas não utilizem o movimento para se promover”, explica Neto.

Um dos manifestantes que tinha ligação com PDT, afastou-se do grupo há 10 dias. “Ele saiu para seguir um tratamento de saúde, aí nó pedimos para ele se afastar do movimento”, contou Neto.

Yan Mesquita - Estudante e estagiário

O estudante Yan Mesquita, 22, do acampamento do MPL, é filho de uma dona de casa e um policial militar. Em casa, ele ouve opiniões diferentes sobra a participação dele na luta do movimento. “A minha mãe me apoia mais que o meu pai. Ele fica preocupado por causa do perigo de dormir na rua. Por isso, não apoia muito”, conta o estudante.

Durante o dia, Yan é estagiário em um órgão público e participa das atividades do grupo. À noite, o jovem cursa Sistema de Informação, em uma universidade particular. Sexta-feira, foi a primeira noite que ele dormiu no acampamento.

“Acho que dormi umas cinco horas. Não dá para dormir todo mundo. Nem todos dormem no mesmo horário, por causa da segurança. Sempre tem alguém que fica acordado para vigiar”, explica Yan.

Morador do bairro Nova Cidade, na zona Norte, Yan disse que sempre se interessou por manifestações pró-estudantes. “Conheci o grupo numa manifestação no Terminal 1. Desde lá, acompanho. Só vamos sair daqui com a instalação da CPI. Acreditamos que vamos conseguir”, diz o estudante.

Sandro Marandueira - Bancário e universitário

O técnico bancário e estudante de Urbanismo e Arquitetura Sandro Marandueira, 35, disse que não planejou viver o que tem vivido nos últimos seis dias. “Eu não escolhi está aqui. De repente, a gente se viu aqui. No meu caso, agora, não dá para recuar”, diz ele.

O MPL não tem líder, mas Sandro é o membro que tem mais visibilidade desde que o grupo chegou à CMM. É o escolhido para falar com a imprensa. “Mas não há liderança aqui. Eu já fui voto vencido várias vezes”, conta o universitário.

Sandro é paranaense. Filho de uma professora e de um produtor rural, ele está radicado em Manaus desde 1998. Em 2000, ele conta que a admiração por políticos como Jefferson Peres e Leonel Brizola o fez assinar ficha de filiação com o PDT. “Mas me afastei do partido depois da morte do Jefferson Peres” diz Sandro.

Segundo Sandro, o MPL é suprapartidário. Para ele, qualquer tipo de radicalismo é perigoso. “Só de estarmos aqui estamos tomando partido. Somos do partido do povo. Se o partido defende o povo, apoiamos. A predominância de apenas um partido gerou o Nazismo”, defende Sandro.

Samara Leandro - Universitária

Com a irmã Saiara, Samara Leandro, 20, estudante de Turismo, alterna as noites no acampamento da ALE-AM. Um problema pessoal, mas que segundo ela atingi milhares de famílias em todo o País (falta de atendimento médico), é o combustível para permanecer ali.

“Estamos aqui pela nossa mãe”, diz Samara. Emocionada, a jovem conta que a mãe, ao descobrir um câncer, só conseguiu atendimento médico quando não era mais possível preservar a mama. “Hoje, ela luta por uma cirurgia reparadora, e não consegue”, desabafa a universitária.

Samara conta que está no 1º período do curso, em uma universidade particular, onde é bolsista de uma programa da Prefeitura de Manaus. “Sou bolsista justamente para ver se diminui as despesas da minha família em casa”, explica a estudante.

“Ficamos indignadas de entrar em um hospital e ver como as pessoas são tratadas. Queremos mudança”, diz a irmã de Samara, Saira. A jovem, com 19 anos, está no ensino médio. A duas moram com os pais, na zona Sul de Manaus. “Para nossa mãe não ficar muito preocupada, durmo uns dias e a minha irmã outros”, conta Samara.

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