Terça-feira, 25 de Junho de 2019
POLÊMICA

Bolsonaro propõe reduzir verba para Filosofia e Sociologia; alunos e professores do AM criticam

Presidente disse que ministro da Educação estuda “descentralizar” investimento para “focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como: veterinária, engenharia e medicina”



bolsonaro_20E54033-E82D-427A-9766-6654004E62B1.JPG Foto: Reprodução/Internet
26/04/2019 às 13:45

O presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), defendeu nesta sexta-feira, no Twitter, a redução de investimentos federais nas faculdades de Filosofia e Sociologia. A iniciativa é uma das bandeiras do ministro da Educação, Abraham Weintraub.

Segundo Bolsonaro, o ministro da Educação estuda “descentralizar” investimento no ensino das duas áreas de humanas para “focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como: veterinária, engenharia e medicina”. Ele afirma que alunos já matriculados não serão afetados.

“A função do governo é respeitar o dinheiro do contribuinte, ensinando para os jovens a leitura, escrita e a fazer conta e depois um ofício que gere renda para a pessoa e bem-estar para a família, que melhore a sociedade em sua volta”, afirmou o presidente em sua conta no Twitter.

O presidente estadual do PSL no Amazonas, deputado federal Pablo Oliva, informou que o governo não pretende encerrar os cursos e apenas rever a plataforma de gastos. “Rever os gastos assim como vem fazendo com ONGs e institutos. Uma forma de tentar colocar a escola e o ensino sem viés ideológico, direcionado”, disse.

Reação dos alunos e professores

Professores e estudantes dos cursos de Sociologia e Filosofia reagiram ao discurso do presidente e classificaram a declaração como “trágica” e “retrocesso”.

Para o doutor em Sociologia e coordenador do programa de pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Marcelo Seráfico, abdicar da produção desse tipo de conhecimento significa abrir mão da formação da consciência acerca das relações, processos e estruturas constitutivas das sociedades modernas.

“Que importância há em se conhecer o modo de organização e transformação das sociedades? Desde pelo menos o século XIX, a importância desse conhecimento reside no fato de que ele permite que se entenda como e por que indivíduos e coletividades estruturam suas existências com base em valores, interesses e necessidades variados, muitas vezes convergentes, mas também conflitantes”, defende.

Para Seráfico, a decisão do presidente não irá liquidar a necessidade do ensino sociológico e filosófico.

Na avaliação do coordenador do curso de ciências sociais da Ufam, Tiago Jacaúna, o discurso é contrário ao movimento educacional nas ciências que visa a interdisciplinaridade e transdisciplinaridade. “Todas as ciências são importantes. Elas precisam está dialogando e juntas resolver os grandes problemas da sociedade. Esse tipo de declaração desrespeita áreas do conhecimento que promovem o desenvolvimento da cidadania e do pensamento crítico, primordiais para se ter uma democracia sadia”, defendeu.

O estudante de filosofia da Ufam, Aglauberto Lima, o papel da universidade e da sociedade é mobilizar manifestações para que a declaração não alcance o tom de benéfico.

“O que está acontecendo é a criminalização dos cursos de Sociologia e Filosofia. Para esse governo, não é interessante que as pessoas não tenham essa criticidade que os cursos permitem”, protestou.

Na avaliação da mestranda do Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura da Amazônia (PPGSCA) da Ufam, Paula Mello, a proposta implica em todas às áreas de conhecimento. “É como se ciências humanas não tivessem importância frente às outras ciências. Para que o ser humano precise somente entender os fenômenos da química, física e a matemática. Com isso a gente volta ao passado. É trágico”, declarou a pesquisadora de fenômenos sociais.O filósofo Fabiano de Abreu sugere como alternativa a extinção de privilégios da classe política para atenuar o orçamento. “Acredito que existem outros gastos que poderiamSiocól

ser cortados antes mesmo de qualquer coisa ligada a educação. Educação é algo que na atual conjuntura do Brasil continua sendo um investimento importantíssimo. O país padece com problemas históricos de educação e cultura. Em vez de cortar gastos na educação, poderia ser interessante reduzir o número de políticos e servidores públicos, assim como privilégios”, avalia.

A reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa da Ufam e aguarda posicionamento da universidade.

Análise

Sociólogo, Francinézio Amaral

“Os ataques  a filosofia e a sociologia  sempre foram recorrentes. Por ensinar o pensamento crítico, reflexivo e humanista, as disciplinas são a maior ameaça às elites patrimonialistas deste País. Na ditadura militar, a maior oposição aos generais ditadores, veio da classe estudantil. É o pensamento crítico que vai garantir que não se caia na barbaridade. Não sejamos apenas indivíduos programados como se fossem máquinas para atender aos interesses do modelo produtivo. É um pensamento tosco de quem acha que pode gerar retorno para a sociedade apenas com o tecnicismo. Se você não tem sociologia e filosofia, não tem médicos, engenheiros e veterinários com pensamento humanizado. É isso que vai possibilitar criar produtos e serviços que atendam as demandas da sociedade. O ministro demonstra com esse discurso  desconhecimento da área educacional. É absurdo não investir nas disciplinas das ciências humanas e investir na medicina, engenharia porque dá retorno imediato. Não existe isso. Nenhum curso dá retorno econômico, o que possibilita isso é crescimento e desenvolvimento”.

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