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Barcos ficam ancorados em marinas improvisadas na orla do bairro Educandos

Para garantir a segurança de tanta embarcação, os administradores de marinas pagam equipes de até três pessoas que exercem a função de vigia 12/09/2015 às 14:01
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A Marinha do Brasil controla os primeiros 300 metros a partir da margem dos rios. Portanto, a funcionalidade das marinas não é considerada ilegal pela Marinha.
Nelson Brilhante Manaus

Saiu a cidade flutuante, formada por palafitas construídas sobre toras de madeira, que ocupou a frente de Manaus da década de 1920 à de 1960, entraram os vigias fluviais. Mais de mil embarcações, entre pequenos botes de alumínio e até lanchas de luxo, ficam ancorados em marinas improvisadas, nas orlas do igarapé de Educandos, zona Sul. A profissão dos vigias não é reconhecida pelo Ministério do Trabalho, mas tem gente que exerce a função há 29 anos e até hoje não foi incomodada nem pela Marinha do Brasil nem pela Capitania dos Portos.

Há anos a área é zoneada por vigilantes de embarcações, a maioria pertencente à mesma família. Eles fazem o monitoramento da área durante 24 horas, tentando evitar a ação dos piratas.

Embora corram mais riscos, os proprietários “fogem” dos preços altos cobrados pelas grandes marinas e deixam suas embarcações nesses ancoradouros improvisados. Segundo o vigia Raimundo dos Santos, são os próprios donos de embarcações que defendem a permanência das marinas naquele local, junto aos órgãos especializados.

Todos os entrevistados garantem que, apenas uma vez foram convidados a deixar o local, mas não sofreram nenhuma intimidação e continuaram a atividade. Só mudam de lugar quando o rio seca. Todos se mudam, com seus flutuantes, para o rio Negro, em frente à Manaus Moderna.

Dependendo do porte da embarcação, eles cobram de R$ 20 a R$ 80 por semana. Cilene Marinho, 48, que nasceu num flutuante e há 29 anos trabalha como vigia, o faturamento é modesto. “Às vezes não dá nem um salário mínimo. E ainda tem o risco de roubo de motores, que a gente tem que pagar”, revela Cilene.

Édson Bernard de Souza, 31, é “herdeiro” de um dos seis espaços, de aproximadamente 100 metros, cada, administrados por vigias fluviais. O sogro de Édson foi um dos pioneiros, há mais de 40 anos e hoje a família domina a maioria dos espaços. Édson, que trocou o trabalho de carregador na Manaus Moderna pelo de vigia, mora num flutuante com a família e cuida de mais de 200 embarcações. “É uma responsabilidade muito grande. Um tempo desses uns piratas roubaram um motor de lancha, fugiram mas foram presos no encontro das águas”, lembra Bernard.

“Há mais de quarenta anos o pioneiro foi o seu Cosme, que já morreu. Ele ajudou meu pai a iniciar aqui. Antigamente era muito perigoso. Os piratas eram conhecidos como barriga d’água e eram muito perigosos. Hoje está mais tranquilo”, lembra Francisco Lavareda, 41, que trabalha há dez anos como vigia.

Testemunhos

A vigia Micheli Perdigão, cuja marina fica embaixo da ponte de Educandos, revelou que já testemunhou pelo menos três tentativas de suicídio. “Eles, inclusive uma moça, pularam da ponte, quase em cima dos barcos mas, graças a Deus nenhum chegou a morrer”, contou Micheli.

Em números

 70 é número de canoas pequenas que ficam sob a responsabilidade da doméstica Micheli Perdigão de Aguiar, 28, que administra uma das marinas no igarapé de Educandos. Lá também ficam quatro lanchas tipo “expresso”, usadas para transporte de passageiros nos finais de semana e um barco de grande porte.

80 reais por mês é quanto o autônomo Max Elias, 34, paga para manter sua lancha abrigada na Marina do Davi, na Ponta Negra. Ele usa a embarcação apenas para turismo doméstico. “Mesmo estando na marina, você não fica sem o risco de ser roubado. Mas, graças a Deus, nunca mexeram na minha lancha”, reconhece.

Marinha apenas monitora a orla

A assessoria do 9º Distrito Naval da Marinha do Brasil informou, por meio de nota oficial que “Militares da Capitania Fluvial da Amazônia Ocidental (CFAOC) realizam, diariamente, inspeção naval na orla de Manaus, inclusive no igarapé do Educandos, visando fiscalizar se as embarcações estão inscritas na Capitania, se os condutores são habilitados e se as embarcações portam os equipamentos de salvatagem exigidos pela Autoridade Marítima”, diz a nota.

A Marinha do Brasil controla os primeiros 300 metros a partir da margem dos rios. Portanto, a funcionalidade das marinas não é considerada ilegal pela Marinha.

De acordo com o vigia Francisco Lavareda, realmente as equipes militares atuam na área, mas apenas fiscalizando documentações de embarcações ou em caso de acidentes.

Embora não seja uma atividade reconhecida e, por isso, não recolhem impostos, a vida na orla não é nada fácil. “Se oferecessem um bom dinheiro nós já tínhamos saído daqui. As crianças não tem onde brincar, nem passear, além do risco de contaminação, principalmente nesta época”, admite Lavareda.

Equipes de olho nos piratas

Para garantir a segurança de tanta embarcação, de todos os tipos, os administradores de marinas pagam equipes de até três pessoas que exercem a função de vigia. Eles se revezam em dois turnos (dia e noite), ficando em pontos estratégicos de observação a fim de evitar a ação dos ladrões, que chegam, sorrateiramente, pelo rio.

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