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Manaus
Crianças

Aumento de casos de violência sexual contra crianças preocupa pais e autoridades

Enquanto milhões de pessoas procuram aquele presente especial para o Dia das Crianças, muitos pequenos vivem sob o medo e a violência, ou, pior, não estão sequer mais vivos para desfrutar desta data 11/10/2016 às 11:57 - Atualizado em 11/10/2016 às 18:58
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Crianças continuam sofrendo vários tipos de agressão de quem deveria apenas lhe proteger e cuidar do seu futuro
Dani Brito

Amanhã, no Brasil inteiro milhões de famílias comemoram com seus filhos, sobrinhos, netos e afilhados, o Dia das Crianças! Contudo, o que poderia ser uma grande festa acaba sendo um motivo de alerta sobre o que a sociedade está fazendo com esses pequenos inocentes. “A gente nunca acha que o mal pode acontecer dentro de casa, mas isso é um grande engano. Minha filha foi vítima do próprio pai, um homem que deveria proteger e não agredir”, desabafou uma dona de casa, mãe de uma bebê de sete meses que foi estuprada pelo pai, semana passada, no São José.

Só na capital, foram registrados 1.932 casos de violência contra crianças este ano, sendo 45 homicídios. “O abuso sexual não tem classe econômica, social e intelectual. Ele acontece em todas as camadas sociais”.

A afirmação é da delegada titular da Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca), Juliana Tuma. Contudo, as famílias com baixa renda sofrem mais com estes casos, uma vez que nas zonas onde elas moram existe um inchaço populacional e falta de políticas públicas. “Muitas vezes esses pais saem para trabalhar e não com quem deixar seus filhos, daí abre a oportunidade para o possível agressor se aproximar dessas crianças”.

Números preocupantes

E não é só o estupro que preocupa. Este ano a delegacia já registrou 1.186 ocorrência típicas, ou seja, aquelas que são previstas em Lei como crime. Só não estão contabilizados na delegacia os homicídios, que vão para a especializada neste tipo de crime. São números expressivos, porém, segundo a autoridade policial, a delegacia não encara este dado como negativo.

“Encaramos de forma positiva, pois estamos percebendo que todos estão de mãos dadas contra esses crimes. Felizmente a sociedade acordou e resolveu denunciar, pois esses crimes sempre ocorreram, o que não se tinha era uma confiança e coragem de formalizar a denúncia”, destacou Tuma.

A psicóloga Antonieta Cavalcante relata que, como consequência, essas crianças podem apresentar sintomas como apatia, alteração do sono, agressividade, isolamento, bulling, queda no rendimento escolar, tendências suicidas, medo da família e do agressor. “Essas vítimas precisam de um acompanhamento psicológico para saber lidar com a dor da violência, principalmente em casos intrafamiliar. Se não forem tratadas, podem adquirir alguma neurose ou até mesmo alguma psicopatia”, revelou.

A psicóloga alerta ainda que os pais devem evitar falar sobre o assunto a todo momento e culpar as crianças.

Choque

Este ano, um dos casos que chocou a sociedade manauara foi a de uma criança de 12 anos que em atitude de total desespero escreveu uma carta para mãe. No conteúdo ela relatava os abusos que vinha sofrendo por parte do pai há cerca de um ano. A reportagem do MANAUSHOJE procurou a família da vítima, porém, apenas uma cunhada da mãe atendeu e se reservou em falar que atualmente a menina está bem.

A atitude da criança revela outra preocupação: o medo de falar o que está sofrendo. “Faço um apelo aos pais: tenham um bom relacionamento com seus filhos, mostrem para eles que podem confiar em vocês em todas as ocasiões. Isso já ajuda muito a descobrir um abuso no início e quebrar o ciclo da violência, seja ela qual for”, enfatizou Juliana Tuma, que diariamente lida com casos envolvendo crianças.

No interior

Crimes contra crianças não são exclusividade de Manaus, contudo, o trabalho de conscientização para denúncia ainda é pouco expressivo nos municípios do estado. De acordo com o Conselho Tutelar de Parintins, este ano foram 18 casos denunciados. A conselheira Ana Mirando relata que uma das grandes dificuldades do órgão é com relação ao retorno dos órgãos competentes. “No nosso parecer, os processos demoram muito para serem finalizados e enquanto isso o agressor fica livre. Nossa preocupação é que eles voltem a fazer vítimas”, ressaltou a conselheira.

Procurado pela reportagem, o delegado Bruno Fraga informou que a delegacia não mede esforços, porém, em alguns casos é necessária uma apuração mais detalhada.

Mãe desconfiou do pai e não deu outra

Há apenas 15 dias para o Dia das Crianças, uma bebê de sete meses foi estuprada pelo pai, um flanelinha de 33 anos. De acordo com a mãe, uma dona de casa de 31 anos, no dia do crime ela tinha pedido para o pai da criança dar leite para ela, enquanto ela lavava louça. “Percebi que estava muito silêncio e quando entrei no quarto vi ele colocando a mão por dentro da fralda da minha filha. Na hora ele se assustou e quando eu gritei, ele me deu um soco na cara e saiu correndo”, lembrou a mãe.

O casal convivia há cinco anos e segundo a mãe, há algum tempo ela vinha percebendo que o flanelinha olhava muito para a menina quando ela estava nua.

Após o crime, a criança apresentou nervosismo e agressividade. “Nos primeiros dias ela estava assustada e quando eu ia fazer carinho nela, ficava agressiva”, relatou a dona de casa.

Atualmente o comportamento da bebê voltou ao normal, inclusive, voltando a brincar. No último sábado mãe e filha iniciaram um acompanhamento psicológico.

No mesmo dia o suspeito foi agredido pela população que ficou revoltada com a atitude do homem. Ele foi levado ao Hospital e Pronto Socorro Dr. João Lúcio e deve ser apresentado na delegacia após receber alta médica.

O cheiro do pedófilo na memória

Outro caso que revela a importância da confiança dentro de casa é o de uma dona de casa do Viver Melhor, de 33 anos, que atualmente tem dois filhos e no próximo mês ganhará mais um.

Em conversa com a reportagem do MANAUS HOJE, ela contou que durante dois anos sofreu abusos por parte do tio materno. “Eu tinha apenas sete anos quando ele começou a fazer carinhos mais fortes, chegando inclusive a me deixar nua na frente dele várias vezes. Eu não sabia o que ele estava fazendo, mas não me sentia bem”, lembrou.

O medo somado à falta de confiança fizeram com que ela se calasse durante anos e somente em fase adulta que a dona de casa conseguiu falar sobre o assunto. “Até hoje sinto o cheiro da boca dele. Nunca esqueci o que aconteceu, essa lembrança me perturba até hoje”, ressaltou a vítima que sofre até hoje ao lembrar o que passou..

Atualmente a dona de casa construiu família e leva a vida sempre atenta ao que acontece com os filhos. “Hoje eu fico esperta a tudo que rodeia meus filhos. Nunca permiti que eles ficassem sós com ninguém, principalmente estranhos. Não quero que eles sofram o que sofri”.

Processo lento para quem sofreu com a violência

No município de Parintins, mais um caso de violência sexual envolvendo familiares. Este ano uma criança do sexo feminino, de 10 anos, contou para uma tia que estava sendo aliciada pelo cunhado, marido da irmã dela. Segundo a vítima, os assédios vinham acontecendo há três anos, quando a menina tinha apenas sete anos de idade.

O caso chamou atenção porque o agressor repetiu o crime durante três anos, chegando inclusive a penetrar a menina por diversas vezes.

A tia da menina, que preferiu não ter a identidade revelada, contou à reportagem que atualmente a menina tenta levar a vida normalmente. “Estamos fazendo de tudo para minimizar as consequências deste crime. Hoje ela brinca com outras crianças, porém, é perceptível que ela está mais madura que as outras crianças”, revelou a tia que está acompanhando a menina.

“O que nos revolta é a demora em finalizar o processo. Enquanto isso, esse monstro está solto e pode até fazer novas vítimas”, relatou a dona de casa. Segundo o promotor de Justiça Flávio Mota, alguns processos demoram mais para serem concluídos, contudo, crimes assim são prioridade. “Estes processos seguem em segredo de justiça, por isso muitas vezes nem a família da vítima tem acesso”.

Conselho Tutelar salva muita vidas em Manaus

Apesar do crime sexual ser um dos que mais revolta a população, outros crimes são comuns dentro das casa e até mesmo nas ruas da cidade, à vista de toda população.

Somente na zona Centro-Sul, o conselho tutelar registrou neste ano 304 atendimentos envolvendo denúncias de negligência, maus tratos, abandono de incapaz, aliciamento, agressão psicológica, física e verbal, violência sexual, exploração sexual e exploração de trabalho infantil.

“A maioria dos casos são envolvendo familiares ou amigos próximos. Aqui nesta zona é constate denúncias de negligência, ou seja, a falta de cuidados básicos para crianças, como alimentação, higiene, educação”, revelou o conselheiro Marcelo de Castro, ressaltando que hoje em dia as denúncias aumentaram porque a população está mais consciente do seu papel.

Após a denúncia, o conselheiro tutelar verifica se são verdadeiras e caso sejam, a primeira medida é retirar essas vítimas do convívio dos agressores e encaminhá-las para um abrigo, caso não haja nenhum, familiar que tenha condições de permanecerem com elas. “O mais importante é termos a certeza de que essas vítimas não vão mais sofrer com a violência”, disse. As vítimas são encaminhadas para abrigos à espera da Justiça.

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