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Manaus
LUTA POR MELHORIA

Burocracia, inserção social, vulnerabilidade e assédio: a realidade de venezuelanos no AM

Atualmente, 76 imigrantes encontram abrigo em Centro Humanitário em Manaus. Grupo recebe apoio burocrático, jurídico e educacional. Mas problemas vão além, conta assistente social responsável por grupo 09/07/2018 às 16:43 - Atualizado em 09/07/2018 às 16:43
Show sem t tulo
Enquanto adultos se 'escondem' de exposição, crianças que ainda passam por processo de nivelamento para entrar na escola assistem a filme em área comum do abrigo (Isabella Pina)
Isabella Pina Manaus (AM)

Uma porta entreaberta deixa à vista o amontoado de camas bem distribuídas dentro de um quarto que não deve ter mais de 15m². Numa contagem rápida - e meio disfarçada - deu para contar seis pessoas dormindo. Uma outra moça penteava os cabelos. A assistente social apareceu nessa hora e pediu: “Não façam isso. Não invadam a privacidade deles”. E fechou a brecha da porta. Ninguém tinha nem pensado em começar a fazer a reportagem, era pura curiosidade. Mas, de pronto, o cinegrafista abaixou a câmera. O celular, que serviria para arriscar uma gravação, foi para o bolso de trás da calça.

“É tudo muito difícil para eles. As pessoas chegam aqui e parece que buscam assistir a um show. Apontam câmeras, forçam entrevistas. Eles ficam desconfortáveis. Um dia desses uma delas me falou que se sentia dentro de um zoológico”.

Quem conversa e conta os detalhes sobre os 76 venezuelanos que moram na Casa de Acolhida Santa Catarina de Sena é a assistente social Soraya Araújo, a única da área que trabalha e responde pelo projeto. A instalação é um centro humanitário administrado pela Cáritas Arquidiocesana de Manaus, com o apoio do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). Todos eles “fugiram” da Venezuela para encontrar abrigo no Brasil.

Eles, venezuelanos, fogem da crise financeira, social e política. Lá, com a inflação atingindo índices quase irracionais, falta de tudo. Comida e remédio são o gatilho para a migração. O Brasil é o caminho mais fácil. Eles fogem também dos holofotes que recebem a cada parada que fazem em busca de uma melhoria de vida. Fogem tanto, que, em pouco mais de uma hora em que a equipe de reportagem passou no abrigo, duas outras equipes passaram por lá. Todos eles, eventualmente, se esconderam no quarto ou dispersaram para áreas privadas. Ninguém quer narrar em primeira pessoa a triste história de vida.

“Ninguém aguenta mais a exibição. Para eles, tudo isso é muito vergonhoso. Quem quer estar numa situação dessas? Eles, aqui, recebem ajuda, apoio, comida. Mas não vivem bem. Não estão realizados. Eles são parados nas ruas para dar entrevistas. Parados enquanto buscam esmola ou imploram por emprego. Voltam envergonhados. Escondem o rosto. Se escondem. Pedem para que os deixem quietos. É muito delicada a situação e a exposição satura”.

LEIA MAIS: Fome, saudade e esperança: por vida melhor, venezuelanos habitam semáforo de Manaus

Depois da longa passagem por Roraima, a rota os direcionou ao Amazonas. Reconhecidos e participantes do processo de interiorização do Governo Federal, são 240 venezuelanos em Manaus. Destes, 122 foram direcionados à casa de apoio. Quarenta e seis deles já conseguiram alguma forma de sustento e, agora, vivem por conta própria. 

“Hoje, abrigamos 76 pessoas. São grandes ou pequenas famílias venezuelanas. Estão na casa desde maio e a tendência é de que, até final de julho, eles saiam para que possamos receber novo grupo. Já ouvi história de gente que passou mais de quatro dias andando, a pé, até conseguir chegar aqui. É tudo muito intenso para essas pessoas”, conta Soraya.

Instabilidade emocional e vulnerabilidade

Como quem protege entes queridos, a assistente fala sobre os abrigados com propriedade. É de uma dessas conversas que surge o questionamento sobre o estado psicológico e tratamento dos venezuelanos. Muito mais do que processo burocrático, há o processo de adaptação. De inserção na comunidade. Há o confronto de realidade. E isso machuca. Deixa marcas claras em quem explora uma vida nova e cheia de expectativas em um ambiente que não pode suprir tudo o que se almeja. 

“Eles chegam frágeis. Vulneráveis é a palavra. Vulneráveis de tudo. Chegam cheios de expectativas. Podemos parcelar esse processo de chegada: num primeiro momento, eles chegam com a expectativa de sanar a fome, a angústia. O próximo é o sonho de encontrar um emprego, é a perspectiva de vida nova. A partir daí eles começam a esbarrar na realidade. A idealização começa a se apresentar contrária. E aí vem uma série de coisas que os leva à realização de que não é só essa mudança de lugar que vai mudar as suas vidas. É uma realização muito forte”, explica Soraya.

Eles recebem todo um aparato de apoio. Ainda assim, o suporte ainda é muito superficial. Necessário, mas superficial. É direto. Resolvem-se problemas burocráticos, fazem retirada e renovação de documentação, recebem aulas de português e saem às ruas em busca de emprego. É tudo muito imediato, de supetão. Os problemas esbarram na fragilidade de um povo que está acostumado a não ter nada. E, do pouco que ganham, dividem com o resto da família que ainda vive no país chefiado por Nicolás Maduro. 

“O nosso processo de ajuda e direcionamento, seguindo os princípios do programa de interiorização é: primeiro fazemos a inclusão, a integração. Isso se dá no espaço da escola, do trabalho, da sociedade, da comunidade em geral. E aí temos um trabalho sócio-jurídico dentro da casa. Quanto à saúde, se houver necessidade, vamos encaminhar para o setor. Isso serve para outras áreas”.

‘Crias’ da casa

Destes 76 venezuelanos, divididos entre pequenos - mas confortáveis e bem estruturados - espaços na Casa de Acolhida, 35 são crianças. Durante a visita da reportagem à Casa de acolhida, elas foram as únicas que não se intimidaram. Todos os adultos se dispersaram para os quartos. As crianças não. Seguiram com os olhos colados à uma pequena televisão que exibia um filme de animação. 

Elas também recebem todo o apoio com aulas da língua e direcionamento para o setor educacional do Estado do Amazonas. Elas fazem processo de nivelamento para uma adequação à série que comporte as necessidades.

“Estar em uma sala de aula, em outro país, sem amigos, falando uma língua que não é sua... E numa série errada? Imagina a pressão em cima dessa criança. Não podemos deixar isso acontecer”.

Como ajudar?

Há um processo seletivo, com pouca - mas necessária - burocracia para profissionais que possam trabalhar voluntariamente na Casa de acolhida. Mas é possível estender a mão de outras formas. 

A entidade recebe doações de tudo. Com ênfase para três itens essenciais: fogão, geladeira e colchão. Roupa eles têm. Não que não seja importante. Vale também. 

O grupo prefere não trabalhar com ajuda financeira direta. “Se a pessoa tem dinheiro e quer ajudar na situação deles, então pedimos que compre comida, material escolar para as crianças, ou os itens de eletrodoméstico que melhorem nossa estrutura para seguir com o trabalho”.

A Casa de Acolhida é aberta 24h. A assistência social passa a maior parte do dia lá e pode ajuda. À noite, vigias estão autorizados a receber doações. Para entrar em contato, a Arquidiocese disponibiliza dois números: (92) 3663-8163 e (92) 99388-0771.

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