Quarta-feira, 12 de Agosto de 2020
Mobilidade

Busca por estacionamento sem a Zona Azul transforma Centro em ‘zona de guerra’

Suspenso até o momento por conta da pandemia de Covid-19, o serviço rotativo ‘Zona Azul’ está dividindo opiniões entre empresariado, que é a favor da volta, e flanelinhas e lojistas, que preferem que o serviço não exista



zCD0131-1_p01_35F9EC15-403D-423F-A70B-225BD287A66E.jpg Foto: Euzivaldo Queiroz
31/07/2020 às 09:38

Suspenso até o momento por conta da pandemia do Covid-19, a cobrança de vagas de estacionamento rotativo do serviço “Zona Azul”, que abrange a área central de Manaus e também o conjunto Vieiralves, está dividindo ainda mais opiniões entre o empresariado - que é a favor do retorno imediato da medida -, e flanelinhas, condutores de veículos e lojistas que são terminantemente contra sua existência .

O argumento dos empresários é que os estabelecimentos instalados no Centro de Manaus estão sofrendo as consequências e prejuízos da desorganização do trânsito na área histórica.



Já os guardadores de veículos se dizem prejudicados em seu  ganha-pão, os motoristas reclamam não ter a orientação devida por parte dos funcionários do Zona Azul e parte do empresariado lojista se queixa da queda nas vendas - que já havia diminuído – quando o serviço estava ativo.     

Quando criado, o Zona Azul ofertava 3.323 vagas, sendo 2.694 vagas na área central de Manaus e outras 629 no conjunto Vieiralves, Zona Centro-Sul da capital amazonense, com o serviço sendo realizado pela empresa Consórcio Amazônia, Tecnologia de Trânsito da Amazônia SPE – Ltda., detentora da outorga do serviço, conforme contrato nº 014/2015 – celebrado junto à Prefeitura Municipal de Manaus (PMM).

O serviço funcionava com cobrança de taxa de R$ 2,45 por hora de estacionamento, com créditos que podiam ser adquiridos mediante compra por aplicativo disponível gratuitamente nas lojas Google Play e App Store, ou no apps.apple.com/br/app/zona-azul-manaus/. O tempo-limite era de 3 horas, e após esse período o motorista era multado.

A diretoria da Associação Comercial do Amazonas decidiu oficializar, junto à Prefeitura de Manaus e ao consórcio que administra o estacionamento rotativo, o pedido de imediato retorno do Zona Azul sob o argumento da falta de estacionamento e desorganização do trânsito na área central da capital.

Por meio de sua assessoria de comunicação, a ACA informou que pretende “se unir a Federação do Comércio (Fecomércio) e a Câmara dos Dirigentes Lojistas de Manaus (CDL-AM), que já manifestaram o mesmo interesse. A proposta é de uma retomada do estacionamento oficial no centro já a partir da próxima segunda-feira, três de agosto”.

“Pretendemos reunir comerciantes para que se entendam o quanto isso está influenciando no comércio. As lojas já abriram e precisamos que os clientes voltem a encontrar onde estacionar no centro. Hoje as vagas estão sendo ocupadas de forma errada, sem a rotatividade que beneficiou o acesso do cliente às lojas”, explicou Jorge Lima, presidente da Associação Comercial do Amazonas, em reunião semanal do empresariado realizada na última quarta-feira.

O dirigente, que conduziu o encontro, se dispôs a dar andamento às demandas como o envio de ofícios, ontem, pedindo a retomada do Zona Azul e ainda procurar, presencialmente, os representantes para reforçar essa necessidade imediata de retorno.

No encontro da ACA, os empresários se manifestaram a favor do reinício do Zona Azul.  “Recebemos a informação de que essa suspensão da cobrança do Zona Azul será postergada por mais 30 dias, mas isso não tem condições porque hoje o centro está sofrendo a falta de fiscalização. Os clientes ficam sem ter onde estacionar e os flanelinhas voltaram a tomar conta das ruas, precisamos solicitar com urgência a volta do Zona Azul”, comentou o diretor do Patrimônio e Legado Ali Bawab representante de lojas dos calçadões. Outros diretores e associados reforçaram a necessidade da reorganização do trânsito e do estacionamento na área central, levando em consideração os clientes que voltaram a frequentar a região, e a expectativa é que o fluxo aumente por conta do dia dos pais e do reabastecimento das lojas. “Esse mês agora de julho foi um mês sacrificado pela falta de produtos. Agora que começaram a chegar os produtos eu penso que prorrogar por mais 30 dias (o estacionamento rotativo) é inviável, porque o Zona Azul proporciona uma rotatividade de clientes”, destaca o 1º tesoureiro Jhonny Azevedo que é diretor do grupo TVLar.

Edifício Garagem precisa de apoio, dizem empresários

Um outro ponto envolvendo  estacionamento, que também entrou na discussão da última quarta-feira na ACA, foi o Edifício Garagem localizado  na rua Floriano Peixoto, Centro e que, segundo os diretores, está desativado.

“O edifício garagem foi interditado sob o argumento de problema de segurança e foi interditado antes do começo do Zona Azul”, disse o 2º tesoureiro, Victor Amaral.

A diretora Acácia Ferreira também se manifestou sobre o assunto. “Precisamos pedir um apoio para o edifício garagem. Eu acho injusto e desleal com os comerciantes a interdição do edifício.  São mais de dois anos fechado e é um prejuízo muito grande”.

Em março, a Associação dos Empresários do Vieiralves (AEV) elaborou proposta para mudar a lei do Zona Azul em Manaus, permitindo que as regras do estacionamento rotativo fossem adequadas às características de cada região da cidade onde o sistema for implementado.

Prefeitura vai prorrogar a suspensão de cobrança de novo

A Prefeitura  de Manaus informa que o serviço está suspenso desde 25 de março e que sempre manteve o diálogo com toda e qualquer categoria que procure o município em busca de soluções para a cidade e reforça que analisa o pleito dos comerciantes e o melhor encaminhamento às questões. Por outro lado, a Prefeitura deixa claro que, neste momento, a prioridade é avaliar a evolução da pandemia de Covid-19, pois a situação ainda requer cuidados. Diante disso, a prorrogação da suspensão de cobrança do Zona Azul já vinha sendo analisada. A decisão deverá ser publicada no Diário Oficial do Município nos próximos dias.

Criado pela Lei Municipal nº 1.534 de 2010, mas funcionando desde junho de 2018, o Zona Azul visava oferecer estacionamento rotativo de fácil acesso. A cobrança do serviço foi suspensa, este ano, pela 1ª vez, em 25 de março pelo Decreto Municipal 4.792, por 30 dias. O decreto nº 4.813 prorrogou a suspensão até 31 de maio. Já em 2 de junho, mediante decreto nº 4.837, a prorrogação passou a valer até hoje, 31 de julho.

Blog de Marcos Edilson, gerente comercial

“Sou contra o Zona Azul porque o próprio cliente que vem ao Centro da cidade está procurando praticidade, coisa que o Zona Azul não oferece. Ao contrário: ‘oferece’ uma exigência à pessoa, e isso não é bom para nenhum tipo de consumidor ou segmento, para fazer nenhum tipo de negócio. Tivemos muitos problemas quando a Zona Azul estava funcionando aqui no Centro. Perdemos algumas vendas e alguns clientes e tivemos prejuízos no comércio porque o cliente que paga 2 horas no Zona Azul não pode ficar à vontade numa loja, não pelo horário, mas pelo horário que tem que tirar o carro do local em que fica estacionado, senão é multado e guinchado. Então, isso não trouxe benefício.”

Flanelinhas, motoristas e lojistas contra

Os guardadores de veículos, motoristas e lojistas do Centro ouvidos pela reportagem de A CRÍTICA comentaram ser terminantemente contra o retorno do Zona Sul, e vão até mais além ao comentarem ser contrários até mesmo a criação do serviço.

Os flanelinhas são críticos vorazes do Zona Azul pelo fato do serviço de cobrança tirar, segundo eles, seu ganha-pão. “Conosco as pessoas ficam com seu carro estacionado até bem dizer o dia todinho no Centro, o tempo que quiserem. Muitos pais de famílias ficaram desempregados quando veio o Zona Azul. Se o Zona voltar vai quebrar o comércio”, disse o flanelinha Kennedy Oliveira da Silva, membro da Associação dos Guardadores e Lavadores Autônomos de Veículos do Amazonas (Aglavam).

“Sustento dois filhos e pago aluguel com meu trabalho. Se o Zona Azul vamos passar necessidades de novo”, completou ele, que atua no Centro há 36 anos, é morador da Compensa e diz cobrar “o que o motorista quiser dar, seja R$ 1 a R$ 2”.

Resolino Tavares de Souza, 50, é flanelinha do Centro há 35 anos e também não concorda com o ZA. “O Zona Azul não deveria existir pois vai tirar o emprego de muitos pais de família. Motoristas são prejudicados, enfim. Já se paga tanto imposto, e ainda vão pagar mais um?”, conta o guardador.

A motorista Ziza Albuquerque da Silva, 30, que é manicure, não apóia o Zona Azul e prefere pagar aos flanelinhas. “Já ocorreram situações nas quais eu tive que ficar procurando o monitor para pagar a taxa de R$ 2,45. E acabei sendo multada em R$ 114: a multa venceu há dois meses e ainda não paguei. Não há local específico para motocicletas, mas tenho que pagar IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores). Por mim, o Zona Azul nunca voltaria”, disse ela, ontem, na avenida Eduardo Ribeiro.

Lojista

O gerente de loja, Marcos Edilson, há 36 anos trabalhando no Centro de Manaus, não tem números dos prejuízos com o Zona Azul, mas diz que foram elevados. “Em todos os dias de Zona Azul nós perdíamos um pouco. E, no decorrer do mês, dava um montante que declaramos como prejuízo. Para um lojista ou um segmento que precisa vender, isso é prejuízo, algo que hoje não podemos  permitir”

Repórter de A Crítica

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