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Através de gerações, ONG no bairro Zumbi sobrevive fazendo o Natal o ano inteiro

Arte, música, produção de instrumentos, inglês e informática. Há 16 anos, entidade trabalha com crianças e jovens na periferia de Manaus. Espaço é oportunidade para prática de educação e conhecimento 20/12/2014 às 18:11
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Grupo de alunos da ONG Oela se reuniu para um recital de natal
VINICIUS LEAL Manaus (AM)

Apertando a ponta dos dedos sobre as cordas do violão, pequenos acordes de “Asa Branca”, canção de Luiz Gonzaga, saíam, mesmo que de forma tímida, do instrumento tocado pela pequena Ellen Caroline Menezes Neves, de 11 anos. Ao redor, outras crianças e adolescentes, cada um com seu violão ou sua flauta, ensaiavam o tom de um recital de Natal.

“Minha mãe fez o primeiro cavaquinho dela aqui. Ela estudou aqui também. Passou muitos anos, mas ela não aprendeu a tocar”, disse Ellen, aos risos. Com um chapéu de Papai Noel, ela e outros colegas, muitos moradores daquele bairro, se apresentaram momentos depois para pais e os professores, cantando e tocando a música “Noite feliz”, na versão em inglês.

“Minha mãe estudou aqui. Agora ela colocou eu e a minha irmã, porque a gente ficava muito tempo em casa, sem fazer nada”. A mãe, Simone Menezes Neves, 32, se encantou com a apresentação. “Ela é chorona, e vê a gente se esforçando”, conta Ellen. Além dela, a irmã de 13 anos também tocou no recital de Natal da Oficina Escola de Lutheria da Amazônia (Oela), entidade de direito privado sem fins lucrativos (ONG).

A história de talento e aprendizado para crianças e adolescentes carentes, com idades entre 8 a 18 anos, se repete há 16 anos naquela região – conjunto São Cristóvão, bairro Zumbi 2, Zona Leste da capital. Jovens, que durante os anos 1990 formavam os grupos criminosos chamados “galeras”, foram resgatados e transformados nos primeiros membros da Oela – trabalho iniciado por Rubens Gomes, fundados da entidade.

“Eles tinham ausência de estudo, era uma comunidade urbana, mas totalmente abandonada”, conta Rubens. Segundo ele, antigo professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), os adolescentes andavam armados com facões pelas ruas, e cometiam crimes brutais que estampavam as páginas dos jornais da cidade.

“Para entrar aqui (sede da Oela), eles tinham que entrar sem armas. Eles me davam, participavam das aulas, e no final eu devolvia tudo. Só assim eu conseguia trazê-los para cá. E eles mesmos que produziam aquelas facas”, relata Rubens. Com o passar dos anos, os jovens cresceram, e os filhos deles agora fazem parte do grupo de alunos da Oela.

Ateliê

No quintal da casa de Rubens, duas casas ao lado da atual sede, funcionava a atividade que deu início à Oela: a produção de instrumentos musicais de cordas dedilhadas e caixas de ressonância, violões e flautas – sempre com madeiras amazônicas manejadas e certificadas. Anos depois, o ateliê onde eram fabricados os instrumentos foi transferido para um galpão no bairro Tarumã, Zona Oeste (em frente ao clube da Azel).

Entretanto, hoje em dia, a fabricação de violões e flautas está desativada por problemas com financiamento – a Oela sobrevive com recursos públicos e privados doados por empresas e governos, ou através de editais. Antes, aproximadamente 30 violões eram produzidos por dia


Maria, a mãe Simone, e a pequena Ellen

Ellen e a irmã, cada uma, têm o próprio violão, comprados na própria fábrica de instrumentos da Oela. A maioria dos jovens ali também possui instrumentos e têm contato com a música desde cedo, com as aulas de música. “Minha amiga me convidou para eu me inscrever na Oela. Foi aqui que eu aprendi a tocar”, contou Marilena Martins dos Santos, de 11 anos.

Equipe

Com o passar dos anos, a Oela se tornou parte da vida de ex-alunos, que atualmente são funcionários da ONG e coordenam trabalhos lá dentro. A participação deles, como aprendizes, se transformou em atividade laboral. E a maioria mora no bairro Zumbi. É o caso de Gerson dos Santos Aranha, 20 anos, que hoje é secretário e estudante de Pedagodia, mas entrou pela primeira vez na entidade aos 15 anos.

“Muitos saíram daqui com objetivos, porque os jovens entram sem foco nenhum. A gente mostra que eles podem correr atrás dos sonhos. A gente planta aquela ‘sementinha’ neles”. Gerson fazia aulas na Oela, e depois, com o passar dos tempos, passou a fazer parte do quadro de pessoal, passando por vários setores. Hoje, a Oela tem 25 funcionários.

Esporte

Além do ateliê e das aulas de música, a Oela mantém o Centro de Referência de Esporte no Amazonas, local aonde jovens praticam esporte também gratuitamente, com sede no bairro Colônia Antônio Aleixo (rua Padre Ramos). Seis modalidades estão à disposição dos alunos: jogos e brincadeiras, natação, taekwondo, remo e jiu-jitsu. Cerca de 30 crianças participam do Centro.

Aulas

Informática, inglês, português, matemática e música. As aulas disponíveis aos alunos da Oela são ministradas por professores que também aprenderam a tocar música lá, ou que conheceram a entidade através dos famosos violões. “Comprei um violão daqui de um rapaz que fez o curso aqui. Pesquisei na internet e me inscrevi para ser professor”, conta o violonista Guilherme Munhoz, 26 anos.

“Aqui eles não ganham bolsa (como outros projetos sociais), estão aqui porque realmente estão interessados na música”, completou Guilherme. Segundo ele, em 2014 sete turmas com dez a 12 alunos aprenderam a tocar violão ou flauta duas vezes por semana, com 1h30 de duração em cada sessão. Ao todo, em todas unidades, a Oela atende cerca de 2 mil alunos.

Além das aulas, as crianças e adolescentes da Oela têm acesso a serviço de assistência psicossocial, debates de desenvolvimento crítico sobre temas como exploração sexual, direitos sociais, drogas, e também acesso a cursos de formação profissional do Coletivo Coca-cola, que mantém unidade dentro da sede da Oela.

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