Quinta-feira, 20 de Junho de 2019
Manaus

Árvores de Manaus testemunham histórias de moradores

No último sábado (21) foi oficialmente o dia de festejar estes seres vivos que testemunham histórias, amores, tristezas e poesias



1.jpg Raimundo e Edna se divertem com a história da 'árvore do desejo', por onde nenhuma grávida passa sem pedir uma manga
21/09/2013 às 17:55

Testemunha de uma vida feliz, a “mangueira do desejo”, como é chamada carinhosamente pelos donos, está na família dos aposentados Raimundo Gomes Lima, 80, e Edina Lago Rodrigues, 79, há 60 anos e acompanhou o crescimento da clã. “Festas de aniversários, nascimento de filhos e netos, morte do marido, a mangueira sempre esteve aqui fazendo sombra nas tardes quentes”, lembra Edina com saudades.

A mangueira recebeu o apelido carinhoso por que todas as mulheres grávidas que passam em frente à casa não resistem e acabam pedindo para tirar uma fruta. Ela foi plantada supostamente por um primo falecido de Edina, João Garapa, e ainda hoje satisfaz o desejo de quem passa pelo local na rua Japurá, bairro Praça 14 de Janeiro, Zona Centro-Sul. “Ninguém sabe se foi realmente João Garapa que plantou, para mim o caroço caiu e cresceu e hoje faz parte da história da familia”, disse Raimundo.

Para Edina muitos foram os momentos testemunhados pela árvore, mas a ocasião mais triste foi quando o marido dela faleceu e ela ficou sozinha com os filhos. Mas nem só de tristeza foram os 60 anos da mangueira do desejo: as rodas de samba, a reunião com os vizinhos e família para ouvir um bom samba são uma tradição que não pode ser esquecida.

Hoje a família está consolidada, os filhos construíram famílias e a mangueira segue fazendo sombra para os idosos que todas as tardes se sentam debaixo dela para apreciar o movimento da rua e conversar.

Testemunha ocular

Outra que tem uma história especial com as árvores é Adalgisa Soares Felicio, 92. Trabalhando há 60 anos vendendo tacacá na praça Heliodoro Balbi, conhecida como praça da Policia, a comerciante viu os benjaminzeiros do entorno da praça serem plantadas há 40 anos. Adalgisa conta que brigou muito com pedestres que passavam pelo local e arrancavam folhas das árvores enquanto elas cresciam. “Ninguém gosta de ser beliscado, então eu defendia as árvores por que elas também não gostam e não mereciam ser incomodadas”, lembrou Adalgisa.

A comerciante acrescenta ainda que quem vê as árvores bonitas dando sombra para quem passa na praça não sabe o quanto elas sofreram nas mãos dos pedestres.

Segundo Adalgisa muitos namorados fizeram pedidos de casamento embaixo das árvores da praça da policia e para ela ter acompanhado tudo de perto é motivo de orgulho e de alegria, além de lhe fazer lembrar todos os dias que as árvores devem ser preservadas para que mais gerações possam aproveitar esse momento.

Mulateiro ‘embalou’ poetas


Também na praça Heliodoro Balbi outra árvore chama atenção: é um Mulateiro que viu nascer o famoso “Clube da Madrugada”, o principal movimento da literatura amazonense’. Um dos poucos integrantes do clube que ainda freqüentam a praça, os amigos Vicente Evangelista e Vicente Parente quase todos os dias “batem papo” no local e relembrar a época. Vicente Evangelista conta que o grupo formado principalmente por professores do colégio Amazonense Dom Pedro II (Estadual), e por quem freqüentava o café do Pina aproveitavam o horário para se reunir e falar de um assunto comum a todos, a poesia.

O mulateiro até hoje permanece intacto na praça testemunhando novas histórias. “Se essas árvores falassem contariam tantas passagens”, enfatizou Vicente Parente.

Movimento repensa relação urbana


Nascido de um desabafo em rede social, ativismo chama atenção para a preservação de árvores dando a elas o nome de moradores de bairro tradicional

O “Manaus Direitos Urbanos” é um movimento formado por moradores do bairro Adrianópolis e surgido após a reforma da praça Nossa Senhora de Nazaré. Tudo começou quando a empresária Sueli Moss questionou nas redes sociais o fato da prefeitura quebrar a praça para criar vagas de estacionamento.

Segundo Sueli o movimento iniciou como desabafo para os amigos, que se perguntaram sobre o fato de os ambientalistas pregarem a diminuição no uso do carro e o poder público quebrar uma praça, que é um espaço que serve para o bem o comum para colocar mais carros.

Depois desse primeiro momento de desabafo outras pessoas se uniram a Sueli e formaram um grupo para reivindicar. “Nós fizemos uma manifestação, a obra chegou a ser embargada, fomos até o Ministério Público, mas infelizmente não fomos atendidos por que uma parte dos moradores do bairro concordaram com a obra”, contou Sueli.

Durante a manifestação os 30 moradores envolvidos levaram mudas e fizeram um documento enviado ao Ministério Público. Depois que a obra continuou os envolvidos resolveram promover ações para ocupar o espaço, com saraus e oficinas.

Além disso, o movimento buscou homenagear os moradores mais antigos do bairro, colocando o nome deles nas árvores da praça. Até o momento cinco moradores foram homenageados. De acordo com Sueli Moss a praça tem 35 árvores e mais moradores serão homenageados em breve.

Para a empresária quem participa do movimento se preocupa com o bem estar não só da praça Nossa Senhora de Nazaré mas de todos os espaços públicos de Manaus que precisam ser preservados. “São pessoas que fazem a diferença na sociedade”, diz ela.

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