Quinta-feira, 02 de Dezembro de 2021
DEBATE

Arquidiocese de Manaus alerta para aumento do consumo de álcool e drogas na pandemia

Assunto veio à tona durante discussões da Semana Nacional sobre Drogas. Isolamento e suspensão de grupos de autoajuda elevou dependência



WhatsApp_Image_2020-06-29_at_21.32.49_C95EE150-A066-43E3-B54B-E433592FEF65.jpeg Foto: Arquivo/Agência Brasil
29/06/2020 às 21:44

O aumento no consumo de álcool e drogas durante a pandemia da Covid-19 é uma realidade “invisibilizada” que aflige e preocupa a parcela da sociedade que combate essa situação. O assunto veio à tona nos últimos dias durante as discussões da Semana Nacional sobre Drogas.

“Estamos em isolamento social e com isso os grupos de autoajuda estão sem funcionar, uma vez que funcionam nas paróquias. Realmente estamos muito preocupados com essa ausência de autoajuda pessoal, pois o consumo de drogas continua crescendo. Enquanto estamos parados os usuários continuam consumindo seus entorpecentes, apenas houve uma queda nos consumos de álcool de esquina. É o que tenho observado quando tenho oportunidade de sair”, disse Roseneide Silva, coordenadora da Pastoral da Sobriedade da Arquidiocese de Manaus.



No último sábado, a Arquidiocese organizou uma live com a presença de Roseneide em alusão à Semana Nacional sobre Drogas, com o tema “Sobriedade, compromisso de amor” e o lema “...amai-vos também uns aos outros” (João 13,34), realizada de 19 a 26 deste mês, que trata das consequências do uso abusivo de drogas lícitas e ilícitas.

A reunião via internet era para prevenir e alertar a população das consequências do uso dessas drogas e sua dependência, além dos tratamentos adequados.

“O álcool é tão perigoso quanto às drogas e nem sempre você precisa internar o dependente”, comentou a coordenadora da Pastoral.

De acordo o padre Geraldo Bendaham, coordenador de Pastoral da Arquidiocese de Manaus, a ansiedade e frustração geradas na pandemia foram como uma espécie de “subterfúgio para a utilização de um produto que mata crianças, jovens e adultos e que está acessível em todas as zonas de Manaus”.

O religioso analisou que quem “rouba e superfatura no Amazonas não tem coração” e que a “Igreja faz o mínimo, mas é importante fazer alguma coisa”. Na avaliação dele, o isolamento social não foi total em Manaus, “no máximo 60% e certamente as pessoas tiveram acesso a tudo isso, sem rotina de trabalho em casa; os roubos continuaram na cidade mesmo na pandemia, que impactou o consumo, mas não o fez diminuir”.

Padre Bendaham lembrou que a proibição do transporte fluvial diminuiu o tráfico de drogas, mas que os criminosos são uma “turma de artistas que conseguem fazer o que querem, vão de um lado para o outro e conseguem traficar a droga de avião no aeroporto”.

De acordo com o psicólogo clínico e especialista em dependência química, Plínio Benfica, tudo que se falar sobre aumento do consumo de álcool e drogas ainda é suposição, “mas é sabido que existe uso de consumo de álcool e drogas durante as crises que a humanidade passou”.

Conforme ele explicou, “houve aumento do álcool depois da Primeira Guerra Mundial e pode-se inferir que nessa questão estressante da pandemia que há a explosão de álcool e droga”.

Benfica alertou que “a dependência é uma doença crônica e não aguda e a recuperação não é um evento e sim um processo”. 

Alcoólicos Anônimos tem 120 grupos no AM

O Alcoólicos Anônimos (AA) atua desde 1971 no Amazonas, sendo que a fundação do grupo no bairro Coroado, Zona Leste de Manaus, onde está sediado, foi em 8 de janeiro de 1979.  Hoje há cerca de 120 grupos no Estado que trabalham com a recuperação daqueles que procuram a entidade.

O grupo se reúne as terças e sextas-feiras às 19h30 e aos domingos às 17h na rua Ouro Preto, nº 457, no Coroado 2, e possui o telefone de contato (92) 3232-4545 (segunda-feira à sábado). 

Já a coordenação da Fazenda Esperança, uma das entidades de recuperação de dependentes químicos mais famosas em Manaus, confirmou que nos últimos meses houve aumento de pessoas em busca de recuperação.

A reportagem de A Crítica entrou em contato com a Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM) para verificar os números de aumento de consumo de entorpecentes e álcool na pandemia e obter o comentário de alguma autoridade. Mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.

OMS foca na saúde mental devido abuso com bebidas

Um aumento no consumo de álcool é uma área de preocupação dos especialistas em saúde mental. Estatísticas do Canadá relatam que 20% das pessoas de 15 a 49 anos aumentaram  seu consumo de álcool durante a pandemia.

Serviços comunitários, como grupos de autoajuda para dependência de álcool e drogas, em muitos países não conseguem se reunir há vários meses. “Agora está claro que as necessidades de saúde mental devem ser tratadas como um elemento central de nossa resposta e recuperação da pandemia de COVID-19”, afirmou Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS). 

“Essa é uma responsabilidade coletiva dos governos e da sociedade civil, com o apoio de todo o Sistema das Nações Unidas. Uma falha em levar o bem-estar emocional das pessoas a sério levará a custos sociais e econômicos a longo prazo para a sociedade”, acrescentou o chefe da OMS.

Repórter de A Crítica

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