Publicidade
Manaus
Manaus

Áreas públicas transformam-se em ‘sindicato dos bebuns’, em várias zonas de Manaus

Grupo de pessoas se reúne nas ruas, calçadas e praças há anos para ingerir bebidas alcoólicas e se confraternizar, quase que diariamente 09/01/2015 às 10:17
Show 1
No ‘sindicato’ da Japiinlândia, Valmir de Albuquerque faz pose com o ‘remédio’
Mariana Lima Manaus (AM)

A mesa de reuniões é o meio fio, a calçada se transforma em cadeiras e a copa é um espaço na calçada separado para a grelha improvisada no chão. O cenário, duplicado em várias zonas da cidade, corresponde ao “sindicato dos bebuns”, áreas públicas escolhidas por moradores para se encontrar com o intuito de beber.

O aposentado Julio César, 56, se denomina um dos chefes do “sindicato” da Japiinlândia. O “escritório” fica ao lado da Feira Municipal da Japiinlândia e conta com uma série de associados. “Aqui é uma família, um sindicato mesmo. Somos todos unidos e nos ajudamos. Quando um está doente o outro pega a ambulância e leva para o hospital até ficar bom e voltar pra cá”, disse.

Nas áreas próximas há tudo o que o sindicato precisa para se manter: uma “farmácia”: o bar próximo que vende as bebidas consumidas; os carros para vigiar e ganhar o trocado para os “remédios”; e ainda a babá, uma moradora próxima que leva dinheiro e comida para os conveniados.

“Eu trabalhei com todo o tipo de gente, como pedreiro. Hoje eu gosto de ficar aqui mesmo com o pessoal. Eles são minha família agora, apesar de não morar com eles direto”, disse o pedreiro Valmir de Alburquerque, passando com uma garrafa de cachaça.

As despesas são divididas entre os associados que conta com a colaboração de moradores da redondeza. “Todos nós moramos por aqui por perto e as pessoas nos conhecem. Ninguém aqui é bandido ou mexe com os outros. Estamos aqui confraternizando”, disse Julio César.

Encontro semelhante é visto no meio fio da avenida Rodrigo Otávio. Sentados em bancos e sob a sombra das árvores, um novo “sindicato” se encontra para dividir uma garrafa de cachaça.

“Aqui discutimos sobre política e futebol, mas sem brigar. Em determinadas horas do dia chega a ficar 30 colegas bebendo junto. Agora que está próximo ao horário do almoço eles descem para tomar banho. Temos casa, mas gostamos de beber aqui na praça junto com o pessoal”, disse Arnaldo, mais conhecido como “Barrabás”.

Barrabás se auto-proclama fundador do sindicato da Rodrigo Otávio. “Comecei a beber aqui com os meus amigos em 1973. Ainda nem sonhava em ter essa rua desse jeito. De lá pra cá já surgiu muita gente e muita gente já sumiu também. Mas todo mundo aqui é organizado e não mexe com ninguém. Sindicato que é sindicato não traz perigo, bebemos porque gostamos”, completou.

Família e moradia

A maioria dos entrevistados por A CRÍTICA alega ter família e moradia fixa. A opção de ir beber na calçada das vias é justificada pela presença de amigos que não são bem-vindos nas residências por conta dos familiares. Grande parte dos entrevistados disse ainda trabalhar como guardador de veículos.

Frase

“Aqui é uma família, um sindicato mesmo. Somos todos unidos e nos ajudamos. Quando um está doente o outro pega a ambulância e leva para o hospital até ficar bom e voltar pra cá”, diz o aposentado Julio César.

“Passamos o dia discutindo política e futebol. Temos times diferentes, mas procuramos não brigar”, diz o também aposentado Arnaldo “Barrabás”.

Publicidade
Publicidade