Sexta-feira, 20 de Setembro de 2019
Cadê os pipódromos?

‘Soltar papagaio’ pode ser um risco sem espaços adequados

Pipeiros defendem que a ‘arte’ faz resgate social de jovens. Prefeitura considera a atividade como patrimônio cultural, mas não investe em locais para a prática



WhatsApp_Image_2019-08-18_at_23.20.33_4EB45D82-C015-4ED9-BE36-072AF3CE2342.jpeg Foto: Junio Matos
19/08/2019 às 07:18

“Soltar papagaio” é patrimônio histórico e cultural de Manaus desde maio deste ano, quando o prefeito Artur Neto sancionou uma lei  (2.427/2019) que instituiu a prática no rol dos bens imateriais da capital. Contudo, a cidade não tem espaços administrados pela prefeitura propícios para a prática de soltar pipas (os pipódromos), o que é tema de lei promulgada pela Câmara Municipal   em 2013. 

A lei municipal nº 341/2013 indica ainda que a prefeitura deve ser responsável pela divulgação e orientação sobre os riscos que o manuseio do cerol pode acarretar, além de estimular ações que promovam a prática de empinar pipas e papagaios.

Mas, seis anos depois, a regulamentação da lei e a definição desses locais ainda não ocorreram. “Com o crescimento da cidade, deve-se estabelecer locais e horários adequados, por exemplo, e o ordenamento do comércio que funcionará nesses espaços”, defende o vereador Gilmar Nascimento, autor da Lei dos Pipódromos.

Há quatro anos, foi sancionada uma outra lei municipal (nº 1.968/ 2015) proibindo a venda, o armazenamento, o transporte e a distribuição do cerol e de qualquer outro material cortante para empinar pipas, exceto nas  áreas estabelecidas pelo poder municipal para essa finalidade, que inexistem.

O jeito é improvisar

Sem os espaços adequados, grupos que se organizam em torno da causa utilizam espaços informais para prática, como  áreas próximas ao Igarapé do Passarinho e do conjunto Viver Melhor, em frente à Avenida das Flores, na Zona Norte da capital.

Os grupos se articulam para estimular a atividade de forma segura. É o caso da Associação Manaus Pipa, que desenvolve ações para alertar jovens e adultos acerca dos perigos da brincadeira na rua. “O número de acidentes caiu bastante depois que começamos a atuar. Nosso trabalho de conscientização é feito pessoalmente”, afirma Fabian Lima, presidente da associação. 

E em uma nova tentativa de emplacar os pipódromos por força de lei, em agosto do ano passado (2018), o então vereador João Luiz, hoje deputado estadual, propôs outro projeto (PL) que dispõe sobre a criação do pipódromo municipal e a semana educativa do uso responsável de pipas. “Temos acompanhado que a prática de soltar pipas tem sido reprimida e, diante destes acidentes, a atividade tem sido generalizada como perigosa. Soltar pipas em locais onde o trânsito é intenso e existe concentração de fiação em postes também é um grande perigo para crianças e adultos”, assinala o trecho da justificativa da proposta. O PL ainda está em fase de tramitação na Câmara Municipal.

Autor do projeto que deu origem à lei 2.427/2019, o vereador Professor Samuel (PHS) observa que houve questionamentos a respeito da relevância da lei, mas diz que ela tem um significado importante para quem pratica. “Pode indicar futuros avanços no que diz respeito ao tema”, afirma.

O parlamentar diz que foi procurado por adeptos da atividade, que solicitaram medidas para tornar a pipa uma espécie de “marco” cultural. “Existem pessoas que gostam de dançar, outras gostam de futebol. Os pipeiros formam um grupo de interesse como qualquer outro”, diz o vereador, evocando o status artístico que a atividade adquiriu em vários países. “Na China e no Japão são realizados encontros de praticantes, e na Índia acontecem concursos de figuras geométricas retratando árvores, animais, pessoas e caricaturas”, ilustra.

Samuel ressalta que, apesar do lastro simbólico, a prática de soltar pipa é perigosa (por causa do cerol, mistura de vidro moído e cola utilizada para a fabricação de linhas) e, portanto, deve-se criar condições para uma brincadeira segura. “O objetivo da lei, nesse sentido, é forçar a construção de um pipódromo”, defende.

Pipeiros de Manaus defendem a atividade

A necessidade de um espaço adequado é reforçada pelo industriário Fernando Pimenta, praticante da arte de “embiocar” e “flechar” há mais de 40 anos. “Um local grande, onde pudéssemos brincar sem oferecer problemas para a sociedade, como papagaios enrolados em fios de eletricidade”, justifica. “É uma diversão barata, que atravessa gerações. Aprendi com meu pai, e minha avó vendia pipas na rua Monsenhor Coutinho, no Centro. A brincadeira tomou proporções que não havíamos imaginado, e também serve como uma fonte de renda para várias pessoas”.

Fernando afirma que chegou a mobilizar esforços, em parceria com outros adeptos e um amigo advogado para elaborar o estatuto que fundamentasse o projeto de criação de um pipódromo. “A ideia surgiu a partir da proposição de uma lei que proibia o uso do cerol. Então decidimos nos organizar e fazer contato com alguns políticos, tentamos fundar uma associação, mas ambas iniciativas não foram adiante”, relata. 

“Tem gente que só enxerga problemas. No entanto, há várias pessoas que saíram do caminho errado para vender papagaio”, contrapõe Fernando, uma das figuras mais conhecidas da área próxima ao Largo do Mestre Chico, Centro, onde crianças e adultos se reúnem todos os fins de semana para disputar o domínio dos ares.  

Poucos avanços

Na opinião do taxista Mário Jorge Pinheiro, a lei que transformou a prática em patrimônio traz poucos avanços. “Não faz diferença. Só queremos brincar. Essa é a maneira que encontramos para relaxar depois de uma semana inteira de trabalho”, define. No entanto, ele considera que um espaço exclusivo de praticantes seria uma contribuição importante ao público que frequenta a área próxima ao sambódromo. “Somos impedidos de brincar quando acontecem corridas de kart e shows”, explica.

O ajudante de pedreiro Fábio Rodrigues frequenta o mesmo local há cerca de cinco meses e considera que um espaço exclusivo é alternativa essencial para garantir a segurança. “Nas ruas,  crianças correm o risco de ser atropeladas”.

Procurado, o Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb) informou que em caso de edificação privada para a prática, o interessado deve entrar com um processo de licenciamento e projeto para devida regulamentação da área, seguindo a legislação urbanística em vigor. Mas, nada informou sobre os pipódromos municipais.

Repórter freelancer de A Crítica

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