Segunda-feira, 10 de Agosto de 2020
MEMÓRIAS

As lembranças de quem esteve lado a lado com São João Paulo 2° em Manaus

Visita do então papa, há 40 anos, nos dias 10 e 11 de julho de 1980, ficou para sempre na memória e no coração de quem acompanhou, de perto, a chegada do sumo pontífice na capital amazonense



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12/07/2020 às 13:20

A visita do então papa e hoje São João Paulo 2° (1920-2005) a Manaus, ocorrida há 40 anos nos dias 10 e 11 de julho de 1980, ficou pra sempre na memória e no coração das pessoas que acompanharam, de perto, literalmente, a chegada e passagem do sumo pontífice pela capital do Amazonas.

Então com 2 anos de idade e filha de pais que eram bem participativos na Igreja Católica – o radialista Francisco Vilaça e a dona de casa Deusimar Santos Vilaça - a funcionária do setor comercial da Rádio Rio-Mar, Pollyana Vilaça é conhecida como a “Menina do Papa": ela foi carregada no colo pelo religioso que adentrava a sede do arcebispado na avenida Joaquim Nabuco, onde João Paulo 2° ficou hospedado.



“Até hoje é uma emoção muito grande relembrar esse fato. Eu e meus pais estávamos no arcebispado e ninguém entrava nem saía. E para nossa surpresa e benção o papa entrou através do portão principal, onde também estavam fotógrafos, e eu estava em um pilar com uma papoula murcha na mão. Ele me carregou no colo, brincou um pouco comigo e abençoou meus pais. É um momento muito especial para nossa família e para nós até hoje”, relembra ela, dizendo também ter lembranças dos representantes indígenas que estavam no arcebispado naquela noite.

A emoção continua até hoje. “O papa perguntou para os meus pais: ‘Você é o pai, a mãe?’ E os abençoou. Sempre que falamos desse momento da visita, minha mãe diz que diante daquela multidão, no meio da agitação, ao olhar o rosto rosa dele sentiu paz, serenidade!’.

Gratidão e reflexão

A “Menina do Papa" disse que não pensava que, após tantos anos, em 2014 o papa se tornasse santo após a canonização. Passados 40 anos do histórico encontro, o sentimento é de gratidão e reflexão.

“Me sinto abençoada e é uma gratidão tremenda que eu tenho com Deus. Foi uma ocasião muito especial, uma emoção grande ainda mais nestes tempos onde a reflexão diária é mais intensa e que me faz pensar que eu também tenho essa missão de levar o Evangelho e a boa Palavra a quem está ao nosso redor”, comentou Pollyana Vilaça.


Pollyana guarda até hoje o macacão que usou no dia em que virou a "menina do Papa". Foto: Arquivo Pessoal

Linha de frente da visita, Robério se emociona com lembranças

O ex-secretário de Cultura do Estado do Amazonas (SEC) e colunista de A CRÍTICA, Robério Braga, foi um dos coordenadores responsáveis pela organização da vinda de São João Paulo 2°.

À época ele era secretário de Estado de gabinete do vice-governador Paulo Nery e coordenou a área civil da organização, com a parte militar ficando a cargo do coronel Monnerat, chefe da 2ª Seção do Comando Militar da Amazônia (CMA) e responsável pela segurança e questões como credenciamento de imprensa.


À época, Robério Braga foi um dos coordenadores da visita do Papa. Foto: Arquivo/AC

Por parte da Igreja Católica, o acompanhamento foi feito pelo arcebispado da época, dom Milton Corrêa Pereira, e pelo pároco da Catedral Metropolitana, cônego Walter Nogueira, segunda maior autoridade religiosa.

“Desenvolvemos todas as atividades preparatórias em menos de 15 dias porque quando se confirmou a vinda já estava em cima da data. Mas foi tudo feito adequadamente. Organizamos o planejamento e a execução da programação de eventos como a chegada dele à cidade, o trajeto, o encontro com as populações tradicionais na Arquidiocese quando os caciques fizeram discurso e entregaram documentos, os preparativos para sua moradia na Catedral, o cortejo, distribuição de pessoas na rua...Tudo feito por uma equipe de 12 pessoas: nós nos multiplicávamos. Foi o primeiro grande evento que eu coordenei”, disse Robério, então com 28 anos de idade.

Além disso, conta ele, a organização cuidava da infra-estrutura que tornou possível momentos históricos como a procissão fluvial e a Santa Missa em uma Praça Francisco Pereira da Silva, a Bola da Suframa, antes um descampado com morrinhos e no qual só havia grama. Entrou em cena a criatividade da organização: foi construído um lago artificial que tinha da vitória-régia a peixes. E o palco onde estava o altar foi concebido em formato de cruz, numa concepção do artista manauense Jair Jacqmont.

O momento do qual Robério Braga considerou mais impactante e emocionante da presença de João Paulo 2° em Manaus foi quando o pontífice se despediu da cidade.

“Ele agradeceu a todos que trabalharam. A maneira com que ele se portou, a demonstração de profunda humildade. Na sua chegada houve o beijo no chão, mas na saída houve gestos como a bênção especial, a gratidão dele. Uma coisa que me impressionou bastante e que eu percebi na profissão fluvial foi que ele entrou depois da missa encharcado de suor, foi ao toalete, acho que só lavou o rosto, não demorou dois minutos, segurou no cajado, passei 30 segundos apoiado nele e quando levantou a cabeça parecia outro homem, um menino. Ele tinha uma capacidade física, uma resistência em meio ao calor infernal de Manaus”, relata ele.

Afeto e amor

O escritor conta que falar da visita após 40 anos lhe traz a lembrança do ser amoroso e afetuoso que João Paulo 2°, nascido na Polônia como Karol Józef Wojtyła, traz para ele.

“Até hoje é permanente, na minha visão, quando penso nisso e lembro do que ocorreu, a presença dele, profundamente imantando uma energia altamente positiva, uma coisa leve, de uma pessoa que inspirava carinho, um afeto, amor, ternura. Era uma figura grande, de ombros largos, mas terna“, disse o intelectual, com a voz embargada, ao telefone.

“Ele comeu caldeirada de tucunaré e tambaqui assado”

Nos dois dias em que esteve em Manaus, São João 2° se alimentou com peixe oriundo do tradicional restaurante Canto da Peixada, de propriedade do comerciante Aldenor Ernesto Lima, 81.


Aldenor conta que o Papa comeu do peixe amazônico no seu restaurante. Foto: Arquidiocese de Manaus/Rafaella Moura

“Ele fez questão de comer o nosso peixe”, diz ele, que no dia 10 serviu ao religioso caldeirada de tucunaré e, no dia seguinte, costela de tambaqui na brasa”, contou ele anteriormente, por diversas vezes, para A CRÍTICA.

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Repórter de A Crítica

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