Terça-feira, 20 de Agosto de 2019
tragédia anunciada

No conjunto Boas Novas em Manaus todas as ruas têm bueiros sem tampa

Moradores de parentes que morreram afogados em bueiros vivem à espera de uma solução



BUEIRO_VALENDO08.jpg Joana mostra o bueiro em que o marido caiu há quatro anos e segue aberto Foto: Winnetou Almeida
30/11/2016 às 05:00

No dia 26 de janeiro de 2013, a aposentada Joana Silva de Souza, 77, recebeu uma das piores notícias da vida dela: o companheiro de mais de 30 anos,  João Feliciano de Souza, 63, havia caído no  bueiro existente na esquina de casa deles, na rua 1,  conjunto Boas Novas, Cidade Nova 2, Zona Norte. Feliciano chegou a ser socorrido por um dos vizinhos que presenciou o acidente e o conduziu ao Serviço de Pronto Atendimento (SPA) Danilo Corrêa, mas chegou no socorro sem vida, por ter se afogado no bueiro. Após quase quatro anos, o bueiro segue sem tampa e e sem nenhuma advertência para os moradores.

O comerciante José da Costa Martins, 58, que ajudou a retirar o autônomo de dentro do bueiro, lembra que neste dia chovia muito em Manaus e a rua estava totalmente alagada. “Vi quando Feliciano tentava retornar pra casa e de uma hora pra outra sumiu. Como sabia do bueiro corri para verificar se ele não tinha caído. Se demorasse alguns segundos, não teria nem conseguido  retirá-lo do bueiro, pois quando cheguei boa parte do corpo estava dentro do ralo. O segurei pelas pernas e um outro vizinho que passava no momento começou me ajudar. O retiramos do bueiro e nem pensei duas vezes, corri com ele  para o SPA, mas não sabia que ele já estava  morto”, relembrou o comerciante, ontem. 

A viúva Joana se desesperou quando soube do acidente, mas não imaginava que daquele momento em diante não veria mais o companheiro com vida. “Tivemos quatro filhos homens, mas todos se casaram e mudaram de Manaus”, contou. “Ele era o meu companheiro e eu era a razão de ele viver. Fico triste em saber que depois de quase quatro anos de sofrimento, até hoje ninguém veio colocar uma tampa no bueiro onde meu esposo caiu. Se não fosse pelo vizinho, talvez nunca tivesse conseguido enterrar Feliciano”, comentou.
Nas ruas vizinhas a casa da aposentada todos os bueiros se encontram sem proteção ou tampa. A CRÍTICA encontrou 10 bueiros neste quadra. Deste total, dois tinham apenas o gradil como proteção. No caso da rua 6, há o Centro Municipal de Educação Infantil (Cmei) Professor Rosendo de Lima Neto, onde muitas crianças estudam e correm risco de morte. Os pais contam que têm até medo de levá-los para a escola em dias de chuva.

“Quando chove nem saio com ele, pois sei que a ruas do conjunto são cheias de bueiros sem tampa. Em cada lateral da escola há um bueiro totalmente destampado. Qualquer vacilo, pode representar  uma queda fatal para essas crianças. Para evitar prefiro que meu filho fique sem ir para escola”, comentou a dona de casa Moema Brito, 34.

Compromisso  de tampar todos
A Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf)  firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) se comprometendo, no período de 120 dias, a tampar os bueiros da cidade que estão sem nenhuma cobertura ou proteção.
O TAC foi assinado com o  promotor Paulo Stélio Sabbá Guimarães, titular da 63ª Promotoria de Urbanismo. O descumprimento impõe ao Município multa de R$ 500 por dia de atraso, segundo cláusula penal .

Família de Gustavo segue destroçada
Ontem, completou 33 dias que o corpo do garoto Gustavo Silva Araújo, de 7 anos, foi encontrado pelo Corpo de Bombeiros nos fundos do condomínio Vila Suíça no bairro Tarumã, Zona Oeste. Para os pais de Gustavo, Leniza Alves da Silva e Antônio José Matos de Araújo, 43, a sensação é de que a qualquer momento o filho entrará em casa, lhes dará um abraço e irá brincar com a irmã mais nova, Ana Vitória da Silva Araújo, de um ano e oito meses, que todos os dias pergunta e chama pelo irmão.

A marca da tragédia ainda é viva na família. “Nossa vida toda foi no Monte das Oliveiras, e o bairro nunca teve a atenção que sempre necessitou. Foi preciso perder meu filho para que alguém pudesse fechar um bueiro. A dor é eterna e a saudade é imensa, só não quero que a sociedade esqueça da história de Gustavo e que a justiça seja feita pela vida do meu filho”, disse Antônio.

Gustavo caiu no bueiro na tarde do dia 23 de outubro quando brincava na chuva na rua da casa da avó, localizado na rua Louro Chumbo, no Monte das Oliveiras, Zona Norte. O corpo do garoto foi encontrado quatro dias após o ocorrido.

 

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