Quarta-feira, 12 de Maio de 2021
EDUCAÇÃO

Asprom aprova 'Estado de Greve' contra retorno presencial das aulas na rede pública

Segundo a entidade, a volta representa grande risco e perigo para toda a comunidade escolar devido à pandemia do novo coronavírus



estado_de_greve_A2DA48A0-8D70-4AA0-A9D2-137CB7D51666.JPG Foto: Divulgação
18/07/2020 às 12:28

Os professores da rede pública de ensino se encontram em “estado de greve”. A decisão foi tomada pela direção do Sindicato dos Professores e Pedagogos das Escolas Públicas do Ensino Básico de Manaus (Asprom Sindical), em assembleia geral na última sexta-feira (17), caso as aulas nas redes estadual e municipal retornem em agosto sem as adaptações necessárias nas estruturas dos prédios que diminuam os riscos de infecção pelo novo coronavírus em sala de aula – como totens de álcool em gel nos prédios e ventilação natural.

Como explicou o diretor financeiro do Asprom Sindical, Lambert Melo, “estado de greve” é o anúncio oficial que uma categoria profissional faz ao “patrão” de que ela estará permanentemente se organizando para promover uma greve, caso um problema existente não seja resolvido. “Por enquanto, a posição oficial das secretarias é de que não há data definida para o retorno, mas sabemos que eles estão trabalhando para que o retorno aconteça imediatamente”, pontuou.

“Antes de qualquer coisa, é necessário que as secretarias de educação façam reformas nas janelas de todas as salas de aulas das escolas públicas. Atualmente, muitas delas não têm nenhuma ventilação natural. Então, não adianta dizer que vai atender aos protocolos de segurança se não houver essas reformas como essa”, disse.

Melo argumentou que junto a isso deve haver a garantia de que os ônibus não transportem passageiros em pé (principalmente estudantes). “Os ônibus só devem transportar passageiro sentado. Sem essas medidas básicas, não vai adiantar nenhum protocolo de segurança no interior das escolas”, apontou, acrescentando que a maiorias das escolas públicas não oferecem infraestrutura adequada que assegure a saúde de professores, alunos e demais servidores. 

De acordo com uma professora da rede estadual de ensino, que preferiu não se identificar, a escola onde ela leciona, no Alvorada, zona Centro-Oeste de Manaus, tem apenas um banheiro disponível aos professores, onde, segundo ela, mal há detergente e papel higiênico. 

“Não houve grandes adaptações na estrutura do prédio que garanta um retorno seguro. Deveria ter totens e álcool espalhados pela escola e máscaras descartáveis disponíveis para alunos e professores - não há nada disso”, disse.

“Ainda por cima, mesmo que voltemos com o ensino híbrido [que mescla aulas virtuais e presenciais], como vamos orientar os alunos que ficarem em casa se na escola onde trabalho não há uma internet própria? Nós, professores, que temos que tirar dinheiro do nosso bolso para termos internet. Como querem que voltemos com todos esses problemas?”, questionou.

A Secretaria de Estado de Educação e Qualidade de Ensino do Amazonas (Seduc-AM) foi procurada por A CRÍTICA para comentar os problemas apontados pela professora, mas não retornou até o fechamento desta reportagem. Já a Semed informou, por meio de sua assessoria, que ainda não há data para o retorno das aulas presenciais e que o mesmo se dará apenas após deliberação dos órgãos de saúde.

Atualmente, as duas secretarias seguem sem uma data oficial para o retorno às aulas presenciais. Por enquanto, os professores seguirão orientando alunos, elaborando exercícios e fazendo chamadas de forma remota pelo projeto “Aula em Casa”, cujas aulas têm sido transmitidas pela TV aberta e pela internet aos alunos da rede pública estadual e municipal.

Aulas nas escolas particulares

As creches e escolas da rede privada retornaram às aulas presenciais na primeira quinzena de julho como parte do quarto ciclo do plano de reabertura do governo estadual. De acordo com o Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino Privado do Estado do Amazonas (Sinepe-AM), no primeiro dia de aula, em 6 de julho, pelo menos 70% das instituições associadas retomaram as atividades escolares.

A vice-presidente do Sinepe-AM, Laura Cristina Vital, ressaltou que, com relação ao balanço de frequência, em média 60 % dos alunos retornaram às aulas presenciais nos primeiros dias.
“Sabemos que alguns pais e responsáveis vão aguardar a passagem do mês de julho para avaliar se os números da pandemia ainda continuarão favoráveis em Manaus. Nesse caso, se o número de infecções e de mortes continuar em queda, acredito que até agosto, mesmo que de forma híbrida, essa frequência aumente para 80%”, projetou.

Mesmo com a retomada das aulas na rede particular, engana-se quem pensa que as aulas presenciais é uma unanimidade. Muitos pais têm demonstrado receio e dúvida sobre voltar à rotina escolar com segurança. A preocupação maior tem sido com o ensino infantil.

Entre as famílias que não concordam com retorno escolar na primeira quinzena de julho está a da psicóloga Rachel Aragão, que considera o retorno escolar precoce enquanto o vírus continuar circulando na cidade, tendo em vista todo o desconhecimento sobre a Covid-19, a falta de uma vacina e de uma medicação específica eficaz e comprovada no tratamento da doença.

“Minha filha está em casa desde março, logo que saiu o decreto do isolamento social. Então, mandá-la pra um ensino presencial sem um método de prevenção eficaz nem tratamento é desperdiçar todo o esforço que fizemos até agora, colocando minha filha em um ambiente vulnerável. Não só ela, mas também a professora e os demais colaboradores da escola continuam correndo risco de contágio como há três meses atrás”, disse ela.

“Eu entendo todo esforço que a escola está fazendo, mas é muito complexo. Muitas pessoas já não cumprem mais as normas de higienização e de distanciamento social. Todos os dias vemos pessoas que já não usam máscaras e algumas delas podem passar pela escola e ter contato com minha filha de alguma forma ou com a professora, por exemplo”, pontuou.
A psicóloga também destacou as dificuldades em manter normas de segurança no ensino infantil, pois, na prática, seria impossível ter o total controle das ações espontâneas das crianças.

“Por mais dedicação que a professora tenha, crianças nessa idade são expressivas, gostam de contato. Muitas não conseguem ficar muito tempo com a máscara e acabam levando as mãos aos olhos e à boca; até porque elas, mesmo inteligentes e desenvolvidas, não têm o controle desses comportamentos, ditos como reflexo. Ou seja, se sentir coceira, vão coçar os olhos; se sentirem que a máscara está abafando a respiração, vão puxar. É uma dinâmica totalmente diferente da qual estão acostumadas”, explicou.

O jornalista Junior Oliveira compartilha da mesma opinião. Pai de um menino autista de quatro anos de idade, ele não se sente seguro em enviar o filho de volta às atividades escolares presenciais nesse momento, até porque, como ele salientou, nem toda criança consegue ficar muito tempo usando máscara ou tem o costume de usar álcool em gel com frequência.
“Até mesmo pelo meu filho ser autista, optei por não autorizar o retorno dele à sala de aula. Por mais que as mortes tenham diminuído em Manaus, o número de casos continua grande. Por precaução, é melhor perder o ano escolar do que perder a vida do meu filho”, disse.

Retorno de atividades presenciais pode gerar novo pico de coronavírus, diz especialista

O biólogo Lucas Ferrante, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), esteve na assembleia geral do Asprom Sindical, na zona Norte de Manaus, ministrando palestra aos professores sobre o cenário da pandemia no Amazonas. Ferrante alertou que, em agosto, o Amazonas pode ter um novo pico no número de casos confirmados e pode passar de 5 mil mortes pela Covid-19. 

“Avisamos o governo estadual de que ainda não era o momento ideal para abrir o comércio e muito menos as escolas, mas, pelo menos no primeiro caso, não nos escutaram. Para exemplificar, Blumenau [Santa Catarina] foi uma das primeiras cidades brasileiras a reabrir os shoppings centers. A pandemia piorou e, hoje, a cidade “pede socorro”. Manaus não é uma exceção no mundo”, alertou.

“Se em abril tivéssemos aderido a um isolamento radical no País, estaríamos em melhor situação. As salas de aula de Manaus não são arejadas; dependemos de ar-condicionado, o que aumenta as chances de infecção de crianças que, geralmente, assintomáticas, espalham ainda mais o vírus. O matemático Eduardo Massad, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), afirmou que, caso aconteça uma reabertura precipitada das escolas no Brasil, o País pode saltar de 300 mortes de crianças abaixo de 5 anos para 17 mil até o final do ano”, disse.



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Repórter do caderno Cidades do jornal A Crítica. Jornalista por formação acadêmica. Já foi revisor de texto de A Crítica por quatro anos e atuou como repórter em diversas assessorias de imprensa e publicações independentes. Também é licenciado em Letras (Língua e Literatura Portuguesa) pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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