Terça-feira, 21 de Maio de 2019
Manaus

Aviso aos desafetos: Presos aproveitam ócio para criar raps e provocar traficantes rivais

Algumas letras falam de saudade, de esperança, de amor ou do cotidiano de dentro da cadeia, mas há outras que são usadas para fazer ameaças, ou desafiar grupos rivais.



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Grupos em Manaus e São Paulo utilizam o rap para se expressar
04/07/2015 às 14:22

Facções criminosas usam o “rap” para mandar recado a seus desafetos e, assim, demonstrar poder sobre os demais internos do sistema penitenciário. O mais recente ganhou as redes sociais com uma letra que, além de fazer apologia ao crime, exalta a facção criminosa Família do Norte (FDN) e o traficante fugitivo da Justiça João Pinto Carioca, o “João Branco”.

Além de mandar um recado ameaçando de morte o traficante Ronairon Moreira Negreiros, que comanda o tráfico de droga no bairro do Coroado, Zona Leste, mesmo de dentro da penitenciária.

O rap, que não tem autor definido, fala em nome da FDN, do “Bonde do João Branco”, chama Ronairon de traidor e o ameaça de morte dizendo que o recado é de João Branco e do preso Marcos Roberto Miranda da Silva, o “Marcos Pará”.

Os dois são acusados de integrar a FDN e estão denunciados pela execução do delegado de Polícia Civil Oscar Cardoso, ocorrido no dia 9 de março do ano passado.

“Pensou do jeito errado, cresceu o olho na Família, aqui é o certo pelo certo, com nós não tem perdão... aqui é do fechado se o bonde te pegar vai descarregar a pistola, general bateu o martelo e eu não posso conspirar, mandou fazer o rap e eu vim representar...” esses são trecho do funk do Bonde do João Branco.

A CRÍTICA teve acesso a uma fonte do sistema penitenciário que convive há anos com presos de vários sistemas. Esta revelou que os presos usam o ócio para produzir os raps. Algumas letras falam de saudade, de esperança, de amor ou do cotidiano de dentro da cadeia, mas há outras que são usadas para fazer ameaças, ou desafiar grupos rivais. “Faz parte da cultura da cadeia que começou há anos em outros estados”, disse

De acordo com a fonte, nas cadeias do Amazonas não é diferente. Apesar de a FDN ser uma facção, ela está dividida em grupos que são rivais. João Branco tem um grupo que é rival de Ronairon.

Este é parceiro de Alan Cartimário, o “Nanico”. Esses grupos tem interesses diferentes e vivem  se desentendendo.  Eles fazem os raps para demonstrar poder, passam o dia cantando e torcem para cair na mídia para se tornarem reconhecidos no mundo do crime.

Ousadia

Em 2013 a polícia prendeu e desarticulou uma organização criminosa voltada para o tráfico de cocaína e de maconha prensada, assaltos e homicídio que mantinha o comando na Praça 14, Zona Sul.

Os integrantes do grupo foram identificados a partir do rap “Beco Tarumã”, onde era cantado os nomes e a atuação de cada um dos criminosos. O rap foi gravado em um estúdio em São Paulo e mostrava o poder de comando e de fogo.

Produção do rap em SP

O pistoleiro da FDN Josias Cruz Barroso, o “Mão Branca”, 23, mandou fazer um rap para ele com o título de “Bonde do Mão Branca”.  Quando foi preso pela Polícia Federal, em 2012, revelou em depoimento ao delegado federal Leandro Almada que também  alugava armas para a prática de assaltos e crimes de pistolagem em Manaus.

“Mas se mexer com nós a bala come”, é o refrão principal do Bonde do Mão Branca, que conta com efeitos de granadas estourando e metralhadoras sendo disparadas, além de “beat box” (recurso utilizado para reproduzir sons de bateria com a voz).

A gravação, de acordo com a Polícia Federal, foi feita em um estúdio de São Paulo – ao contrário de alguns raps dos traficantes de Manaus.

A letra, além de descrever Mão Branca como uma pessoa inclemente, capaz de atirar contra quem o desafiar - até mesmo contra a polícia, também faz alusão ao pagamento do “arrego” (propina paga aos maus policiais), por “segurança”, bem como ao “patrão”, no caso o traficante José Roberto Fernandes, o “ Zé Roberto da Compensa”. 

De acordo com policiais federais que participaram da prisão de Mão Branca  e que preferiram não se identificar, ao revelar o CD contendo a música, ele se mostrou orgulhoso e queria que fosse “apresentada” à imprensa para que pudesse entrar na cadeia “com moral”.



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