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Avenida Sete de Setembro guarda histórias marcantes da capital amazonense

Uma das principais vias públicas de Manaus cruza com outras que, nos dias atuais, nos remetem a boas reflexões de Setembro  05/09/2015 às 09:59
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Um dos cruzamentos “mais quentes” e simbólicos de Manaus, as avenidas Sete de Setembro e Eduardo Ribeiro
Gerson severo dantas ---

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O nome dela é 7 de Setembro, mas bem que poderia ser avenida das Independências, tantas são as histórias e os cruzamentos históricos presentes nas esquinas de uma das principais vias públicas de Manaus. A ‘Sete’, como o manauense carinhosamente a chama, é uma avenida-metáfora de diferentes e dignos momentos do Brasil e do Amazonas.

A avenida começa na beira do rio Negro, no Centro, e nem tem 500 metros quando encontra a praça Dom Pedro II, o Imperador cujo pai deu o Grito da Independência às margens do então riacho (hoje córrego) do Ipiranga, em São Paulo, e nos livrou das amarras portuguesas inaugurando o Império de Dom Pedro de Orleans e Bragança 1º.

Vencendo as esquinas das ruas da Instalação e Governador Vitório, a Sete encontra com a Lobo D’Almada, que ao se tornar o terceiro governador da Província do Rio Negro (1791-1798), transfere a sede da província do Município de Barcelos, no Médio Rio Negro, para a cidade da Barra do Rio Negro, hoje conhecida pelo nome de Manaus. Essa decisão foi posteriormente revertida e só se tornou definitiva 1851.

Avançando célere pelas costas da igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, a avenida tem o mais simbólico dos cruzamentos ao encontrar a Eduardo Ribeiro, o governador que declarou nossa independência do atraso. Ribeiro, que governou de 1892 a 1896, modernizou Manaus, a começar por aterrar o igarapé do Espírito Santo e sobre ele construir a avenida que hoje leva o nome dele e dá acesso a outras grandes obras do “Pensador”: o Teatro Amazonas, o Palácio da Justiça e o Instituto Benjamim Constant. Ribeiro também nos deu luz elétrica, água encanada, telégrafo, rede de esgoto, praças e novas ruas, largos e bondes.

Passando pela Barroso, ela vai encontrar a rua cujo nome é homenagem a um dos próceres da brasilidade, a rua Ruy Barbosa. O político e jurista baiano nunca foi tão necessário como nos dias de hoje, pois foi ele que nos garantiu a independência da igreja ao redigir o decreto 119-1 de 7 de janeiro de 1890, separando definitivamente o Estado da igreja Católica Romana do Brasil. Aos que buscam nos dias atuais reverter essa independência, impondo temas religiosos ao ordenamento jurídico, uma visita a essa esquina seria um bom momento para reflexão histórica.

Passando novamente por um Dom Pedro II, dessa vez o colégio Estadual, a Sete de Setembro tem um dos mais metafóricos cruzamentos: com a avenida Getúlio Vargas. Ditador no Estado novo, “pai dos pobres” na democracia da Constituição de 1946, Getúlio, podemos dizer, garantiu a independência dos trabalhadores ao editar a Consolidação das Leis do Trabalho, até hoje um salvo-conduto contra a escravidão.

Agora, na real, a independência da escravidão vem mesmo é na próxima esquina da Sete de Setembro, quando ela cruza com a avenida Joaquim Nabuco, o grande abolicionista do Império e homem que conseguiu a libertação dos escravos, mas não a autonomia, pois nas palavras dele: “A escravidão permanecerá por muito tempo como característica nacional do Brasil”. Avançamos nesse aspecto, mas alguém tem dúvidas do acerto da frase de Nabuco?

A Sete de Setembro entra no terço final dela cruzando com a Igarapé de Manaus - onde numa greve de professores nos anos 80 o Governo do Estado mandou a Polícia Militar baixar o sarrafo sem dó nem piedade e sem independência -, passa a Major Gabriel, a Jonathas Pedrosa, a Visconde de Porto Alegre, a Duque de Caxias e finaliza seu caminho na Castelo Branco, que ao invés de independência, nos trouxe a ditadura de 1964. Aqui a metáfora foi invertida, com prisão superando liberdade.

Análise: Francinézio Amaral, Sociólogo

‘Memória, um exercício essencial’

“Um Estado independente é aquele que rompe com o domínio político, econômico e cultural exercido por outro Estado sobre ele, passando a construir suas relações políticas e econômicas sobre seu território e administrando a organização das suas relações socioculturais. Sendo assim, refletir sobre a Independência do Brasil nos dias atuais requer um exercício aprofundado e contínuo de ativação da memória social, especialmente quando se observa as características sui generis do caso brasileiro. Isso porque um Estado Independente não garante autonomia de um povo, principalmente em tempo de relações globalizadas e da circulação instantânea das informações de interesse público. Daí ser preciso lembrar que, apesar de termos optado por continuarmos dependentes econômica, política e culturalmente, conseguimos estruturar certas conquistas que não podem ser desprezadas no afã de um exercício de cidadania insípido, haja vista esse conceito ser extremamente deficitário entre nós, e que quase sempre só o requeremos para fins particulares. É preciso não perder de vista que conquistas, como democracia e laicidade, são pilares sem os quais nenhuma sociedade que queira ser independente, e principalmente autônoma, pode se sustentar. Assim o exercício da memória social é imprescindível em um momento de turbulência justamente por contribuir com o processo de construção de uma Nação que, um dia, poderemos vir a ser!”.

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